Agosto ferve em lume brando o céu eléctrico em frenesim ameaça alarde de trovão. Arrasta-se a plebe pela casa pela cama pela rua pelo chumbo sob as cabeças cinzento sujo que nem a água chega para clarear.
A contabilidade toma conta da vida quanto custa andar que as solas dos sapatos também se gastam quanto custa telefonar que a conversa já estafa quanto custa a refeição que de fartura estamos parcos.
Contam-se moedas e cabeças carapaus e bocas medem-se alturas e pesos calculam-se passos quilómetros e horas ao minuto ou ao segundo pois o futuro não se conhece nem serve de norte.
Agosto marina a paciência de quem já não espera. Calam-se as vozes de dentro que nem vale a pena pensar. Sobrevivemos ao desgosto apenas sobra o mole descoser dos dias.