J. S. Bach & Swingle Sisters
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
O apelo à ajuda externa, que a Troika corporiza e simboliza, vai condicionar muitas das medidas que o próximo governo tiver que tomar, a curto e a médio prazo. É importante que nos lembremos, com as devidas reservas da manipulação e da especulação d'Os Mercados e com a anemia da União Europeia, que foi o país que pediu essa intervenção e que, por isso mesmo, os receios da falta de democracia pelo facto de a Troika pretender um acordo com a maior parte dos partidos políticos e dos parceiros sociais me parecem inconsequentes. Infelizmente, há um plano de financiamento a Portugal. É pouco provável que a Troika aceite que sejamos nós a ditar as condições do empréstimo.
É claro que os representantes do governo demissionário e dos restantes partidos e restantes parceiros sociais deverão tentar o que puderem para que as medidas sejam o menos gravosas possível, em termos sociais.
Mas a campanha política tem ainda muito que esclarecer, se é que alguém alguma vez estará interessado em o fazer. Eu, por exemplo, gostaria muito que me esclarecessem quanto a algumas matérias:
August Macke: Children at the Greengrocer's I
Mãe não tem cor.
Depende do instante em que olha o seu filho
do sorriso com que pensa nele
da angústia com que o procura.
Mãe aprende a ser camaleão.
Nesse arco-íris de vida em que se transforma
mãe acaba por morrer branca
na fusão de todas as cores.
Kyee Myintt Saw: Market of Umbrella
Começa a ser muito difícil sacudir o asco que sinto quando ouço as pseudo-elites classificarem o estado do país com os superlativos que vão descobrindo, cada vez mais entusiásticos, dramáticos e entediantes, de tão superficiais.
Não há vislumbre de discussão sobre a ideia de qual o modelo social, qual o modelo de desenvolvimento que politica, económica e culturalmente se pensa para Portugal. É preciso crescimento, mas como? É preciso reduzir despesas, mas quais? É preciso privatizar serviços do estado, mas quais os custos sociais que estamos dispostos a suportar? É preciso parar com o investimento público, nomeadamente no TGV e no novo aeroporto, mas então qual o modelo de futuro se tem em mente?
A noção de democracia vai encolhendo dia a dia ao ouvirmos as inacreditáveis declarações daqueles em quem deveremos votar, como a criminalização das responsabilidades políticas e a subalternização da política à economia. Os diferentes actores, nas diferentes áreas de actividade, vão-se posicionando não se sabe exactamente porquê e para quê.
Leio a preocupação da Ordem dos Médicos em relação às consequências das restrições financeiras no SNS, abrindo um endereço electrónico para as queixas e denúncias sobre esse tipo de situações. É claro que a Ordem dos Médicos deve estar muito atenta a tudo o que resultar em diminuição da qualidade de tratamento dos doentes. Só que nunca me apercebi de idênticas preocupações em relação a outro tipo de riscos que envolvem redução na qualidade do tratamento, como o não cumprimento de horários, os atestados falsos, a requisição totalmente inexplicável de exames complementares de diagnóstico, a falta de comunicação, a desinformação sobre prescrição de genéricos, a incapacidade de preenchimento de processos clínicos, etc., etc., etc. Lembro-me até de ter lido nos jornais que a Ordem dos Médicos nem tinha capacidade para avaliar as queixas por mal prática que lhe chegavam.
Não tenho a mínima capacidade de perceber se a maior parte das pessoas, aquelas que todos os dias enchem os transportes públicos, os tais que formam um dos enormes buracos financeiros do estado e que o movimento Mais Sociedade quer privatizar, aquelas que aos sábados enchem o mercado e escolhem batatas, cebolas e pimentos, que resmungam com o preço da fruta e pedem meio frango, no talho, se dão ao trabalho de ler ou ouvir o que as pseudo-elites se entretêm a espalhar pelos media que, de uma maneira totalmente acéfala, reproduzem e replicam com ar grave e sério. Mas penso que a relativa calma que se sente não tem a ver com o amorfismo e a falta de cultura democrática do povo, com dizem os saudosos da democracia reivindicativa, de greves, manifestações e muitos chavões. A verdade é que ninguém liga nenhuma. É uma questão de sobrevivência e de salvaguarda de alguma sanidade mental.
Tarsila do Amaral: Operários
Não concordo com tolerâncias de ponto nem com pontes, por todos os motivos e a toda a hora, com os múltiplos feriados, com greves às 6ªs e às 2ªs feiras. Não concordo com a cultura de aproveitamento de todas as razões para não se trabalhar. Detesto aquela conversa de lamúria permanente contra a ideia do trabalho. Acho muito bem que se autorize a abertura de lojas, hipermercados ou outras, aos Domingos e Feriados.
Mas há alguns dias que, pelo forte simbolismo e pela importância deste devem ser respeitados como dias feriados, para todos. Um deles é o 1º de Maio. Todos os trabalhadores têm o direito de gozar esse feriado. A pressão que alguns empresários têm feito, em tempo de escassez de emprego, é inaceitável, é aproveitamento e exploração do mais fraco. Isso sim, é resquício do capitalismo selvagem.
(...) Quem vier dizer que consegue garantir o acesso sem restringir não está a falar verdade. É necessário fazer tudo para que nos próximos três, quatro anos a despesa se mantenha controlada (crescimento de zero ou um por cento, no máximo), o que implica um trabalho muito intenso na eficiência interna. Mas é importante que não sejam impostas mais medidas de carácter cego e que não se avance numa espiral de agravamento. Dois milhões de portugueses vivem abaixo do limiar de pobreza e quatro milhões não pagam IRS. São pessoas que dependem do sistema público. Entrar num processo de acionamento em saúde significa passar uma fronteira muito perigosa.
(...) O BE, o partido da grande esquerda, recusou-se a negociar o pacote de medidas com a UE e FMI, só para descobrir que continuava em queda nas sondagens, para além de ver aumentada a contestação interna a Louçã. De repente, quer saltar para dentro do comboio em andamento, perto da estação de chegada, para poder dizer que não negociou com os malandros mas tinha propostas magníficas que os malandros recusaram. (...)
Ainda bem que algumas coisas vão encontrando a sua justa medida. A coligação negativa que decidiu suspender a avaliação de desempenho dos professores teve o seu epílogo com o chumbo do Tribunal Constitucional.
Outras continuam no descaminho do inenarrável, como a declaração de Eduardo Catroga, ao dizer que as gerações mais jovens deviam pôr este Governo em tribunal.
O nível da campanha eleitoral e de quem a faz é bem patente.
Também é interessante ouvir os vários porta-vozes do PSD a pedir ao país a responsabilização dos 6 anos de governo do PS, para além da exigência da prestação de contas por 6 anos de governação socialista.
Esquecem-se convenientemente que o PS já prestou contas em 2009, indo a eleições e tendo-as vencido. Prestá-las-á novamente a 5 de Junho. O programa que tem, bom, mau, assim-assim, com TGV ou sem ele, fora da realidade ou dentro dela, será sufragado pelos eleitores.
A democracia é assim. Os tribunais devem servir para julgar crimes. Seria bom que Eduardo Catroga e outros como ele se lembrem da separação de poderes e, já agora, da decência.
Deitada no sofá, obedecendo ao seu pedido, sinto as mãozinhas pequenas em festas, nos meus pés. - Estou a pôr creme à vovó (carinha so...