15 maio 2010

Que Europa?

 


A construção europeia tem já várias décadas e surge como uma hipótese de manter a paz num continente dilacerado por duas grandes guerras e de formar um bloco económico e político que pudesse negociar com outros blocos.


 


Quando a esquerda, em Portugal, nos sucessivos tratados europeus, se mostrou sempre favorável à integração e à união económica e política, aceitou prescindir do poder decisório em várias áreas. Mas essas cedências tinham sempre em vista maiores ganhos em estabilidade política e económica, uma maior justiça social, o alargamento do nosso espaço comercial e cultural, a eliminação das fronteiras que nos acantonavam e limitavam.


 


É inegável que todos beneficiámos com a entrada na União Europeia, e penso que fez todo o sentido termos aderido à moeda única.


 


Isso não nos deve impedir de reavaliar a situação, à luz do que se passou desde 2008, quando se iniciou a crise global. O que, de início e até há pouco tempo era a opinião dominante, com a manutenção de apoios sociais, a redução do défice vagarosa e cautelosa, a política de investimentos públicos de forma a reanimar as economias da zona euro e de evitar uma recessão que se podia eternizar, mudou repentinamente para uma política económica de redução do défice a todo o custo e rapidamente, de implementação de cortes nas despesas estatais e aumento de impostos.


 


A União Europeia está refém da política interna alemã e das dificuldades que a Alemanha tem de defender o projecto de união económica e política de uma Europa coesa. Por isso o ataque especulativo dos mercados, aquela entidade mirífica que manda no mundo, ao euro e não ao dólar ou a outras moedas, tal como referiu António Costa na última Quadratura do Círculo.


 


Será então que esta Europa nos interessa? Será que, como diz Porfírio Silva, temos que ter mais esquerda europeísta? Qual é a Europa de que estamos a falar?


 


Uma coisa é a existência de directrizes para que haja estabilidade e controlo financeiro nos países do Euro – os Pactos de Estabilidade e Crescimento negociados com Bruxelas. Outra muito diferente é não haver qualquer capacidade de decidir os orçamentos anuais do estado.


 


Para que servem as campanhas políticas com anúncio de programas e políticas diferentes consoante as diferentes forças partidárias que se apresentam a eleições? Que capacidade têm os governantes de honrarem os compromissos firmados com os eleitores se, num fim-de-semana, têm que desdizer o que prometeram na semana anterior?


 


A esquerda europeísta deveria repensar qual o modelo de Europa que quer, qual o modelo de representação democrática, qual o regime político que defende e a quem deve prestar contas. A Europa que temos, se mantiver neste rumo, está condenada a desintegrar-se. Talvez a ideia de Jorge Bateira seja uma boa alternativa. Talvez fosse interessante que o Parlamento e os partidos políticos discutissem estas matérias, que são as verdadeiramente importantes para a definição do futuro, em vez de se entreterem em conversas de comadres desocupadas.


 

14 maio 2010

José Luís Saldanha Sanches


 


Não conheci Saldanha Sanches pessoalmente. Mas os testemunhos que fui lendo ao longo do dia de quem o conheceu fortaleceram a minha opinião de que era uma homem corajoso, frontal, honesto, inteiro.


 


Para quem não leu, fica a ligação para uma entrevista que deu em conjunto com Maria José Morgado, onde recordaram os tempos de fundamentalismo e quase ascese na luta revolucionária, com um distanciamento saudável e crítico, de quem não cristalizou na arrogância dos donos do mundo.

13 maio 2010

Corazon Espinado










Santana & Maná


 


 


Esa mujer me esta matando
Me a espinado el corazon
Por mas que trato de olvidarla


 


Mi alma no da razon
Mi corazon aplastado
Herido y abandonado
Aber aber tu sabes dime mi amor por favor
Que dolor nos quedo


 


Chorus:
Ah ah ah corazon espinado
Ah ah ah como me duele el amor


 


Como duele como duele el corazon
Cuando nostiene entregados
Pero no olvides mujer que algun dia diras
Hay ya yay como me duele el amor


 


Como me duele el olvido
Como duele el corazon
Como me duele estar vivo
Sin tenerte aun lado amor


 


Corazon espinado

Iniciativa política

Talvez não haja mesmo alternativa, até porque cada vez mais não há capacidade de decisão nem soberania, como tão bem explicou Luís Naves. A Europa, mais exactamente a Alemanha e a França, decidem exactamente como se devem governar os países indisciplinados do sul.


 


Mas José Sócrates já devia ter feito o que hoje fez – falar ao país. Explicar o porquê das mudanças do PEC, as razões de tão acelerado pânico internacional, que não é justificado, já sabemos, mas que obriga a desistências e a inflexões de promessas feitas há uma semana.


 


Quando a hora é de aperto é preciso um líder que assuma os problemas e aponte soluções. Sócrates perdeu a iniciativa política na pior altura. Cavaco Silva e Passos Coelho assumiram as rédeas da governação sem que se ouça uma voz do governo, uma voz do partido, assumir a dianteira, confrontar a população com a escolha, ou a falta de escolhas, que temos.


 


Mais uma vez o BE e o PCP reagiram previsivelmente, anunciando desastres e contestação social, mas abstendo-se de explicar qual a alternativa.


 


Talvez não haja mesmo qualquer alternativa, mas quem nós elegemos para governar foi o PS e o seu líder. É bom que se lembrem disso e que o PS perceba que tem responsabilidades. É bom que Sócrates entenda que não se pode refugiar no silêncio. Até porque os resultados dos indicadores económicos do 1º trimestre até são animadores.


 


Quanto à austeridade vai acontecer o mesmo que aconteceu às reformas estruturais – todos as achavam indispensáveis, mas quando foram tentadas, iniciadas ou feitas, houve um esquecimento oportunista da inquestionável necessidade reformista.

11 maio 2010

Promiscuidades

Estou de tal maneira em frontal desacordo com a forma como o Estado Português reage à visita do Papa que me custa expressá-lo.


 


Este é um país em que há legislação sobre a liberdade religiosa, em que a separação entre a religião e o estado está consagrada na Constituição.


 


O Papa deveria ser recebido com a pompa e a circunstância de um Chefe de Estado. O facto de ser um líder religioso é importante para os que professam a mesma religião.


 


Como é possível parar o país durante três dias para receber um líder religioso? Como pode o Presidente da República confundir desta maneira o seu lugar com as suas convicções pessoais? Como pode o chefe de um governo socialista, numa éopca de tantas dificuldades no país, demagogicamente pretender ganhar algum conforto político com esta medida?


 


Com estes gestos o Estado desrespeita-se si próprio.

10 maio 2010

Em nome dos portugueses


 


Quando regressava a casa ouvi o fim de uma entrevista a Fernando Tordo, no Rádio Clube Português. Perguntava ele (e pergunto eu) porque é que 10 antigos ministros das Finanças, após uma audiência com o Presidente da República, falam nos portugueses? Quem lhes deu legitimidade para falar em nosso nome? Quem os elegeu? São representantes de que portugueses? Dos que votaram maioritariamente no PS para governar?

09 maio 2010

Suspendamos

A suspensão das grandes obras públicas, como lhes chamam, o novo aeroporto, a terceira travessia do Tejo e o TGV, são a vitótia do PSD e do CDS, cerca de 6 meses após uma derrota eleitoral.


 


A partir de agora fica demonstrado que as campanhas eleitorais, os programas, os argumentos económicos e sociais não servem, de facto, para nada.


 


A partir de agora qualquer notícia sobre o desmantelamento dos serviços públicos de saúde e educação, ou a alteração das regras da segurança social, será recebida com a indiferença de quem já não se importa.


 


Para quem, como eu, defendeu activamente a vitória do PS, é muito difícil perceber que a crise pode explicar o que se está a passar. Portugal voltou a ser aquele país em que se vive o dia a dia sem horizontes. Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva estão de parabéns.


 


O PS perdeu legitimidade eleitoral, por desfazer e desdizer tudo o que disse e quis fazer na legislatura anterior. Vamos arrastar-nos até às eleições presidenciais, protagonizadas por figuras do passado, sem qualquer capacidade para devolver a esperança a uma boa parte da população. Cruzam-se frases feitas e os bastidores fervilham com o poder que se avizinha, depois de Cavaco Silva iniciar o segundo mandato.


 


E assim nos vamos entretendo com o vulcão, o Benfica e as contas por pagar. A vida continua e, apesar de Maio estar chuvoso, o Verão já não tarda.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...