10 fevereiro 2010

As redes, as teias e os tentáculos

 



 


Os casos de justiça começam sempre com grandes redes tentaculares, descobertas pelos jornalistas de investigação, e perdem-se nos confins do tempo, sem honra nem glória, deprimindo os cidadãos e ajeitando os cenários políticos.


 


O caso Casa Pia, que durante anos seguidos conspurcou a vida de tanta gente, vítimas abusadas sexualmente e vítimas abusadas pelos nomes que foram envolvidos na alegada grande rede de prostituição internacional, que faria um terramoto, segundo Catalina Pestana, com fotografias de personalidades conhecidas do mundo da política, arrasta-se penosamente nas suas próprias malhas, com Carlos Cruz, Jorge Ritto e poucos mais. Entretanto Paulo Pedroso esteve preso e o nome de Ferro Rodrigues andou nas bocas do mundo.


 


O caso Freeport acabou, depois de ter andado anos a caluniar José Sócrates. O caso Apito Dourado empalideceu totalmente, não deixando, no entanto, de enlamear Pinto da Costa. O caso BPN, misteriosamente, deixou de existir. Estamos agora com mais uma rede tentacular que se chama Face Oculta.


 


Estas teias e estes tentáculos são fabricados com tanta ansiedade e tão atabalhoadamente que acabam, inexoravelmente, em fantasmas que se esfumam. E vai-se esfumando também a nossa confiança.


 

A verdade segundo Paulo Rangel

 



 


Paulo Rangel retomou o vocabulário utilizado pela da Dra. Manuela Ferreira Leite durante a campanha eleitoral.


 


Ele vai romper a economia, rasgar a escola e trucidar a justiça, depois de gritar bem alto que a a política que ele faz, é a Verdade, só a Verdade e nada mais do que a Verdade.


 


Depois da esforçada defesa que fez do regresso da democracia e da liberdade de expressão à sua amada pátria, com a ajuda dos nossos parceiros europeus, resolveu que, por muito que lhe custe, é dentro do país, enfrentando os perigos que se adivinham com o seu regresso, que se espera a sua actuação salvadora.


 


A rasgar, a romper a explodir, certamente nada será como dantes.


 

09 fevereiro 2010

Actividades circenses

 


Basta assistir aos vários telejornais das várias televisões, ler os vários jornais em papel ou online, ouvir os serviços noticiosos das várias estações de rádio, para nos apercebermos de imediato da aflitiva falta de liberdade de expressão existente em Portugal.


 


Felizmente temos um deputado europeu corajoso que, arrostando contra o risco da expulsão sumária e do exílio perpétuo, denuncia esta vergonhosa situação nas instâncias internacionais. Talvez assim haja audiência europeia e intervenção rápida e certeira.


 


Felizmente temos partidos responsáveis e atentos que, contra as maquinações hediondas do Primeiro-ministro, acolitado pelo Procurador Geral da República e pelo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e, quem sabe, de outras figuras menos gratas mas mais subterrâneas, na prossecução dos seus totalitários intentos, levantam bem alto o mastro da resistência.


 


Sendo assim, esperamos que a manifestação demonstre a férrea esperança do povo nos seus representantes de direita e de extrema-esquerda que, de imediato, resolverão tão grave assunto com uma moção de censura ao governo e subsequente queda, formando uma aliança de salvação nacional, medalhando os sofredores e heróis amantes da liberdade.


 

Um dia como os outros (31)

(...) O desdém pela forma - "isso é muito giro, mas o que interessa são os factos" - só se pode justificar pela desvalorização do princípio do primado da lei que, entre outros, sustenta a democracia liberal. A secundarização da forma em relação ao conteúdo tem muitos e pouco respeitáveis antepassados como, por exemplo, Hitler e Estaline.


 


(...) A questão não é nem o conteúdo das escutas, nem os protagonistas, é o facto de tolerarmos a sua divulgação, sejam elas de Pinto da Costa, de António Preto ou de Armando Vara. Quando se aceita comentar uma vez que seja, por força de uma avaliação subjectiva da relevância do seu conteúdo, escutas que não deveriam ser conhecidas, está-se a atravessar uma linha de fronteira. Com isso, contribui-se para o sucesso duma estratégia de judicialização da política que não resolverá nenhum dos problemas da nossa democracia, limitar-se-á a agravar todos eles. (...)


 

07 fevereiro 2010

Concerto para violino em Lá menor - Allegro moderato

 



Johann Sebastian Bach


David Oistrakh


 

Mãos

 


As mãos espelham a lucidez

arde nos dedos o vazio das encostas agrestes

dos rios secos nas pedras sinuosas.


 

Mitridatismo*

 


Os que clamam pela demissão de Sócrates a propósito dos artigos do Sol, que configuram uma flagrante violação pelo princípio constitucional que diz que todos têm direito a serem considerados inocentes até um julgamento por tribunal os condenar, em flagrante violação do preceito constitucional que diz que todos têm direito à sua privacidade, estão eles próprios a aceitar que, um dia destes, o mesmo lhes possa acontecer.


 


Porque é exactamente isso que vai suceder. Neste momento, apesar de se dizerem repugnados pelos métodos, já os aceitaram com a desculpa que o que está a ser revelado é horrível. Mas ninguém sabe se o que está a ser revelado é verdade ou mentira. O que sabemos é que é uma parte criteriosamente escolhida de muitas outras partes.


 


Mas é claro que isso não interessa, porque o objectivo está a ser atingido. Aquilo que não se conseguiu por via eleitoral, está a tentar-se pela via da calúnia e da ignomínia. O mais engraçado é a utilização da palavra carácter. Pelos vistos quem quebra sistematicamente o segredo de justiça, quem subverte todos os dias o estado de direito, quem acha que as regras são só para os outros cumprirem tem carácter que sobeje. Com este tipo de actuação, que se diz jornalismo de investigação, estamos a hipotecar a nossa liberdade. 


 


*Mitridatismo - ao contrário do que Pacheco Pereira considera, o veneno é a violação dos preceitos da justiça.


 


Nota: Vale a pena ler este post do Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...