22 outubro 2009

Da revolta na dor

 


Tenho lido, desde há bastante tempo, os posts do Besugo, primeiro no blogame mucho e depois no gravidade intermédia.


 


Outro dia o Besugo escreveu um extenso post de alguém a sofrer, de alguém com uma revolta infinita contra tudo e contra todos, de alguém que se dedica de alma e coração à sua profissão de médico, que sofre com os seus doentes, que sofre com a impotência de quem não vence a morte, de quem a combate todos os dias e de quem odeia ser vencido.


 


É assim com todos nós. Quando recebemos a notícia de que temos cancro, ou de que alguém a quem amamos tem cancro, ou outra qualquer doença grave, sentimos uma enorme revolta contra o mundo e um sentimento de culpa por não termos dado atenção aos sinais, pequenos ou grandes, mesmo inexistentes. Sentimos que deveríamos ter estado mais atentos, que deveria ter sido possível  prevenir, que deveríamos ter tido a obrigação de impedir que tal acontecesse.


 


Transformar esse grito de dor num texto de desvario de um indivíduo doente, de alguém que não respeita os doentes e que é perigoso, de alguém que merece ser desprezado porque teve a fraqueza e a força de se confessar em público, isso sim, eu acho muito preocupante.


 


Os médicos são pessoas como as outras que estão sujeitos a pressões e a stress como as outras, que têm vidas complicadas, como as outras, e que têm o direito a sofrer e a revoltarem-se contra si próprios e contra o mundo, como as outras. Inferir daí que não suportam a perda de regalias ou de status ou de poder, parece-me uma leitura absolutamente redutora.


 


O blogue está lá, para quem o quiser ler. Os comentários que lá estão são de quem quer que corra tudo bem porque, tal como o Besugo diz em vários posts ao longo de vários anos, ninguém merece ter um cancro.


 


E sim, Besugo, vai correr tudo bem.


 


Nota: recomendo outro post do Besugo.

 

21 outubro 2009

Obscurantismo

 


Transformar as declarações de Saramago sobre a Bíblia num problema de falta de limites e de falta de respeito pelos crentes, de forma a exortá-lo a mudar de nacionalidade, é absolutamente inacreditável.


 


Saramago tem o direito de se pronunciar sobre o que quiser, assim como nós temos o direito de achar que o que ele diz é um enorme disparate. Mas achar que isto é motivo de ofensa, seja a quem for porque não gosta de Deus, não acredita em Deus e o acha má pessoa? E depois?


 


Acho que o eurodeputado social-democrata Mário David deveria ter, ele próprio, mais respeito pelos outros. Ah, e ler livros com pontos de vista diferentes dos nossos é sempre enriquecedor.


 


Continuo a achar as declarações de Saramago uma infelicidade. Mas estou cheia de curiosidade de ler o livro. A figura de Caim é fascinante.


 

20 outubro 2009

O que será (à flor da pele)

 



Brad Mehldau Trio...


(Chico Buarque de Holanda)


 


... no CCB, a 29 de Outubro, às 21h00.


 

Disputa presidencial

 


Não me espanta a sondagem cujo resultado é inédito na apreciação negativa da actuação do Presidente da República.


 


Mas se o descrédito de Cavaco Silva coloca o problema da reeleição ao PSD e aos partidos à sua direita, o problema não é menor à esquerda.


 


Parece-me descabido começar a lançar nomes para a praça pública, até pelo que demonstra de falta de soluções, como a hipótese de uma nova candidatura de Sampaio. Mas a esquerda vai ter que encontrar um candidato que possa aglomerar a esquerda e que possa seduzir o centro.


 


Manuel Alegre já não é solução. Ele próprio se foi encarregando de estreitar a sua base de apoio com as posições que foi assumindo ao longo destes últimos anos. Será que Marcelo Rebelo de Sousa avança mesmo? Não sei porquê, duvido. Marcelo é um nome que regressa ciclicamente, nestas ocasiões.


 


O que significa que deverão aparecer nomes novos, gente diferente, à esquerda e à direita, para a disputa presidencial. Ainda bem.

 

Salário mínimo

 



 


Eu até posso aceitar que haja contenção salarial, mas nunca do salário mínimo. O salário mínimo é mesmo aquele cujo aumento nunca deveria ser congelado.


 


Em 2009 o salário mínimo subiu para 450€. Para 2010 foi acordado um aumento para 475€. O que será viver com 450 ou 475€ por mês?


 

Saramago

 



 


Ouvi as declarações de José Saramago e achei-as tristes. Não pelo assomo de blasfémia ou provocação. Mas pela infantilidade da prosa, pelos argumentos sem nexo, pelo disparate de tudo o que disse.


 


Saramago, um excelentíssimo escritor, não reconhece que a Bíblia, para além de um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana é também um manual de bons costumes, um catálogo de bondade e do melhor da natureza humana.


 


Está lá exactamente a essência do que é o homem, da sua relação consigo, com os outros, com a natureza e com a divindade. Estão o terror e a obediência cega, o amor e o altruísmo, o egoísmo e a generosidade, a intolerância e a aceitação, o heroísmo e o erotismo, as perversões, o belo, o místico e o sonho.


 


Estão a luta de um povo, a luta de homens e mulheres diferentes, pactos e diplomacia, guerra e regras, códigos laborais, está a raiz da forma como encaramos o mundo.


 


Não tem rigorosamente nada a ver com religião, nem com a fé. Isso pertence ao foro privado de cada um. Tem tudo a ver com a forma de nos pensarmos, no que há de razoável e extraordinário, até ao que de mais horrível podemos ser.


 


Nota 1: ler também Luís Naves.


 


Nota 2: o disparate é verdadeiramente livre e parece crescer exponencialmente.

 

18 outubro 2009

Quand on n'a que l'amour

 



Jacques Brel


 


 


Quand on n'a que l'amour

A s'offrir en partage

Au jour du grand voyage

Qu'est notre grand amour


 


Quand on n'a que l'amour

Mon amour toi et moi

Pour qu'éclatent de joie

Chaque heure et chaque jour


 


Quand on n'a que l'amour

Pour vivre nos promesses

Sans nulle autre richesse

Que d'y croire toujours


 


Quand on n'a que l'amour

Pour meubler de merveilles

Et couvrir de soleil

La laideur des faubourgs


 


Quand on n'a que l'amour

Pour unique raison

Pour unique chanson

Et unique secours


 


Quand on n'a que l'amour

Pour habiller matin

Pauvres et malandrins

De manteaux de velours


 


Quand on n'a que l'amour

A offrir en prière

Pour les maux de la terre

En simple troubadour


 


Quand on n'a que l'amour

A offrir à ceux-là

Dont l'unique combat

Est de chercher le jour


 


Quand on n'a que l'amour

Pour tracer un chemin

Et forcer le destin

A chaque carrefour


 


Quand on n'a que l'amour

Pour parler aux canons

Et rien qu'une chanson

Pour convaincre un tambour


 


Alors sans avoir rien

Que la force d'aimer

Nous aurons dans nos mains

Amis, le monde entier

 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...