Brad Mehldau Trio...
(Chico Buarque de Holanda)
... no CCB, a 29 de Outubro, às 21h00.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Não me espanta a sondagem cujo resultado é inédito na apreciação negativa da actuação do Presidente da República.
Mas se o descrédito de Cavaco Silva coloca o problema da reeleição ao PSD e aos partidos à sua direita, o problema não é menor à esquerda.
Parece-me descabido começar a lançar nomes para a praça pública, até pelo que demonstra de falta de soluções, como a hipótese de uma nova candidatura de Sampaio. Mas a esquerda vai ter que encontrar um candidato que possa aglomerar a esquerda e que possa seduzir o centro.
Manuel Alegre já não é solução. Ele próprio se foi encarregando de estreitar a sua base de apoio com as posições que foi assumindo ao longo destes últimos anos. Será que Marcelo Rebelo de Sousa avança mesmo? Não sei porquê, duvido. Marcelo é um nome que regressa ciclicamente, nestas ocasiões.
O que significa que deverão aparecer nomes novos, gente diferente, à esquerda e à direita, para a disputa presidencial. Ainda bem.
Eu até posso aceitar que haja contenção salarial, mas nunca do salário mínimo. O salário mínimo é mesmo aquele cujo aumento nunca deveria ser congelado.
Em 2009 o salário mínimo subiu para 450€. Para 2010 foi acordado um aumento para 475€. O que será viver com 450 ou 475€ por mês?
Ouvi as declarações de José Saramago e achei-as tristes. Não pelo assomo de blasfémia ou provocação. Mas pela infantilidade da prosa, pelos argumentos sem nexo, pelo disparate de tudo o que disse.
Saramago, um excelentíssimo escritor, não reconhece que a Bíblia, para além de um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana é também um manual de bons costumes, um catálogo de bondade e do melhor da natureza humana.
Está lá exactamente a essência do que é o homem, da sua relação consigo, com os outros, com a natureza e com a divindade. Estão o terror e a obediência cega, o amor e o altruísmo, o egoísmo e a generosidade, a intolerância e a aceitação, o heroísmo e o erotismo, as perversões, o belo, o místico e o sonho.
Estão a luta de um povo, a luta de homens e mulheres diferentes, pactos e diplomacia, guerra e regras, códigos laborais, está a raiz da forma como encaramos o mundo.
Não tem rigorosamente nada a ver com religião, nem com a fé. Isso pertence ao foro privado de cada um. Tem tudo a ver com a forma de nos pensarmos, no que há de razoável e extraordinário, até ao que de mais horrível podemos ser.
Nota 1: ler também Luís Naves.
Nota 2: o disparate é verdadeiramente livre e parece crescer exponencialmente.
Jacques Brel
Quand on n'a que l'amour
A s'offrir en partage
Au jour du grand voyage
Qu'est notre grand amour
Quand on n'a que l'amour
Mon amour toi et moi
Pour qu'éclatent de joie
Chaque heure et chaque jour
Quand on n'a que l'amour
Pour vivre nos promesses
Sans nulle autre richesse
Que d'y croire toujours
Quand on n'a que l'amour
Pour meubler de merveilles
Et couvrir de soleil
La laideur des faubourgs
Quand on n'a que l'amour
Pour unique raison
Pour unique chanson
Et unique secours
Quand on n'a que l'amour
Pour habiller matin
Pauvres et malandrins
De manteaux de velours
Quand on n'a que l'amour
A offrir en prière
Pour les maux de la terre
En simple troubadour
Quand on n'a que l'amour
A offrir à ceux-là
Dont l'unique combat
Est de chercher le jour
Quand on n'a que l'amour
Pour tracer un chemin
Et forcer le destin
A chaque carrefour
Quand on n'a que l'amour
Pour parler aux canons
Et rien qu'une chanson
Pour convaincre un tambour
Alors sans avoir rien
Que la force d'aimer
Nous aurons dans nos mains
Amis, le monde entier
Un homme et une femme é um filme de Claude Lelouch, de 1966. Nunca o tinha visto embora conhecesse bem a música de Francis Lai.
Não sei se é um filme inocente, cândido, ingénuo ou romântico. Provavelmente é isso tudo. É um filme que se passa em viagem, entre as viagens de duas pessoas que se encontram no caminho. É um filme de silêncios e olhares, de uma ternura imensa, simples.
Se calhar está datado, porque a nossa relação com as coisas simples não está na moda. E por isso mesmo é também intemporal.
(Paul Cézanne - a autópsia)
Sem tempo para pensar, o sono transforma-se na cadeira do psicólogo, que nunca consultei.
O rapaz que morreu com cancro no fígado apareceu-me cinzento e verde, só barriga e esqueleto. É muito doloroso quando se vêem evoluir os corpos da fase saudável para a fase terminal. É assim que se chama: terminal. Não sei se o que ilumina o olhar e que faz com que surjam pessoas dentro de nós, aqueles olhares que nos acusam, não pela doença mas pelo reconhecimento dela, já terminaram ou ainda lá estão.
Então o volume do abdómen passou do dele para o meu, de repente era eu que estava esqueleto e barriga, verde, com a certeza de que a morte estava a dar-me a mão. Só que acordei. Acordo sempre em fases definitivas, deixando as decisões inadiáveis para depois.
Não sei se os sonhos recarregam baterias ou memórias, ou se as memórias são a energia de que necessitamos para aguentarmos os dias mecanicamente, sem pensar. Quando me apareceu alguém que estava morta, a quem eu perguntei porque tinha encenado a sua morte, a quem eu insultei pela dor, pela solidão, pela inexplicável tecedura de morrer, assim, sem deixar espaço para recorrer, refazer, remodelar, esfumou-se e acordou-me sem respostas.
Talvez porque a morte seja uma presença infinita, na mesa estendida, bem identificada, homem, mulher, tantos anos, com idade aparente igual ou superior à real, identificações sem identidades, invólucros de matéria orgânica, aqueles que já adormeceram na finitude das moléculas, que já aceitaram a não existência.
É precisamente quando olhamos para as células, para a fotografia que delas fizemos imediatamente após a sua despedida, bem conservadas e pintadas, aqueles pequenos fragmentos de alguém, que obsessivamente tentamos descodificar, é nesse preciso momento que se começa a morrer. Antes disso a morte é silenciosa, esconde-se, é em pequeno número e disfarçada, ceifa um núcleo aqui, um lóbulo acolá, uma pontada, um fraquejo momentâneo, as enzimas aumentadas, um ritmo arrítmico, até esse segundo em que se revela o indesmentível, o relógio que não encrava e que badala incessante e dolentemente.
Depois vem o tempo dos outros, dos que choram, dos que explicam, dos que se afastam. Mesmo em vida há o prenuncio do que já não é. E como não temos tempo para pensar, é no sonho que estamos sempre à beira do abismo ou que nos lembramos de como empurrámos alguém, sem nunca conseguirmos agarrá-lo em sonhos, se já não o pudemos amparar em vida.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...