(Paul Cézanne - a autópsia)
Sem tempo para pensar, o sono transforma-se na cadeira do psicólogo, que nunca consultei.
O rapaz que morreu com cancro no fígado apareceu-me cinzento e verde, só barriga e esqueleto. É muito doloroso quando se vêem evoluir os corpos da fase saudável para a fase terminal. É assim que se chama: terminal. Não sei se o que ilumina o olhar e que faz com que surjam pessoas dentro de nós, aqueles olhares que nos acusam, não pela doença mas pelo reconhecimento dela, já terminaram ou ainda lá estão.
Então o volume do abdómen passou do dele para o meu, de repente era eu que estava esqueleto e barriga, verde, com a certeza de que a morte estava a dar-me a mão. Só que acordei. Acordo sempre em fases definitivas, deixando as decisões inadiáveis para depois.
Não sei se os sonhos recarregam baterias ou memórias, ou se as memórias são a energia de que necessitamos para aguentarmos os dias mecanicamente, sem pensar. Quando me apareceu alguém que estava morta, a quem eu perguntei porque tinha encenado a sua morte, a quem eu insultei pela dor, pela solidão, pela inexplicável tecedura de morrer, assim, sem deixar espaço para recorrer, refazer, remodelar, esfumou-se e acordou-me sem respostas.
Talvez porque a morte seja uma presença infinita, na mesa estendida, bem identificada, homem, mulher, tantos anos, com idade aparente igual ou superior à real, identificações sem identidades, invólucros de matéria orgânica, aqueles que já adormeceram na finitude das moléculas, que já aceitaram a não existência.
É precisamente quando olhamos para as células, para a fotografia que delas fizemos imediatamente após a sua despedida, bem conservadas e pintadas, aqueles pequenos fragmentos de alguém, que obsessivamente tentamos descodificar, é nesse preciso momento que se começa a morrer. Antes disso a morte é silenciosa, esconde-se, é em pequeno número e disfarçada, ceifa um núcleo aqui, um lóbulo acolá, uma pontada, um fraquejo momentâneo, as enzimas aumentadas, um ritmo arrítmico, até esse segundo em que se revela o indesmentível, o relógio que não encrava e que badala incessante e dolentemente.
Depois vem o tempo dos outros, dos que choram, dos que explicam, dos que se afastam. Mesmo em vida há o prenuncio do que já não é. E como não temos tempo para pensar, é no sonho que estamos sempre à beira do abismo ou que nos lembramos de como empurrámos alguém, sem nunca conseguirmos agarrá-lo em sonhos, se já não o pudemos amparar em vida.
Quando se tem ideias intensas as palavras saem intensas como estas que escreve. Muito vivas.
ResponderEliminarHá no seu texto tanto de All That Jazz - um dos meus filmes favoritos! Até por isso não pude deixar de registar o meu apreço.
Sei exactamente do que estas a falar. E pena que o meu conocimento de portugues nao chegue para expressar o que gostaria de dizer a um nivel linguistico adequado. Algum dia será .....
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