15 outubro 2009

Com que voz

 



canta Amália Rodrigues

Luís de Camões; Alain Oulman


 


 


Com que voz chorarei meu triste fado,

Que em tão dura paixão me sepultou.

Que mor não seja a dor que me deixou

O tempo, de meu bem desenganado.


 


Mas chorar não estima neste estado

Aonde suspirar nunca aproveitou.

Triste quero viver, poi se mudou

Em tisteza a alegria do passado.


 


Assim a vida passo descontente,

Ao som nesta prisão do grilhão duro

Que lastima ao pé que a sofre e sente.


 


De tanto mal, a causa é amor puro,

Devido a quem de mim tenho ausente,

Por quem a vida e bens dele aventuro.


 

14 outubro 2009

Das fontes noticiosas

 


Na última segunda feira ouvi Henrique Monteiro tentar justificar o facto de não ter agarrado a notícia sobre o famoso email, que lhe teria chegado de uma fonte política.


 


Ficámos também a saber que Henrique Monteiro só faz a vontade às fontes quando a interferência política é de um lado.


 


Ficámos ainda a saber que Henrique Monteiro tem uma graduação de mérito profissional baseado na superioridade política e intelectual do Expresso.


 


Quanto mais se fala mais se percebe a teia de interesses que são servidos e que se servem dos jornalistas. Dos tais superiores, que até escolhem os momentos de publicação das notícias.


 

Enchentes

 



pintura de Erik Hanson


Emanations variations on black and white I


 


Nem enchentes e marés de sonhos, nem desertos sedentos de sol. Procura-se o meio-termo, o compromisso, a cedência. Sempre mais razoabilidade, mais equilíbrio, mais do mesmo, mais na mesma. Sempre é cedo ou tarde de mais, sempre talvez ou mais um pouco, sempre não há, não pode, sempre mais devagar, sempre degrau a degrau.


 


 


Não tenho mais punhos para cerrar, não sei de mais mastros para navegar, só restam os ponteiros dos segundos, urgentes, impositivos, certeiros, ruidosos, gritos surdos e olhos por todo o lado.


 


 


Mudar, é preciso virar as roupas do avesso, as almas, o mundo.


 


 


Já não tenho braços para tanto mar.

 

12 outubro 2009

A preto e branco

 



pintura de Erik Hanson


Emanations variations on black and white IV


 


A preto e branco atravesso o corpo

desfaço nós sopro cinzas

terra areia.


Tempo.



A preto e branco risco compassos

círculos concêntricos descentrados

esventrados.


Cansaço.

 

11 outubro 2009

Das más notícias

 



 


A vitória de Isaltino Morais em Oeiras significa que os habitantes do Concelho de Oeiras acham que não se deve olhar a meios para atingir os fins.


 

Das boas notícias

 



 


Como não posso falar de boas notícias em Oeiras, falo das óptimas notícias que são as derrotas de Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres e Narciso Miranda.


 


Posso também falar das excelentes notícias que são a vitória de António Costa, em Lisboa, e a derrota de Santana Lopes, também em Lisboa.


 


Depois há a vitória do PS, a nível nacional que, até agora (faltam 926 freguesias por apurar), ganhou mais mandatos nas Câmaras, nas Assembleias Municipais e nas Assembleias de Freguesia.


 


Ainda bem.


 

Lección de existencia / Lição de existência

  



en voz baja / em voz baixa


poemas de Abel Murcia


serigrafias de Marian Nowiński


tradução de José Carlos Dias


Manuela Teixeira Pinto


 


 


He aprendido a compartir tu ausencia


con mi sombra, el vacío


que deja el tacto inexistente de tu mano


en al mía, el silencio de tu voz


al otro lado de ningún teléfono,

esa ciega mirada de todos los objetos

que ocupan tu lugar.

He aprendido a dejar de ser tan yo

por ser un poco tú.

Me asusta sentirme rodeado de tu nada.


 


 


Aprendi a partilhar a tua ausência


com a minha sombra, o vazio


que deixa o toque inexistente da tua mão


na minha, o silêncio da tua voz


do outro lado de nenhum telefone,


esse olhar cego de todos os objectos


que ocupam o teu lugar.


Aprendi a deixar de ser tanto eu


por ser um pouco tu.


Sentir-me rodeado do teu nada, assusta-me.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...