Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Ninguém nos mostrou esse futuro que talhámos, com carícias e sorrisos, ninguém nos falou dos abismos que falhámos, dos profundos sulcos que atravessámos, penosamente, em busca do leite e do mel. Ninguém nos vislumbrou a terra que lavrámos com as mãos, o ar que apunhalámos com a nossa dor, ninguém nos senta nos tronos que esperámos.
Arrastar e gravar as rugas, alimentar o caldo onde vivemos gota a gota, dia a dia, cair e levantar e sangrar e arder de tristeza, de ódio, de desesperança, morder os frutos envenenados, escolher o ar, escolher de entre os poros de luz algumas estrelas.
E talvez, por momentos, por breves instantes, por inexcedíveis arroubos de paixão, todos os trilhos caóticos passam a fazer sentido.
O resultado destas eleições mostra uma maioria de votos e percentual se somarmos as votações do PS com as do BE e da CDU. Mas esse grupo é demasiado heterogéneo para que a soma resulte num compromisso, como se pede no manifesto Compromisso à Esquerda.
O PS foi mandatado para governar e para cumprir um programa que, em muitos e importantes aspectos, é diferente dos programas dos partidos à sua esquerda. Houve compromissos assumidos com os eleitores, da parte do PS, do BE e da CDU. E esses compromissos terão que ser respeitados.
É claro que a esquerda terá que se entender ou ficará com o ónus de se aliar à direita para derrubar o governo. É claro que o PS terá que negociar e, espero, fa-lo-á predominantemente com a esquerda. Mas não me parece que haja bases programáticas, históricas e / ou culturais para uma coligação governamental, de incidência parlamentar ou de outro tipo. As experiências autárquicas são positivas, mas são autárquicas, não são nacionais.
As negociações deverão ser caso a caso, até porque já começaram as movimentações para cobrar as promessas eleitorais, da esquerda e da direita. A FENPROF já veio dizer que aguarda um sinal de que se vai suspender a avaliação de desempenho dos professores e o estatuto da carreira docente.
Penso que os partidos de esquerda devem assumir as suas responsabilidades. O PS como partido do governo deve procurar os entendimentos que achar necessários, a oposição deve viabilizar os entendimentos que entender exequíveis. Penso que esta solução será a melhor tradução dos compromissos eleitorais.
Quando todos se queixam de que os políticos são uns corruptos é bom que pensem muitas vezes. Pelo menos em Oeiras a população gosta de votar num indivíduo que foi condenado por um colectivo de Juízes a 7 anos de prisão.
Significa que quem vota nele só não faz igual porque não pode.