04 outubro 2009

Cegueira

 



pintura de Tanya Bonello: the rise and fall


 


Ninguém nos mostrou esse futuro que talhámos, com carícias e sorrisos, ninguém nos falou dos abismos que falhámos, dos profundos sulcos que atravessámos, penosamente, em busca do leite e do mel. Ninguém nos vislumbrou a terra que lavrámos com as mãos, o ar que apunhalámos com a nossa dor, ninguém nos senta nos tronos que esperámos.


 


Arrastar e gravar as rugas, alimentar o caldo onde vivemos gota a gota, dia a dia, cair e levantar e sangrar e arder de tristeza, de ódio, de desesperança, morder os frutos envenenados, escolher o ar, escolher de entre os poros de luz algumas estrelas.


 


E talvez, por momentos, por breves instantes, por inexcedíveis arroubos de paixão, todos os trilhos caóticos passam a fazer sentido.


 


Uma e outra vez, sempre.

 

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