09 agosto 2009

O Beco dos Milagres

 



 


O Beco dos Milagres, de Naguib Mafhouz, fala-nos de um mundo nos arredores do Cairo, durante a II Guerra Mundial. Poderia ser agora e poderia ser noutro lugar. São pessoas nas suas diversas facetas, sem moralismos ou encobrimentos, que vivem dos seus defeitos e das suas qualidades, uns com os outros, uns para os outros, velhos e novos, ricos e pobres.


 


O grande comerciante que se envenena com o medo da morte, a mulher jovem que sonha com dinheiro e grandeza sem olhar à moral e aos bons costumes, o homem que fabrica deformidades aos mendigos profissionais, o dono do café que é homossexual, o rapaz humilde e pouco ambicioso que se arranca do beco para agradar à sua amada, o homem bom e temente a Deus que sofreu muito e é feliz, o oráculo, a viúva que quer casar, a casamenteira, a mulher forte que bate no marido fraco, enfim, todos os buracos e os voos da alma humana.


 


Muito interessante e bem escrito (traduzido do árabe por Adel Daroga, com a colaboração de Clara Branco).


 

Desertar

 



pintura de Victoria Horkan

birds of prey


 


Fundamo-nos em actos prosaicos

insensatos

impensados

frutos do acaso

de milissegundos de escolhas.


 


Fundamo-nos com as dúvidas

com que crescemos

com as dívidas

dos antepassados mais remotos

que voltam ciclicamente

para nos assombrarem.


 


Fundimo-nos em silêncios indiferentes

na segurança da rotina

na sapiência da solidão.


 


Fundimo-nos em crianças carnívoras

a quem damos o pior e o melhor

dos nossos corpos

dos nossos dentes

dos nosso seres

a seres predadores

atentos

sôfregos

independentes

soberbas aves de rapina

que nos amam e agridem

numa repulsa de amor e liberdade.


 


Desertamos da vida demasiado cedo

demasiado ávidos de a viver.

Cartão de eleitor

 


O Público não olha a meios para atingir os fins. Como órgão de informação, o jornal Público socorre-se de todas as artimanhas para confundir e fazer campanha contra o governo e o PS.


 


Hoje um dos títulos garrafais era: Cartão do cidadão vai afastar milhares dos concelhos onde querem votar, dando a entender que a existência do cartão de eleitor impedirá que os cidadãos votem na autarquia que quiserem.


 


Ora os eleitores não podem inscrever-se na autarquia que lhes apetece. Podem ser eleitores da autarquia em que se recensearam, segundo o nº 2 Artigo 239.º da Constituição Portuguesa - Órgãos deliberativos e executivos:




2. A assembleia é eleita por sufrágio universal, directo e secreto dos cidadãos recenseados na área da respectiva autarquia, segundo o sistema da representação proporcional.


 


O que, aliás, me parece totalmente correcto. Mas poderia existir a possibilidade de escolhermos a autarquia da nossa eleição para o recenseamento. Mas não é possível, pelo menos atendendo ao Artigo 9.º da lei do recenseamento eleitoral:

 


Local de inscrição no recenseamento

1 - Os eleitores são inscritos nos locais de funcionamento da entidade recenseadora correspondente à residência indicada no bilhete de identidade, ou, no caso dos cidadãos previstos no artigo 4.º, nos locais de funcionamento da entidade recenseadora correspondente ao domicílio indicado no título de residência emitido pela entidade competente.


 


Artigo 4.º - Voluntariedade - O recenseamento é voluntário para:


a) Os cidadãos nacionais residentes no estrangeiro;

b) Os cidadãos da União Europeia, não nacionais do Estado Português, residentes em Portugal;

c) Os cidadãos nacionais de países de língua oficial portuguesa, residentes em Portugal;

d) Outros cidadãos estrangeiros residentes em Portugal.)


 


Ou seja, o facto do cartão de eleitor nos colocar automaticamente na nossa freguesia de residência, poupando-nos a preocupação de a alterarmos quando mudamos de casa, é uma forma de reduzir a abstenção e não de a aumentar. Mas, mesmo que por isso não fosse, o cartão de eleitor apenas cumpre o que está na lei.


 


Se as pessoas que nasceram numa freguesia querem continuar a ter ligações com ela, não me parece que seja através do acto eleitoral.


 


Alguns responsáveis ligados à legislação eleitoral contactados pela Lusa reconhecem que é "injusto" o facto dos cidadãos serem obrigados a votar em determinado concelho, assumindo ser "um passo para o fim da liberdade, que é a residência obrigatória".


 


Gostaria muito que esses responsáveis explicassem a injustiça do assunto e que nos demonstrassem de que forma, e segundo a lei, não por causa do cartão de eleitor, tal é ou tem sido possível.


 


Nota: também aqui.

 

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