19 junho 2009

Cinzas

 



(pintura de E. B. C. Brown: From the Ashes)

 


É da sombra que me usou

nesse sol desmaiado que me provou

foi de sombra que me enfeitou

nesse sol esparramado que me fustigou

mãos de água tão de leve

na cinza dos teus dedos

mãos de sonho e de neve

guardam os sabores do corpo que esmorece

toldo da alma que me merece

tão fundo e tão forte

como a sombra que me coube em sorte.


 

Até o fim

 



(Chico Buarque & Ney Matogrosso)


 


Quando nasci veio um anjo safado

O chato dum querubim

E decretou que eu tava predestinado

A ser errado assim

Já de saída a minha estrada entortou

Mas vou até o fim


 


Inda garoto deixei de ir á escola

Cassaram meu boletim

Não sou ladrão, eu não sou bom de bola

Nem posso ouvir clarim

Um bom futuro é o que jamais me esperou

Mas vou até o fim


 


Eu bem que tenho ensaiado um progresso

Virei cantor de festim

Mamãe contou que eu fazia um bruto sucesso

Em Quixeramobim

Não sei como o maracatu começou

Mas vou até o fim


 


Por conta de umas questões paralelas

Quebraram meu bandolim

Não querem mais ouvir as minhas mazelas

E a minha voz chinfrim

Criei barriga, minha mula empacou

Mas vou até o fim


 


Não tem cigarro, acabou minha renda

Deu praga no meu capim

Minha mulher fugiu com o dono da venda

O que será de mim?

Eu já nem lembro pronde mesmo que vou

Mas vou até o fim


 


Como já disse era um anjo safado

O chato dum querubim

Que decretou que eu tava predestinado

A ser todo ruim

Já de saída a minha estrada entortou

Mas vou até o fim

 

18 junho 2009

Animal amansado

 


Não foi uma má entrevista. Todos se fixaram na mudança de estilo, de que não gostei. E é natural que se fala apenas disso, pois isso é exactamente o que não interessa.


 


Mas se Sócrates pensa que baixando a voz e a cabeça, sorrindo muito e arrastando as palavras aumenta a votação, está muito enganado. Será sempre atacado: se for animal feroz é ditador, se estiver amansado é fingidor.


 


Eu prefiro animal feroz.


 

Mar azul

 


 



(Cesária Évora & Marisa Monte)


 


 


O... Mar, detá quitinho bô dixam bai

Bô dixam bai spiá nha terra

Bô dixam bai salvá nha Mâe... Oh Mar

Mar azul, subi mansinho

Lua cheia lumiam caminho

Pam ba nha terra di meu

São Vicente pequinino, pam bà braçá nha cretcheu...

Oh... Mar, anô passá tempo corrê

Sol raiá, lua sai

A mi ausente na terra longe... O Mar


 

Da humildade democrática

 


As palavras arrogância e humildade democrática têm voado por muitas bocas, deslizado por muitos dedos, pintado muitas páginas após as eleições europeias.


 


A humildade democrática deveria ser transparente na aceitação dos resultados, nunca na errada ideia de mudar discursos para agradar aos desavindos. A humildade democrática não se demonstra arranjando listas de pecados e erros para que os governantes odiados se penitenciem e se vergastem em público.


 


Quanto à arrogância, talvez não fosse má ideia que os representantes do BE e do PSD se lembrassem que ainda não ganharam as eleições legislativas. É lamentável a insinuação de Manuela Ferreira Leite sobre a irreversibilidade das decisões sobre o TGV, esquecendo-se de tudo o que fez enquanto governante do país.


 


A humildade democrática deveria levar-nos a todos a olhar para os nossos deveres democráticos e a debatermos com seriedade os projectos e as propostas para o país, o resultado das políticas do governo e as alternativas propostas pela oposição. Isso é que é ter respeito pela democracia e pelos eleitores.


 

17 junho 2009

De forma idêntica

 



(pintura de Holly Holmes)


 


De forma idêntica

à das flores

recolhemos ar e sol

que deleitam

e encolhemos de dor

no ruído

que nos liberta.

 

15 junho 2009

Aviso (2)

 


Obrigada a todos pela solidariedade. A decisão de fechar o blogue foi ditada pela minha incapacidade de perceber o que poderia fazer para impedir que alguém se pudesse apropriar do meu nome para insultar outras pessoas. Os objectivos que essa(s) pessoa(s) perseguem são vários, mas não serão atingidos, até porque não é assim que me intimidam.


 


O que me incomoda e me espanta são as poucas armas que temos para lidar com estas situações. A minha ideia era tentar mudar o blogue para outra plataforma e, caso isso fosse mesmo impossível, fechá-lo e, eventualmente, começar outro blogue.


 


Depois de muito pensar e me informar sobre o assunto (santos da casa ainda fazem milagres), percebi que o problema não estava na plataforma blogs.sapo mas sim na wordpress e, se calhar, noutras também. Ou seja, se alguém souber o meu mail, e há um mail público neste blogue, pode fingir que sou eu sempre que quiser comentar num blogue wordpress.


 


Portanto a solução não é mudar de plataforma. E como todos os que me deixaram palavras de carinho, aqui e no mail, eu também penso que a solução passa por esclarecer quem foi incomodado que não fui eu que o incomodei, sem deixar de escrever e actuar sempre e como achar correcto, no blogue, como no resto da minha vida.


 


Há muitas maneiras de pressionar as pessoas, fazer com que se sintam perseguidas e espiolhadas, abanar as suas convicções e as suas (in)certezas. Mas este tipo de mesquinhez e iniquidade, numa coisa com uma tão fraca dimensão como as palavras que se escrevem num blogue, é verdadeiramente pequenino e pobre.


 


Quem me atendeu no suporte do blogue não me soube ajudar nem explicar o que se estava a passar. Não sei se a incapacidade foi dele ou minha, pois estava de cabeça perdida. Sendo assim, e se acaso fui agressiva devido ao meu estado de irritação, aqui peço publicamente desculpa.


 


Para já aqui continuo, a defender o meu (o nosso) quadrado.


 


Adenda: aviso o dono do Bulimunda's Blog que não farei lá nenhum comentário e que os que lá aparecerem com o meu nome não são meus.


 

Horizontes

Horizons Neil Dawson Hoje o dia não se repete no intenso azul das almas livres. A prisão da felicidade a que não chega nem se entrega a que ...