01 janeiro 2009

Ano Novo

Há algumas coisas que insisto em fazer no primeiro dia de cada ano, perfeitamente inúteis, mas que me dão uma sensação de começo, de renovação, que apenas se explica pelo bálsamo que os rituais são para a força anímica.


 


Todos os anos transformo o café da manhã numa peregrinação e numa exploração científica, pois todos os cafés e centros comerciais estão fechados. Ao volante do carro, nas manhãs desertas das 10 horas de todos os primeiros de Janeiro, sinto-me num país que espera.


 


Todos os anos inauguro uma agenda nova, vermelha, em que reescrevo as moradas e os telefones da agenda anterior. Aproveito para eliminar alguns nomes que, por negligência ou esquecimento, deixaram de fazer parte da minha vida.


 


Todos os anos assisto ao Concerto de Ano Novo em Viena, pela Orquestra Filarmónica de Viena, enrolada no sofá, meio adormecida. São quase sempre as mesmas músicas, os mesmos bailados, a mesma assistência de vestidos e fatos de gala, as mesmas flores, mas é reconfortante. Este ano vai, talvez, iniciar-se uma nova tradição, juntamente com o almoço/jantar de ossobuco, com o Concerto de Ano Novo no CCB.


 


O dia está frio, rodeado de bruma quase opaca, que dá vontade de soprar com muita força, para ver se desanuvia. Eu gosto assim.


 



(pintura de Lea Kelley: industrial impact)


 

31 dezembro 2008

Celebremos os dias


(pintura de David R. Darrow: celebrate life)


 


Há muita gente a acotovelar-se e a competir nas horríveis previsões para o ano que vem. Pois eu espero que consigamos todos demonstrar que estão erradíssimos.


 


A todos desejo força e vontade para reverter os maus agoiros. Podemos começar por ter boa disposição, que não tem abundado, pelo menos por estas bandas. A partir de agora, sorriso de orelha a orelha que o riso e o amor fazem bem à saúde. Os inevitáveis balanços pesam sempre muito e hoje quer-se leveza.


 


Para todos, espero que 2009 seja melhor que 2008.


 

29 dezembro 2008

Gaza

Assistimos, mais uma vez, a uma escalada de violência israelo-palestiniana e, como é habitual, esgrimen-se argumentos a favor e contra cada uma das partes.


 


Tenho muita dificuldade em escolher um lado, em saber ou acreditar de que lado está a razão. Se Israel parece reagir exageradamente aos ataques do Hamas, matando civis, em que medida isso não acontece porque há mistura entre militares e civis? Se é verdade que o Hamas não cumpriu o cessar-fogo, até que ponto isso não foi apenas usado como desculpa para Israel atacar a Faixa de Gaza, ataque esse que já estaria a ser preparado há vários meses?


 


Os únicos inocentes neste conflito são aqueles que tentam viver a sua vida o melhor possível, em condições dramáticas, que gostariam de viver em paz, de alimentar e educar as suas crianças e de poder dormir sem medo de morrer. Palestinianos ou israelitas.


 

A derrota do Presidente

A maior parte dos comentadores olha para a situação criada pelo conflito entre o Presidente e a Assembleia da República como um braço de ferro alimentado por Sócrates e pelo PS, não se sabe exactamente com que objectivo.


 


Como já aqui defendi, eu penso exactamente o contrário. Houve uma aposta política de Cavaco Silva que resolveu, a propósito da aprovação do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, independentemente das razões que lhe possam assistir, criar um incidente institucional, querendo forçar a Assembleia da República a rever uma lei que tinha sido aprovada por unanimidade. Não tendo pedido a fiscalização do artigo que motivou o veto político, Cavaco Silva arriscou e perdeu.


 


Perdeu não por causa de Sócrates e do PS. Perdeu por causa de toda a Assembleia da República. Os partidos com representação parlamentar, embora protestando o seu acordo com o Presidente, votaram outra vez favoravelmente o Estatuto, com excepção do PSD. Este , com a incrível falta de credibilidade e de senso a que nos tem habituado, falou muito, muito, muito, a favor do Sr. Presidente, que tinha toda a razão, mas absteve-se na votação e deu liberdade de voto para votar a favor, mas não contra.


 


Ou seja, Cavaco Silva jogou politicamente e perdeu. Ao dramatizar a situação como o fez, na primeira comunicação e nesta última, falando inclusivamente do irregular funcionamento das Instituições, de grave revés para a democracia, de falta de lealdade institucional, e não tendo levado até ao fim essa posição com a dissolução da Assembleia da República, o Presidente prestou um mau serviço ao país.


 


Adenda: não deixa de ser interessante o afã de Santana Lopes em comentar...


 

28 dezembro 2008

Sem dimensão

A crise instalou-se mais nos nossos hábitos e consciências do que na nossa realidade, pelo menos naqueles que, como eu, são privilegiados.


 


Em vez dos lamentos e dos agoiros, dos sustos e dos discursos, deveríamos perguntar-nos o que poderá cada um de nós fazer para que os serviços públicos sejam melhores e mais eficientes, para que usemos mas não abusemos do estado, para que o nosso esforço possa dar oportunidade a quem ainda a não teve. Em vez de olharmos as nossas supérfluas necessidades como essenciais, deveríamos perguntar-nos como poderemos empregar esses recursos em prol de quem luta todos os dias para ter o mínimo.


 


Tanta roupa dentro dos armários, tantos sapatos, malas, agasalhos, tantos telemóveis que se substituíram porque há uns que fazem mais um trilião de coisas que desconhecemos e nunca vamos usar, tantos brinquedos amontoados com que ninguém brinca, tantos papéis, tantos sacos, tanta gasolina desperdiçada, tantos doces, tantas lautas refeições que nos amolecem e aumentam, à volta das quais tecemos aturados comentários sobre a crise que aí vem.


 


Estamos em crise dentro de nós próprios porque não vemos aqueles que precisam ser vistos, nem usamos a nossa sorte para melhorar a sorte daqueles que a não têm. E esta é uma crise que não tem dimensão nem previsão de término.

Passam


(pintura de Zoltan Szabo: wind dancers)


 


Passam vertiginosos rios espadas

arcos de vento

passam rasgando estradas desaparecidas

depressa

sem riscos nem vazios

passam vertiginosos rios de nada.


 

Indisciplina vs criminalidade

São graves a indisciplina e o sentimento de impunidade na Escola. Não se admite que alunos com 16 e 17 anos considerem uma brincadeira ameaçar a professora com uma pistola de plástico. Mais grave ainda é o sentimento de que, na realidade, foi um incidente apenas, desvalorizado por quem tem responsabilidades na Direcção Regional de Educação.


 


Mas a ideia de que todos estamos sob a ameaça da espionagem dos telemóveis, de que o que dizemos ou fazemos numa sala de aula, num consultório médico, numa conversa de amigos, num gabinete de advogados pode vir a ser transmitido no You Tube, que situações mais ou menos graves, cujas circunstâncias são desconhecidas pois só se discutem partes muito escolhidas de um todo, serão julgadas em praça pública, é assustadora e muito perigosa.


 


Não sei onde tudo isto poderá levar. Mas a mediatização de excertos de situações pode levar a histerias e distorções se calhar ainda mais graves do que os actos em si. É bom que não se confundam criminosos com jovens mal-educados e indisciplinados. É bom que as escolas não se transformem em prisões vigiadas nem as aulas em palcos de chantagens inqualificáveis.


 


A autonomia e a autoridade dos professores não se restabelecem transferindo essas competências para as polícias e para os tribunais.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...