17 fevereiro 2008

Doze

Doze meses
doze horas
doze badalos
no peito
doze nozes
doze vozes
doze nós
a desfazer
doze bocas
doze brincos
doze olhares
crucificados
doze pedras
doze chagas
que abri
doze Cristos
doze Judas
doze vezes
repeti
doze velas
acesas
doze mantos
sagrados
doze beijos
doze mundos
que guardo
para ti.

(pintura de Janet Carney)

Movimentos cívicos

O movimento cívico que se uniu à volta da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República foi importante e tinha um objectivo: as pessoas não se reviam em nenhum dos candidatos, e as que estavam mais ligadas à esquerda, não gostaram da forma como o candidato apoiado pelo PS foi escolhido - pelas cúpulas do partido sem atenção ao que a tão falada sociedade civil pensava. Nesse sentido o movimento cívico tinha uma alternativa, um objectivo e lutou por ele.

O movimento cívico que se gerou em volta da candidatura de Helena Roseta à Câmara de Lisboa teve exactamente a mesma lógica: uma significativa parte de apoiantes e militantes do PS, e não só, não perceberam a forma como foi escolhido o candidato oficial do PS e Helena Roseta protagonizava uma alternativa com objectivos claros e programa definido para a presidência do município.

A corrente política que se gera à volta de Manuel Alegre, dentro do PS, não se percebe se tem e qual é o seu objectivo estratégico, qual as alternativas que propõe nem o que pretende alcançar.

Se é a discussão política interna do PS, o debate de ideias num partido governamentalizado, a proposta de soluções concretas ao que se considera errado e mal conduzido, sacudindo o imobilismo de uma situação política em que não há oposição, é estimulante e indispensável.

Mas as declarações de Manuel Alegre são dúbias, difíceis de interpretar, algures entre a chantagem, a bravata e as previsões catastrofistas. A ameaça de se o desafiarem vai às urnas no país, não se entende.

Que significa isto? Se a discussão é dentro do partido, para abrir janelas e arejar ideias, se as alternativas são construtivas e exequíveis, porque não disputa Manuel Alegre a liderança do PS? Se ameaça ir às urnas no país, quer dizer que vai criar outro movimento de opinião que o apoie a concorrer ao lugar de Primeiro-Ministro, visto que as suas propostas serão diferentes e partilhadas por muitos cidadãos anónimos, dentro e fora do PS? Mas para isso é mesmo necessário que haja propostas concretas, políticas alternativas, objectivos sustentados e uma estrutura que demonstre a possibilidade de os atingir, caso a eleição seja alcançada.

Ou então, embora o negue veementemente, está em embrião a criação de um novo partido, situado à esquerda do PS. Estamos em democracia e as formações partidárias, tal como os movimentos de cidadãos, têm toda a importância. Mas, mais uma vez, qual o programa, os estatutos, os princípios, as propostas concretas para o governo, alternativas a este PS que apelidam de neoliberal?

Este caminho é pantanoso, muito pouco claro e gostaria que Manuel Alegre (que admiro e que apoiei), assim como quem o rodeia nesta tentativa de refundação da esquerda, medite bem nas consequências de gestos e palavras grandiloquentes mas sem consistência. O que está em jogo é um modelo de sociedade e um conjunto de valores que devem ser aplicados no terreno, nas circunstâncias de hoje, com os problemas económicos, de desemprego e desigualdade sociais muito resultantes do fenómeno da globalização, do regresso dos fundamentalismos religiosos, da tutela da democracia no que diz respeito à liberdade de expressão de pensamento, como é exemplo a proibição de um cartaz de publicidade no metro de Londres, com uma pintura com um nu feminino, desafios totalmente diferentes dos que existiam há 30 há 30, 20, 10 ou 5 anos.

Se há propostas eu gostaria de as conhecer, propostas concretas: o que fazer na educação, na saúde, na justiça, como enfrentar o fenómeno do desemprego e das desigualdades sociais, como aumentar o crescimento económico, como lidar com o fenómeno da imigração, da violência, do terrorismo, como manter um sistema de reformas e pensões justo e digno.

Se estas existem e não tiverem cabimento no PS, então Manuel Alegre que o demonstre e que lute por um lugar de Primeiro-Ministro para as colocar em prática. Se não quer sair do PS, que esclareça de uma vez por todas o que quer dizer com ir a votos no país.

Se não, a única coisa que me ocorre é que estamos perante um fenómeno de populismo pseudo esquerdista, que ninguém sabe o que pretende e ninguém sabe onde irá parar. Mas a experiência do PRD, desses impolutos justicialistas, não foi muito interessante.

14 fevereiro 2008

Conchas

Guardo conchas do tempo de flores
entre os dentes desejos
tatuados

guardo o prumo do fio que somos
entre os dedos sentidos
inflamados

guardo letras da vida que somamos
entre a pele os sonhos
desenhados.

(pintura de Christina Snyder Doelling: Orchids Emerging)

10 fevereiro 2008

Horas

Partilho com as horas
um entendimento perfeito
elas gastam-me
eu desperdiço-as.

Arrasto-as langorosas pelo corpo
que as acolhe sedento de rugas
perfeitas no seu inevitável
aborrecimento.


(pintura de Saba Hasan: Indifferent History)

Multiculturalismo

A proibição do uso do véu islâmico nas Universidades não me parece uma medida que acautele a laicidade do estado. A forma de vestir dos cidadãos é do foro da esfera privada. Se quisermos proibir a uso do véu, poderemos imaginar vários motivos para a proibição do uso de calções, piercings, cabelos rapados, cucifixos, etc.

Nesse sentido a decisão do parlamento turco não impede a separação entre a religião e o estado. A argumentação de que é um símbolo de submissão da mulher ao homem e da desigualdade entre géneros não pode ser invocada, pois admite-se que o uso desses símbolos é feito por livre decisão dos próprios.

Já a possibilidade de que a Charia (ou Sharia) seja admitida nas comunidades islâmicas dos países europeus, laicos, com uma lei que deve ser aplicada a todos os cidadãos que lá vivem é, quanto a mim, uma hipótese perigosa e disparatada.

A inserção das várias comunidades nos países de acolhimento deve ser feita na aceitação das regras culturais e da legislação desses países. Não se podem criar países dentro de países, que vivem de forma autónoma com as suas próprias leis, que contrariam a essência dos valores das comunidades onde os imigrantes se querem integrar. O respeito pela cultura de quem vem não pode por em causa os valores e a cultura de quem está. Esse tipo de multiculturalismo é a melhor maneira de promover e eternizar a segregação e a marginalização das comunidades imigrantes.

Na sociedade ocidental a separação entre a Igreja, qualquer que ela seja, e o Estado, é uma conquista de bem-estar e de liberdade que não deve ser posta em causa, mesmo com as melhores intenções de integracionismo e respeito pelas diferenças.

09 fevereiro 2008

Dream a litle dream of me

Stars shining bright above you
Night breezes seem to whisper "I love you"
Birds singing in the sycamore tree
Dream a little dream of me

Say nighty-night and kiss me
Just hold me tight and tell me you’ll miss me
While I’m alone and blue as can be
Dream a little dream of me

Stars fading but I linger on dear
Still craving your kiss
I’m longing to linger till dawn dear
Just saying this

Sweet dreams till sunbeams find you
Sweet dreams that leave all worries behind you
But in your dreams whatever they be
Dream a little dream of me

Stars shining up above you
Night breezes seem to whisper "I love you"
Birds singing in the sycamore tree
Dream a little dream of me

Sweet dreams till sunbeams find you
Sweet dreams that leave all worries behind you
But in your dreams whatever they be
Dream a little dream of me

Yes, dream a little dream of me

(Gus Kahn/ Fabian Andre/ Wilbur Schwandt/Irving Milton Adolphus; cantam Ella Fitzgerald e Louis Armstrong)

Começar de novo

Começar de novo
e contar comigo
vai valer a pena
ter amanhecido
ter me rebelado
ter me debatido
ter me machucado
ter sobrevivido
ter virado a mesa
ter me conhecido
ter virado o barco
ter me socorrido
Começar de novo
e contar comigo
vai valer a pena
ter amanhecido
sem as tuas garras
sempre tão seguras
sem o teu fantasma
sem tua moldura
sem tuas escoras
sem o teu domínio
sem tuas esporas
sem o teu fascínio
Começar de novo
e contar comigo
vai valer a pena
ter amanhecido
sem as tuas garras
sempre tão seguras
sem o teu fantasma
sem tua moldura
sem tuas escoras
sem o teu domínio
sem tuas esporas
sem o teu fascínio
Começar de novo
e contar comigo
vai valer a pena
já ter te esquecido

(composição: Ivan Lins / Vitor Martins; canta Simone)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...