28 outubro 2007

Pelos Jornais

Confesso que não consegui perceber esta notícia. Afinal, o que é que se passa e o que é que muda? Os imigrantes precisam de mais condições para serem legalizados, para além de terem contrato de trabalho, descontarem para a segurança social e terem entrado legalmente no país?

Os imigrantes ilegais vão poder legalizar-se como?

Os esclarecimentos sobre o artigo 88º, alínea 2, prestados por José Magalhães, não me esclareceram rigorosamente nada.

Será que o problema é meu, da lei, ou de quem escreveu o artigo? Será que Céu Neves percebeu alguma coisa do que escreveu?

Espero que seja só obnubilação matinal dominical.

Pelo contrário, concordo na totalidade com o artigo de António Barreto no Público - Da mentira como virtude política (obrigada a LA-C), claro e cristalino, sobre a mentira que se tornou num estado de arte para a política.

José Sócrates está a alimentar um tabu completamente infantil e despropositado sobre a sua decisão quanto a referendar ou não o Tratado de Lisboa. Está a perder o timing e a deixar que se avolume a suspeita de que a sua opinião será ditada pela posição revista e retocado do PSD.

Se for favorável, também poderá ser vista como uma decisão tomada a reboque de várias pressões de grupos ou individualidades, e não o resultado de uma convicção firme do que está correcto fazer – cumprir uma promessa eleitoral.

27 outubro 2007

Tríptico

1.
Murmuro palavras
orações de caminhante
enrolo mantas
seguro lanternas
sorvo golfadas
de solidão.


2.
Devagar as pedras
empilham-se na madrugada.

Não há réstia de luz
que alumie esta estrada.


3.
Crianças de joelhos sujos
e mãos laboriosas

acabam de descobrir
caracóis e bichos da conta

abrem gavetas na memória
onde guardam intactas

as manhãs sem história.


(escultura de John Robinson: Umbrella Children)

Arthur & George

Este é um livro com vários livros dentro.

É a biografia de Arthur Conan Doyle, um homem feito para ser um herói romântico, que vive e procura a aprovação das mulheres da sua vida, desportista, médico, escritor (criador de Scherlock Holmes) e crente no espiritismo e ocultismo.

É a biografia de George Edalji, filho de indianos, míope em vários sentidos, que acredita no poder da lei, na justiça da lei, na lei como veículo da cultura inglesa, no respeito e conhecimento da lei como passaporte para o reconhecimento da sua capacidade (e vontade) em ser inglês.

É a história de um encontro entre dois seres tão diferentes, a sua amizade e o modo como se influenciaram mutuamente, alterando o percurso das suas vidas.

É uma história de amor, do amor filial, do amor a Deus e do seu desamor, do amor a um modo de vida, do amor patriótico, do amor platónico, do amor paternal, do amor por causas, do amor por si próprio.

É uma história policial, em que se pretende desvendar um mistério que levou a um erro judiciário.

É uma história que demonstra o autismo a que podem chegar as corporações, de preconceitos e ideias feitas, da falta de assunção de responsabilidades por parte dos vários poderes, do judicial ao político.

Tudo muito bem escrito, muito sóbrio, diria mesmo totalmente inglês.

(capa do livro Arthur & George, de Julian Barnes)

Respeito

As últimas sondagens mostram um decréscimo das intenções de voto no PS e em Sócrates e um aumento das intenções de voto no PSD e em Luís Filipe Menezes.

Não espanta a ninguém que isto suceda. Mas é preocupante, se concordarmos com a interpretação de que a descida da popularidade de Sócrates arrasta a descida do PS.

Este governo tinha (e tem) uma tarefa hercúlea pela frente: um défice enorme e a ameaça da espada do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), a reforma da administração pública (que todos os partidos acham indispensável mas nenhum a tentou), a sustentabilidade da segurança social e do serviço nacional de saúde, a reforma do sistema educativo.

É verdade que muita coisa tem sido feita. Mas muito mais tem sido dito que se vai fazer. Por outro lado, falta uma avaliação séria das medidas entretanto implementadas, principalmente aquelas que poderão ter mais consequências negativas no bem-estar da população, mesmo que só aparente.

Onde está a avaliação da reorganização dos serviços de urgência, dos blocos de parto, do reforço do INEM, da reestruturação dos cuidados primários de saúde, da implementação dos cuidados continuados?

Onde está a avaliação das alterações o sistema educativo, desde a do estatuto da carreira docente, à contratação dos profissionais por 3 anos, às aulas de substituição, à reforma do ensino da matemática e do inglês, até aos resultados dos exames nacionais?

O desemprego aumenta, como sempre nos disseram que seria de esperar. Mas as promessas eleitorais, ainda por cima em matéria tão sensível como esta, devem ser cumpridas, assim como justificadas as faltas de cumprimento.

Respeito. A falta de respeito nunca é perdoável. Sócrates e o PS devem respeito aos seus concidadãos. Sócrates deve ouvir e explicar, avaliar e reconhecer, preparar-se para o embate com o rei da inutilidade e do ruído de fundo que é Santana Lopes, não com irritação, paternalismo e condescendência, mas com a verdade dos factos e a segurança das suas ideias sobre o país.

O cumprimento das promessas eleitorais é um dos factores mais exuberantes da demonstração do que é o respeito, em termos políticos. O referendo ao tratado de Lisboa pode ser uma oportunidade para mostrar esse respeito por quem nele acreditou. Não bastam palavras nem boas intenções.

Este é o momento de viragem. Sócrates pode optar pela continuação do autismo e da arrogância governativas, que o levarão à derrota nas eleições de 2009, ou pela retoma dos valores de respeito por quem governa e de determinação para corrigir o que deve ser corrigido.

Eu ainda não me esqueci de Santana Lopes, de Durão Barroso ou de Guterres. Espero que Sócrates também não.

26 outubro 2007

Putin

Não gosto de Putin. Arrepia-me ver este homem ser recebido com esta pompa e esta circunstância por um país democrático, pelo Presidente de um país democrático, pelo Primeiro-Ministro de um país democrático, pela Presidência da União Europeia.

O Presidente da Rússia passeia-se com a segurança de um autoritarismo onde impera a repressão da expressão de opiniões, os crimes contra jornalistas e dissidentes, o apoio ao Irão nuclear, ao Irão negacionista, ao Irão teocrático, misteriosos e calados assuntos em tão estreita e rígida figura.

Não gosto de Putin. Os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos deveriam ser para levar a sério neste país democrático, nesta Europa Unida.

Férias

Dormir, ler, comer, passear, namorar, o ócio, o prazer de nada fazer, sem compromissos de ocupação de trabalho ou de lazer.

Estas são as verdadeiras férias, de pulmões vivificados, de olhos banhados de verde e azul, de cabeça cheia de histórias que aguardavam a placidez destes dias.

Já não é Verão e ainda não é Outono. As árvores não se decidem entre o verde e o castanho, o chão recebe folhas estaladiças e, ao fim da tarde, sabe bem um abrigo.

Na preguiça das noites estreladas, devoram-se páginas de livros, olha-se distraidamente o jornal, adormece-se a ouvir as notícias.

Férias de nós e do mundo.

Escolas

Após um editorial muito inflamado de José Manuel Fernandes, clamando contra a Ministra da Educação que, oh horror, disponibilizou os resultados dos exames de 2007 sem, previamente, os ter divulgado aos jornalistas, não dando tempo ao Público de fazer um tratamento suficientemente rápido dos números, de forma a que o seu ranking aparecesse antes ou ao mesmo tempo dos rankings dos outros jornais, obviamente fiquei atenta ao que os media iriam dizer

O costume: que as escolas privadas são melhores que as públicas, esquecendo que as escolas públicas não escolhem os seus alunos, e esquecendo o custo das escolas privadas, o que fracciona imediatamente o universo estudantil.

Mas começam a desenhar-se outros argumentos, subtilmente, que considero potencialmente mais perigosos pela manipulação que poderão fazer da opinião pública: que as escolas religiosas são melhores que as laicas e que a separação de géneros melhora a performance escolar. Coincidência ou não, estes argumentos vêem das escolas que juntam estas duas características.

É verdade que há estudos científicos em que se observam diferenças de aprendizagem e de maturação entre os dois géneros, que poderão servir de base a abordagens diferentes na forma como se leccionam os vários assuntos, tendo em conta estas diferenças. Mas ainda não vi nenhum estudo que advogue uma separação entre os sexos para melhorar a aprendizagem.

Quanto ao factor religioso, é uma questão de crença. Mas nestas coisas do ensino, não sou a favor da fé num sistema, mas em sistemas que estejam confirmados cientificamente, na formação dos professores, na motivação dos alunos, que pode ser outra que não a religião, na disciplina, na exigência, na curiosidade, no gozo de aprender, nas leituras, no trabalho, na cultura do mérito.

A Escola Pública de qualidade é a única que pode propiciar uma verdadeira igualdade de oportunidades, é a única que pode ser um factor de inclusão social, de envolvimento e acolhimento das comunidades imigrantes, uma educação para a solidariedade.

Pois a Escola é mais do que formar máquinas que tiram boas notas. A Escola deve formar futuros cidadãos qualificados, que saibam e que gostem de aprender, inseridos na sua sociedade.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...