11 agosto 2007

Tabloidização normalizada

Hoje, como de costume, antes de tomar o meu café com jornais, fui comprar os ditos. Os cafés do bairro resolveram fechar todos ao mesmo tempo, portanto recorri a uma espécie de centro comercial, onde há muitos cafés e uma loja que vende jornais, revistas e tabaco (vão escasseando).

Mecanicamente, peguei nos jornais que habitualmente compro, paguei e, quando me sentei preparando-me para saborear o DN, defrontei-me com o logótipo do Sol. Fiquei embasbacada, irritada e humilhada com este erro de confusão jornaleira.

Depois de suspirar silenciosamente, entristecida com a minha galopante senilidade, folheei o Sol, com alguma curiosidade, pois quando ele saiu achei-o péssimo.

Não melhorei a minha opinião sobre o Sol. O pior é que, lendo o DN online, fiquei a perceber uma das causas da minha confusão: é que os jornais estão cada vez mais iguais, desde o formato, às cores, ao estilo, aos títulos, às notícias.

Estou com senilidade galopante, mas os jornais estão de uma futilidade esmagadora, inúteis, entediantes e totalmente normalizados.

Gestão a menos

Mais uma vez, para entrar em vigor a 1 de Agosto, é publicado um decreto-lei que ninguém percebe muito bem qual a ideia nobre que o gerou. O objectivo é claro: reduzir custos. Mas à custa de quê, com que planeamento, negando autonomia aos Concelhos de Administração dos hospitais, empresarializados ou não, à custa de que peregrina ideia de poupança ou de regularização o sector?

Não se entende o enquadramento, que gestão de recursos humanos se pretende, que filosofia de serviços, a que cuidados de saúde estão a guiar este tipo de medidas avulsas e sub-reptícias, para começarem a funcionar na época em que a falta ou a má gestão do pessoal de saúde mais se faz sentir.

Correia de Campos cada vez se parece mais com um elefante numa loja de cristais.

A propósito, ler também Autonomia, onde ficas? (Saúde SA) e manta de retalhos (que raio de saúde a nossa).

10 agosto 2007

Romaria

É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre meu cavalo
É de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a só

Sou caipira, pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
À custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte, eu não sei, nunca vi

Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir de
Romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

(autor: Renato Teixeira; intérprete: Elis Regina)

Casa no campo

Conheci esta canção através da voz de Elis Regina. Inesquecível, embriagante, solene.

Para uma tarde de Verão (dedicada a uma amiga muito querida).



Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sape
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais


(autores: Zé Rodrix – Tavito, 1972)

07 agosto 2007

Sigo

Tal como o pardal
na imensa estrada
que no último instante
vê o perigo

em voo rasante
de susto e de vento
sacudo o medo

e sigo.

[pintura de Origa (Olga Hooper): Birch tree and sparrows]

06 agosto 2007

No sítio do costume

Compras, supermercado, vento, calor, modorra, tudo para um só dia de domingo, igual a tantos outros passados e, seguramente, a tantos outros futuros.

Na caixa uma empregada com facies de ave, com cabelos de um louro totalmente suspeito, com pálpebras meio descidas e ombros descaídos, vai passando as diversas mercearias com pouca diligência, mas carregando no pedal que faz andar o tapete das compras com grande velocidade.

Com os sacos de plástico a fecharem-se teimosamente e a fugirem do controle das mãos, ocupadas a abrir as bocas moles dos sacos, a agarrar produtos escorregadios e a tentar ser rápida, não me aguento mais e resmungo, de forma bastante audível, que assim é muito mais difícil!

A única manifestação, o único sinal, de que algo zumbe ao seu ouvido é a paragem instantânea do rolar do tapete, o que faz com que algumas garrafas de coca-cola, em equilíbrio instável, caiam com estrondo, arrastando o harpic sanitas. Já quase no fim do martírio pergunto, com péssimos modos, se não faz parte das funções da empregada da caixa ajudar os clientes a ensacar as compras.

Com a diligência de um caracol e com a expressão de uma múmia, não levantando nem mais um milímetro das pálpebras, ela responde: Só para as entregas.

Incenso

Queimo incenso
espero

que a noite
me transforme

em cinzas
perfumadas

em poeira
de vento.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...