13 julho 2007

Zita Seabra - Foi assim


Li o livro de Zita Seabra (Foi assim) de um fôlego. Tem ritmo, é muito interessante e é um importante contributo para o conhecimento da nossa história recente.

É um livro de memórias, das memórias dela, escritas com paixão mas cuidadosamente. Não é um ajuste de contas com os seus camaradas, mas um ajuste de contas consigo própria.

Zita Seabra abraçou uma causa com ardor e fanatismo, a causa romântica da luta pela liberdade e pelo povo, pela igualdade, pela revolução socialista, pela tese científica da evolução para o comunismo. O Partido foi a sua casa, a sua vida, a sua religião. Conta a sua militância clandestina, a sua solidão, a sua certeza na vitória, o seu trabalho e vontade de se transformar numa revolucionária profissional. Com ela ficamos a conhecer o que era a vida de um oposicionista, de um militante comunista, o medo, as prisões, a repressão, a tortura, a solidariedade, o martírio de quem se entrega totalmente a uma ideologia, que tudo abarca e tudo molda a si própria. Não há dúvidas, a confiança é cega.

Ficamos também a conhecer o ostracismo a que são votados os traidores, aqueles que não aguentavam as torturas na prisão, os que não aceitavam o centralismo democrático, os que cediam aos apelos da classe burguesa. Ficamos a saber que as vítimas são aceitáveis, que os fins justificavam os meios, para que a ditadura do proletariado vencesse e houvesse um Homem Novo, numa sociedade sem classes.

Ficamos a saber da disciplina férrea, da organização primorosa, da multiplicação dos pequenos partidos satélites, da infiltração das associações académicas, dos sindicatos, dos militares, do secretismo, das conspirações, da alegria da libertação no 25 de Abril, da luta pela libertação dos presos políticos, da luta pela colectivização da terra, pelas nacionalizações, pelas barricadas, das manifestações, contra manifestações e provocações, das armas distribuídas pelos membros da UEC, das tentativas para que não houvesse eleições livres.

Ficamos a saber que o Partido deixou de usar a expressão ditadura do proletariado por razões tácticas, que queria um confronto, a sua revolução de Outubro, que contou as espingardas e que, em 25 de Novembro, desistiu por perceber que não venceria: um passo atrás, dois passos à frente.

Percebemos a luta por uma Constituição que moldaria ainda vários anos do pós 25 de Abril, o trabalho parlamentar subalternizado por Álvaro Cunhal, a justificação da execução de Sita Valles, a progressiva tomada de consciência de um rumo desajustado, a perda da fé.

Porque foi o abandono da fé no comunismo, no Partido e no Camarada, um processo doloroso e espaventoso mas totalmente necessário para a consumação da rotura.

Para quem, como eu, viveu esses tempos heróicos da pós revolução com intensidade e esperança, para quem nunca percebeu as viragens ideológicas de Zita Seabra, compreende agora melhor o que era pertencer a uma organização daquele tipo, com tanto de heróico como de terrível.

Não concordo com Zita Seabra, não me revejo nas suas posições, não percebo certas atitudes e opiniões. Mas reconheço-lhe o mérito de ter tido a coragem de viver como viveu durante tantos anos, missionária de uma causa que lhe pediu tudo e a quem deu tudo, e a coragem de se olhar, de se pôr em causa e de o revelar, com o mesmo espírito de missão.

Gostava que quem viveu aqueles anos, participou e conviveu com este pedaço da nossa história, dentro ou fora do PCP, contasse as suas memórias. Gostava que, em vez de se procurarem pequenos pontos de imprecisão, interpretações sobre o que quereria dizer e não sobre o que está escrito (como a famosa comparação da chegada de Cunhal com a chegada de Lenine) aproveitando para fazer um verdadeiro assassinato de carácter, revelasse a sua verdade, a sua forma de contar a mesma história.

Só assim saberemos se foi (mesmo) assim.

12 julho 2007

Obrigatório

A gente tem-se uns aos outros e mais nada - José Luís Peixoto
(4 a 29 de Julho - Teatro Meridional - quarta a domingo, às 22 horas - Rua do Açúcar, Poço do Bispo)

Matemática

As notas nos exames de Matemática do 9º ano foram catastróficas.

Não era possível esperar que um ano, por muito boa vontade e por muitos programas de incentivo e de recuperação que se fizessem, fosse suficiente para se ver qualquer diferença, em qualquer ano de exames.

A Ministra da Educação não teve o discernimento de não embandeirar em arco com a ligeira melhoria nos exames do 12º ano. Esperemos que tenha o discernimento de não desistir, de aprofundar e motivar ainda mais os professores, os alunos e os pais para o trabalho, fazendo uma criteriosa análise do que correu bem e do que correu mal.

É com esforço, trabalho e verdade, sem demagogias facilitadoras nem alarmistas, que se pode avançar um pouco mais.

A educação de qualidade deve ser um paradigma do serviço público.

Tudo e nada

Tenho livros que se abrem
letras que se procuram
olhos de outros
que apregoam sinos
ecos vorazes
que abanam rumos.

Tenho árvores à espera
de frutos doces
que caem fortes
e maduros.

Tenho tudo
e tudo me falta.

(pintura de Jonn Herschend: Nothing is Where I left it)

Vermelho e negro

Depois do último post, estas cores são as apropriadas.

(socialista, republicana, anti clerical, facção Manuel Alegre, herdeira da facção do saudoso Raul Rego)

(pintura de Paul Brent: Red Cityscape)



  • Adenda: afinal ficou azul, vermelho e negro...

A Concordata

Muito se tem falado indignadamente, e tomando as dores da Igreja Católica, que se ofendeu com o Estado na figura do Primeiro-Ministro, por não perceber atitudes do governo que não estão em consonância com o espírito abnegado da Santa Madre Igreja, no que respeita ao seu estatuto enquanto defensora dos fracos, dos pobres e dos oprimidos, pois até se revolta contra o clima de medo e a prepotência destes socialistas maioritários.

No entanto, se quisermos saber exactamente quais as razões da zanga não percebemos, pois há apenas vagas referências a diminuição de apoios nos ATLs, ao não reconhecimento do grande papel da Universidade Católica no ensino superior do país, ao direito constitucional de se ser apoiado religiosamente nos hospitais e nas casernas.

Sempre me intrigou que num país em que há uma Constituição que diz:

  • Artigo 13.º
    (Princípio da igualdade)
    1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
    2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. (...)

E há uma lei de liberdade religiosa que também diz:

  • Artigo 2.º - Princípio da igualdade
    1 — Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, perseguido, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever por causa das suas convicções ou prática religiosa.
    2 — O Estado não discriminará nenhuma igreja ou comunidade religiosa relativamente às outras.
    Artigo 3.º - Princípio da separação
    As igrejas e demais comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.
    Artigo 4.º - Princípio da não confessionalidade do Estado
    1 — O Estado não adopta qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas.
    2 — Nos actos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade.
    3 — O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes religiosas.
    4 — O ensino público não será confessional. (...)

E depois há uma Concordata, que diz, por exemplo:

  • Artigo 19
    1. A República Portuguesa, no âmbito da liberdade religiosa e do dever de o Estado cooperar com os pais na educação dos filhos, garante as condições necessárias para assegurar, nos termos do direito português, o ensino da religião e moral católicas nos estabelecimentos de ensino público não superior, sem qualquer forma de discriminação.
    2. A frequência do ensino da religião e moral católicas nos estabelecimentos de ensino público não superior depende de declaração do interessado, quando para tanto tenha capacidade legal, dos pais ou do seu representante legal. (...)

E as outras religiões? E os ateus? E os agnósticos? Será que o governo se vai penitenciar?

Quem não tem que fazer...


...faz colheres.

(Stuart King: sycamore spoons)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...