20 abril 2007

Sem forma

Não me apetece estar comigo
neste lugar entranhado
de fibras células ar
no raciocínio viciado
de ser eu.

Preferia ser vapor
desta água fervente
nuvem alta transparente
sem forma.
Evanescente.


(pintura de Jane Faella: clouds)

Meritocracia

Ontem terá sido aprovada, em Conselho de Ministros, a proposta de lei que institui o sistema integrado de gestão e avaliação do desempenho na Administração Pública.

Pelo que noticia o JN online, há quotas para avaliação dos desempenhos, pretendendo-se assim acabar com o sistema totalmente iníquo de não premiar o esforço e o trabalho de quem, efectivamente, o faz.

Sou totalmente a favor de um sistema de remuneração e progressão nas carreiras que dependa do valor individual e do esforço integrado para a valorização do colectivo, que cada trabalhador desenvolva, adaptado às funções que desempenha.

Para que isso seja possível, terá que haver transparência nos critérios de avaliação e, mais importante, tem que haver confiança no avaliador, por parte de quem é avaliado.

Infelizmente, temo que a uma iniquidade se sigam outras. A forma como a maioria das chefias são nomeadas e, mais importante, a forma como se mantém a confiança dos nomeados, está, na maioria dos casos, inquinada por compadrios, troca de favores e abuso de poder.

Qual o sistema de avaliação das próprias chefias? Que garantia de equidade e imparcialidade têm os trabalhadores na hora da sua avaliação? A quem se poderão dirigir se sentirem que estão a ser marginalizados por causas distantes das estritamente profissionais?

É essencial que a avaliação das chefias tenha um componente não negligenciável de uma avaliação a 360 graus, ou seja, os dirigentes serem avaliados pelos trabalhadores. Caso essa possibilidade não seja acautelada, com a cada vez menor segurança de emprego, assistiremos a prepotências crescentes, corrupção de pacotilha e abuso da parte dos empregadores.

Estamos quase a comemorar 33 anos da revolução de Abril. Nunca haverá vivência plena dos ideais de Abril sem que se cumpra o D de Desenvolvimento. E a liberdade não pode ser manietada pelos pequenos ditadores que se sentem reis nos seus pequenos quintais públicos, com a impunidade a que hoje se assiste.

Avaliemos sim, com critério, com rigor, com competência, a começar por quem dirige.

19 abril 2007

A música das palavras

A música das palavras,
o sabor das letras na língua
quando se enrolam e deleitam
nos lábios, o estremecer dos ditongos,
o espanto das combinações,
a espera das razões que se criam.

O desenho das palavras,
as ondas que reflectem
nos olhos, entre os braços,
que correm pelo sangue
e embriagam as emoções.

Enquanto gritamos,
lambemos, seduzimos,
amamos e vivemos
de palavras,
não desfazemos

desmerecemos,
enfraquecemos,
nem explodimos
o mundo.


[pintura de Jacob King (palavras de Wiliam Faulkner, lidas de baixo para cima, espelhando a esperança apesar da adversidade): we will prevail]

"Explicação dos pássaros" (corrigido)

(…) estes pássaros merecem uma atenção especial: são considerados os mais bonitos da Europa, como se pode constatar pela foto junta. Com o nome latino de merops apiaster só têm um defeito: é quase impossível chegar perto deles! (…)
Pedro

(…) O voo é único porque as asas são triangulares e parecem papagaios de papel a planar. Fazem os ninhos em buracos escavados em "paredes" de areia dura (há muitos em antigas saibreiras). Uma vez, num documentário, vimos toda a colónia a atacar uma cobra que queria aproximar-se dos ninhos: faziam verdadeiras picadas em cima dela até que a dissuadiram! (…)
São

(abelharucos)

17 abril 2007

Pássaros

Os pássaros de asas longas
pousados no fio do tempo,
abrem gritos mudos
e sobem no horizonte
que nos espera.
Guardam eternidades
de vazio.


(pintura de: Tamryn Pöhl)

Câmara de Ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

(poema de Waly Salomão; pintura de Regi BarDavid)

La Llorona

Fui lembrada da existência deste portento da canção ranchera. Chavela Vargas faz 88 anos. Vale a pena ouvi-la, bem alto, com pouca luz e com um copito de tequila, ou de mezcal.


Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Yo soy como el chile verde,
Llorona
Picante pero sabroso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.

Ay de mí, Llorona Llorona,
Llorona, llévame al rio
Tápame con tu rebozo, Llorona
Porque me muero de frio

Si porque te quiero quieres, Llorona
Quieres que te quieres más
Si ya te he dado la vida, Llorona
¿Qué mas quieres?
¿Quieres más?

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...