10 abril 2007

A falta da Justiça

Este é o resultado do simulacro de justiça que existe em Portugal. Neste momento, aquela que deveria ter sido preservada da disputa parental, já tem opinião própria, colocando um dos litigantes entre os maus e o outro entre os bons.

Este é o resultado de processos que se arrastam durante anos, quando deveriam resolver-se em poucos dias, e de histórias que se martelam durante semanas, em altos brados, quando deveriam ser preservadas do intenso ruído de fundo a que são sujeitas.

Providenciemos

Todo este assunto da licenciatura de Sócrates, do título e a profissão de engenheiro que devia ou não usar, já não se aguenta.

O melhor é interpormos já uma providência cautelar que impeça o primeiro-ministro de ministrar, seja lá o que for, enquanto se não passam a pente fino todas os curricula dos nossos vários ministros, secretários de estado e deputados, presentes e passados, a que cadeiras assistiram às aulas, se estudaram pelas sebentas ou pelos tratados, se tiravam apontamentos ou estudavam pelos dos colegas, devidamente fotocopiados, se copiavam nos exames ou se denunciavam as cábulas escondidas a preceito.

Parece-me haver aí imensa matéria para investigação jornalística e, quem sabe, para a Procuradoria-Geral da República…

08 abril 2007

Des-humanidade

Com as mãos que afagam
que amparam
que apagam medos,
com as mesmas mãos
que semeiam
que vestem almas,
com os mesmos dedos
armados de espadas
agudos em punhais,
empalamos asas
decepamos risos
desfazemos casas.

Estes olhos que choram
ao florir do sangue
são os mesmos que olham
o esgar exangue
dos braços na cruz.
São o brilho da luz
do metal que fere,
do portal aberto
que o mal confere,
um sinal incerto
para lamber a morte
e beber da vida.


[Abril de 1994, Ruanda; filme realizado (2005) por Raoul Peck: Sometimes in April)

O Romeiro, D. João de Portugal

Regresso enfim, de barba branca,
mirrado de piça e veleidades,
olho pisco, pêlo ralo, perna manca,
em busca de que sal, de que saudades

que se manduquem em aberta mesa.
Vejo contudo que em má altura
cheguei à vela que esperava acesa
e não encontro, inexistente e escura.

Afinal onde estou, já que sem nome
o vento me levou a condição?
Não terei terra branda que me tome

e me leve aos infernos pela mão,
pois uma só pergunta me consome:
se não nasci porquê morrer então?


(poema de Pedro Tamen)

07 abril 2007

Humor de intervenção

O humor é das melhores armas políticas que existem. Ao contrário de outros activistas políticos, que não têm graça nenhuma, e de outros cómicos, que decidiram não intervir politicamente, os Gato Fedorento usam a sátira para intervir na sociedade, com significado político.

Na campanha para a despenalização da IVG fez mais o vídeo dos Gato Fedorento a parodiar Marcelo Rebelo de Sousa que muitos debates e discursos bem intencionados. Quanto à corrupção, Valentim Loureiro foi estraçalhado pelo sketch que lhe dedicaram.

O cartaz xenófobo do PNR, agrupamento de indivíduos pouco recomendáveis que se leva muito a sério, dizendo e escrevendo alarvidades, foi reduzido ao mais puro ridículo pelo cartaz dos Gato Fedorento.

Aplaudo e agradeço!

Novo (desconhecido) Tratado Constitucional Europeu

Parece que tem havido algumas tentativas para arredar ainda mais a discussão do novo Tratado Constitucional europeu dos cidadãos europeus.

Se a necessidade da existência de uma Constituição Europeia é, por si só, discutível, se a redacção desse Tratado Constitucional/Constituição deveria partir de uma assembleia eleita para esse fim, a existência de manobras de bastidores para fazer aprovar um texto desconhecido dos cidadãos e nem sequer referendado (pelo menos seria uma ocasião para ser conhecido) não augura nada de bom.

Relíquias

Nestes dias de santidade cristã e fabricação de beatos e santos, tem alguma graça irónica a descoberta da falsidade das relíquias atribuídas a Joana d’Arc.

Não há dúvida que a ciência e o conhecimento são um perigo para instituições que se mantém à custa da credulidade e da ignorância dos povos.

O desmontar de crenças, mitos e lendas é tão importante como a tradição da manutenção cultural das mesmas. Não percebo porque se impede a investigação dos restos mortais (se é que existem) dos túmulos de D. Afonso Henriques e de D. Sebastião, ou o estudo dos enigmas do sudário.

A fé e os ensinamentos daqueles que são tornados santos e transformados em deuses não diminuem pelo conhecimento real e científico dos factos, mesmo que seja para desmascarar mentiras seculares. A fé é um assunto privado e tem a ver com o mecanismo da nossa mente, do nosso cérebro, não com a alimentação de mitos que, mais tarde o mais cedo, cairão esmagados pela evidência.

[Centre Historique des Archives Nationales, Paris: Imagem de Joana d’Arc (1450 – 1500)]

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...