04 abril 2007

Portugal, Um Retrato Social

Vi ontem o segundo episódio do programa de António Barreto (Portugal, Um Retrato Social), que desde que foi anunciado andei a perseguir, tendo perdido ingloriamente o primeiro episódio.

De facto, Portugal modificou-se muitíssimo neste últimos 40, 50 anos. As ambições, as expectativas, as oportunidades que os filhos dos carpinteiros, dos lavradores, dos homens e mulheres que povoavam o campo, pobres e analfabetos, as diferenças entre os géneros, a influência da Igreja nos usos, nos costumes e na consciência colectiva, o respeitinho, mudaram radicalmente e em pouco tempo.

Apesar das diversas crises, económica, educativa, judicial e outras, sucessivas e duradouras, Portugal é, hoje em dia, um país onde se vive melhor, com infra-estruturas, em que há maior igualdade de oportunidades para todos, independentemente do meio sócio económico em que se vive.

No entanto a perpetuação do sistema educativo tal como está, com os preconceitos pseudo esquerdistas, a falta de rigor e disciplina, o aligeiramento dos curricula, a desculpabilização e paternalismo da ignorância, pode novamente subverter o objectivo de igualizar as oportunidades, independentemente do poder económico e social.

Um dos maiores desafios do nosso país é precisamente esse: a melhoria da qualificação e a motivação das aprendizagens, sem ceder ao populismo do chamado eduquês. Isso é condenar os filhos dos iletrados a iletrados quase obrigatórios, apenas porque o estado não zela por esse direito e não faz o seu dever.

03 abril 2007

02 abril 2007

Solidão

Abre a porta e pesa-lhe o silêncio. A sala é imensa e negra, perfumada pela ausência. Arrepia-se a abre as persianas com o esforço que tudo lhe exige, olhar, respirar, até limpar as lágrimas com as costas da mão.

O arrastar dos sapatos faz eco. Aproxima-se da cama e deita-se. A leveza do corpo gasto e exausto mal estremece a madeira.

Pode ser que adormeça. Para sempre.


(pintura de Anthony Whishaw: study of an old man)

31 março 2007

A marca de Deus (1)

É muito complicado falar de assuntos religiosos, ou mais precisamente bíblicos, com cristãos católicos. Talvez também o seja com judeus e islâmicos, mas na verdade nunca se proporcionou a oportunidade.

Mas hoje, a propósito de Judeus, Bispos e Cardeais, eleições papais, antigo e novo testamento, falou-se inevitavelmente da Páscoa.

Páscoa (do hebraico Pessach) significando passagem - a passagem do anjo exterminador. Para os judeus a Páscoa é a festa que comemora a libertação do Egipto, após a última das dez pragas enviadas por Deus (a morte dos primogénitos egípcios) e por Moisés transmitida ao Faraó, negociando a libertação do seu povo, aplacando a ira de Deus.

Os judeus são um povo exclusivista na sua religião e na sua cultura, cioso das suas tradições. O antigo testamento é a história do povo eleito, do povo escolhido por Deus, que exclui todos os outros povos.

Embora o anti-semitismo seja uma terrível realidade histórica que nos acompanha ao longo dos séculos, com numerosas purgas, expulsões e perseguições de judeus pelo mundo fora, a Bíblia conta-nos, de forma alegórica, a primeira manifestação de ódio ou exclusão religiosa, manifestada pelos judeus, ou pelo seu Deus vingativo, contra os egípcios, ao determinar o extermínio dos primogénitos daqueles que não detinham a marca da sua religião: o sangue do cordeiro imolado na porta das suas casas.

(The Golden Haggadah: The Passover)

Passagens

Todos temos as nossas semanas pascais, em que nos preparamos para o que vier depois.

Depois, sempre depois, desde a profunda inspiração que antecede o último esforço do parto, até ao sono que anuncia o acordar.

Sempre depois do medo, da felicidade, da doença, do traumatismo, do sorriso, do abraço, estamos sempre em preparação, de passagem entre uma emoção e a que há-de existir, para além.

Todos temos os nossos momentos pascais, que nesta vida com horizontes sem sinais nem caminhos traçados tendem a ser perpétuos.


(pintura de Shem: Passage of Time)

30 março 2007

27 março 2007

Apenas

Preciso de tão pouco
para que o dia me levante.

Preciso apenas das gotas
de chuva na janela
do rumorejar das folhas
que sussurram
do pincel
dos teus dedos
na minha pele.

E no entanto
para ter
assim tanto
vivo apenas no espanto
de querer.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...