30 janeiro 2007

Faltam 11 dias

Goste-se ou não do estilo de Fátima Campos Ferreira, o programa Prós e Contras tem-se afirmado como um programa de informação obrigatório. Após o exemplo do que não se deve fazer, quando o tema foi o caso da menor que é disputada pelo pai biológico e pela família de acolhimento, em que se criou um ambiente quase intimidador para os que questionavam a conduta do Sargento, nomeadamente para o magistrado e para o advogado que representava o pai biológico, ontem houve um bom programa de informação.

Não quer isto dizer que tenha sido muito informativo. Mas houve a oportunidade de ouvir defensores de ambas as opções.

Algumas coisas ressaltaram no meio do embrulho em que se tenta transformar o referendo:


  1. Não sei em que mundo vivem Isabel Galriça Neto, João Paulo Malta, Laurinda Alves, Katia Guerreiro, que só conhecem mulheres que, apoiadas (ninguém explicitou como), acabam por não abortar. O mundo que eu conheço é um mundo ligeiramente diferente, talvez mais parecido com o de Lídia Jorge. Conheço mulheres que engravidaram sem querer, ou porque não usaram métodos anticonceptivos, ou porque estes falharam, ou porque os usaram mal, ou porque são muito jovens e imaturas, ou porque estão na menopausa e as irregularidades menstruais enganam-nas, levando-as a pensar que não engravidarão.
    Algumas destas mulheres, após o choque inicial, aceitam a ideia de ser mães, com ou sem apoio, com ou sem maridos, companheiros, namorados, mães e futuras avós, com ou sem censura social ou familiar.
    Outras não aceitam de forma nenhuma a hipótese de levar a gravidez até ao fim, não reconhecem como facto o terem um ser humano dentro delas, apenas sentem que têm uma coisa, como muito bem expôs Lídia Jorge, uma coisa que a todo o custo rejeitam, que querem que desapareça, quanto mais depressa melhor.

  2. O poema de Rita Ferro espelha exactamente o problema de fundo de toda esta discussão – a inferiorização, apoucamento e menorização da mulher. Infere-se que esta, se não aceita a sua gravidez, está a negar a sua essência feminina, o seu destino, o seu objectivo na vida, ou seja a maternidade. Daí o arrepio pelo facto de ser por opção da mulher. No fundo não se lhe reconhece o direito e a capacidade de decidir.

  3. O assassinato de Aguiar Branco, ao responder a uma pergunta venenosa de Vasco Rato, quando reconheceu que votou afirmativamente a pergunta do referendo, usando agora como estratégia o ataque à forma e pertinência da pergunta.

  4. A tentativa desesperada dos defensores do “não” de desinformarem, apoiando objectivamente o aumento da abstenção.

  5. Já agora, Aguiar Branco afirmou que o problema do aborto clandestino após as 10 semanas não fica resolvido. Acho este raciocínio absolutamente absurdo: se o aborto for despenalizado até às 10 semanas as mulheres terão a possibilidade de o fazer dentro do tempo legal e seguro, sem medo e, portanto, a escassa minoria de abortos que existem após as 10 semanas provavelmente desaparecerá.

29 janeiro 2007

Participar

Este referendo não tem a ver com posições partidárias nem com cargos políticos, nem com professores Marcelos. Tem apenas a ver com cada um de nós, como cidadão, como homem e mulher, de si para consigo.

Queremos ou não mudar a lei? Concordamos que uma mulher que aborte, até às 10 semanas de gestação, seja condenada a pena de prisão?

É a essa pergunta que deveremos responder.

Por outro lado este é o 3º referendo efectuado até agora. Se, pela 3ª vez, a participação for inferior a 50%, será provavelmente o último.

Votar é um acto de cidadania e de responsabilidade. É uma forma de intervenção na vida comunitária.

Eu vou votar SIM.


(Picasso: grávida)

28 janeiro 2007

Auschwitz, há 62 anos (2)

Tive pela primeira vez a uma noção do que poderia ter sido o Holocausto quando vi uma excelente série documental na televisão: O Mundo em Guerra (The World at War, da Thames Television, 1973). Tudo, desde a apresentação, à música de abertura, à voz de Laurence Olivier, era absolutamente arrepiante, pregando-me à cadeira, hipnotizada. Os episódios que narravam a deportação e o extermínio dos judeus, os campos de concentração e a sua libertação, eram aterradores.

A banalidade do mal, a máquina administrativa e bem oleada do Estado Alemão, o esforço daquele país na guerra, a alienação do povo, a luta pela sobrevivência, o despojamento de tudo o que significa ser humano, da dignidade, da identidade, tudo me horroriza. Do que podemos ser capazes!

Depois disso já li muita coisa sobre o Holocausto. A Escolha de Sofia, de William Styron, foi o primeiro, Sem Destino, de Imre Kertész, o último, e o que mais me impressionou. Com este livro nos apercebemos de como nos podemos adaptar ao mal absoluto e absurdo, fazendo do inenarrável o quotidiano, no sofrimento, no adormecimento das funções cerebrais superiores, como nos adaptamos a sobreviver encurralados, como a simples ideia de comer pode ocupar a totalidade da existência.

Assusta-me que a memória colectiva se vá esvaindo, permitindo haver quem ponha em causa a existência do Holocausto. É o primeiro passo para a repetição do horror. Não percebo porque não são obrigatoriamente mostrados filmes e documentários nas escolas, porque não se mostra aos nossos filhos o que a banalização do mal pode fazer.

Fui dar a estes 2 sites: Fórum de comemoração do 60º aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau; museu de Aushwitz-Birkenau.

Para que ninguém esqueça, para que nunca se repita.

27 janeiro 2007

Auschwitz, há 62 anos

First they came for the Jews
and I did not speak out
because I was not a Jew.

Then they came for the Communists
and I did not speak out
because I was not a Communist.

Then they came for the trade unionists
and I did not speak out
because I was not a trade unionist.

Then they came for me
and there was no one left
to speak out for me.

(poema de Martin Niemöller)

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Alcance

Pelo que fizemos
dos dias
sem montes
sem ventos
sem qualquer átomo
de incerteza,
pelo que absorvemos
distraidamente
sem saborear
sem experimentar,
pelo que queremos
e não perdoamos,
a vida nos alcance.


(pintura de Conchita Carambano: contemplation)

26 janeiro 2007

Estrela

Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.

(poema de Carlos de Oliveira; pintura de Naofumi Maruyama: aurora)

Sempre diferentes, sempre iguais

Afinal o Homem já era um predador muito perigoso na idade do gelo! Segundo um artigo do National Geographics News, foram encontrados fósseis de cerca de 70 espécies diferentes de animais de grande porte, em grutas com 3 a 4 milhões de anos (descobertas em 2002), localizadas em Nullarbor Plain, Austrália.

Os cientistas chegaram à conclusão, pela análise dos ossos e dos dentes dos animais, que estes estavam muito bem adaptados ao clima e que não deveriam ter sido as alterações climáticas, como até agora se pensava, que tinham levado à extinção de muitas espécies, como o Thylacoleo (leão-marsupial), da família dos mamíferos marsupiais que habitaram a Austrália no Neogénico (de há 23 milhões a 30 mil anos), mas sim a acção do predador mais perigoso e insaciável – o Homem. Terão sido as caças desenfreadas e os incêndios provocados pelos humanos os causadores da extinção das espécies.

Podemos dizer que não evoluímos nada desde então!

(imagem de Thylacoleo e dos fósseis referidos)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...