Ouvem-se todos os dias várias pessoas a comentar a ingerência do Estado na vida privada, regulamentando tudo o que pode e se calhar muito do que não deve. No entanto, não ouço as mesmas pessoas insurgirem-se pelo facto dos cidadãos se desresponsabilizarem totalmente das suas opções e da escolha de prioridades na vida.Quando lemos várias notícias e reportagens acerca do sobreendividamento das famílias, só falta, no fim, a eterna expressão: o governo é que devia…
O apelo ao consumo, a publicidade enganosa, a relevância da aparência do que se tem, na sociedade ocidental actual, são estímulos constantes e absolutos que nos pressionam a querer mais, sempre mais, sem se saber exactamente o quê e para quê.
Achamos indispensáveis e cremos que são direitos absolutos o que nos aparece como essencial na televisão ou no vizinho do lado. As viagens de férias, os écrans de plasma, o cabeleireiro, a roupa da moda, os relógios a condizer, as remodelações e a decoração das casas, cíclicas e por estação, os telemóveis com fotos, vídeos e internet, os casamentos que custam milhares de euros, os corpos esbeltos, sem rugas, pêlos ou banhas, os trabalhos criativos, sem horários e bem pagos, enfim, tudo o que nos é apresentado como essencial à nossa felicidade e cuja falta nos mergulhará na mais absoluta tristeza e nos transformará nuns marginais pobres e suburbanos.
O acesso ao crédito pessoal é muitíssimo fácil e propagandeado. Mas não conheço nenhuma instituição de crédito, bancária ou outra, que venha a correr atrás dos cidadãos obrigando-os a subscrever um determinado montante e assumindo um compromisso económico durante vários meses, impedindo-os de fazer contas.
São os cidadãos que têm que saber quais são as suas prioridades e assumir a sua total responsabilidade. Antes de ir de férias às Caraíbas com a família inteira, pagando um maravilhoso pacote em suaves prestações, que se somarão às suaves prestações com que se comprou um confortabilíssimo sofá que até estava em promoção, que se somarão às menos suaves prestações do carros e da casa, talvez seja importante saber se é melhor ir às Caraíbas do que comer durante o resto do ano, se é mais importante sentar-se num sofá novo do que pagar os livros de estudo dos filhos, se é preferível prescindir dos transportes públicos ou de uma casa onde morar.
Sou absolutamente solidária com que está desempregado e não sabe como vai pagar compromissos que podia assumir enquanto tinha um ordenado ao fim do mês. Acho muito bem que se criem gabinetes de apoio a quem precisa de aprender a gerir as suas economias, parcas ou abundantes.
O que não posso aceitar é que essas pessoas se achem vítimas dos bancos, das publicidades, da globalização, do mundo, quando, na imensa maioria das vezes, são vítimas delas próprias, não percebendo que a opção está sempre e apenas na sua mão: comprar ou não comprar, eis a questão.
(desenho de Alain Gonçalves: atolados)





