05 outubro 2006

Agendas políticas

Não deixa de me surpreender (ou talvez não…) que alguns comentadores estejam a usar a proposta da reforma dos serviços de urgência para tecerem considerandos sobre a permanência de Correia de Campos no governo, ou sobre a confiança do PS, ou de algum PS, neste ministro.

As preocupações que expliquei no meu post anterior, relativamente ao facto de 1 milhão de pessoas ficar a mais de 45 minutos de uma urgência polivalente, tal como outros comentadores blogosféricos, não invalida a importância e urgência desta reforma.

Pedir implicitamente que Sócrates venha apoiar o seu ministro da Saúde é, para todos os efeitos, retirar-lhe peso político e, portanto, espaço de manobra. Parece que há uma agenda oculta que primeiro “trabalhou” para a demissão de Freitas do Amaral e agora, de uma forma sub-reptícia, pede a cabeça de Correia de Campos.

O ministério da Saúde, tal como o da Educação, são dos que mais necessitam de reformas, reformas essas que mais custos terão em termos sociais. Mudar de ministro sempre que há algo polémico e perturbador do status quo é uma cedência aos que pedem um espírito reformista ao governo, mas que se assustam imediatamente quando as mudanças se avizinham.

04 outubro 2006

Laranjas


Descasco uma laranja
voluptuosamente,
borrifando o rosto.

Separo os gomos
delicadamente,
mordendo deliciada
a película transparente.

Saboreio o sumo
e lambo os dedos
levemente pegajosos.

Aproximas-te,
guiado pelo odor,
meio intrigado

pela sua origem
e só percebes o engodo
quando te colo as mãos
com beijos molhados.

Amo-te.


(pintura de Kathrine Frances Milns: oranges)

A (des)localização das urgências


O estudo para a redefinição e reestruturação dos serviços de urgência está em debate público. Parece-me um passo indispensável na reforma do SNS.

Já tenho aqui dito e repetido que não há reforma de urgência que resulte se, em primeiro lugar, não forem reformados os cuidados primários, Centros de Saúde (CS) ou Unidades de Saúde Familiares (USF) ou seja, se o acesso dos doentes ao seu médico não for rápido e atempado e se não houver capacidade para satisfazer o mínimo de exames complementares de rotina sem recorrer ao Hospital.

A grande maioria das situações que levam os doentes às urgências hospitalares são situações que poderiam e deveriam ser resolvidas em consulta.

Por isso estou esperançada nas USF, por isso estou esperançada na reforma das urgências. A divisão entre Serviço de Urgência Básica (SUB), Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica (SUMC) e Serviço de Urgência Polivalente (SUP) parece-me lógica. A hierarquização do nível de cuidados médicos necessários e a concentração de meios técnicos e humanos em unidades de referência é uma forma acertada de especializar (desde que se caminhe para serviços especializados de urgência, com pessoal formado e remunerado para tal) e de rentabilizar os parcos recursos existentes.

Mas a notícia de que há cerca de 1 milhão de portugueses a mais de 45 minutos de um SUP é inaceitável.

Espera-se de um estado em que todos os cidadãos pagam impostos para assegurar determinados serviços, nomeadamente o serviço de saúde, que não haja portugueses de primeira – os que vivem junto a centros urbanos – e de segunda – o que vivem no interior desertificado. Mais de 45 minutos pode ser a diferença entre a vida e a morte. Mesmo que seja caríssimo, o estado tem que prover ao bem-estar da população.

Os peritos fizeram o seu papel: analisaram tecnicamente a situação e propuseram soluções técnicas. Do estado espera-se uma solução política, que tenha obviamente em conta o relatório e a recomendação dos peritos, mas que tenha em conta o seu papel equitativo e de garante da saúde de todos os cidadãos, sem distinção.

Por estado entende-se governo e autarquias. Em vez de desatarem aos gritos e a promover manifestações histéricas e demagógicas, devem, todos, sentar-se à mesa e procurar as melhores soluções.

Atrasar o fecho das urgências nessas zonas, investir em ambulâncias de emergência e em pessoal qualificado para acompanhar os doentes, em helicópteros, dotar os SUB e os SUMC dessas zonas de meios de consulta rápida on-line, enfim, posso lembrar-me de várias modalidades.

Mas é imprescindível que isso aconteça e que não se olhe esse milhão de pessoas como apenas 10% da população. E parece-me que até ao fim de Outubro é pouco tempo para discutir este problema.

Teimosamente continuo a acreditar que este governo é mesmo socialista. Este é um momento óptimo para o demonstrar.

01 outubro 2006

Quem tramou Zita Seabra?

Não percebi nada da trapalhada sobre a retirada do projecto-lei de Zita Seabra que defendia a suspensão e o fim dos julgamentos de mulheres acusadas do crime de aborto.

Primeiro não percebo o que é que uma notícia no jornal, por mais venenosa, conspirativa e de política baixa que seja, tem a ver com a desistência, por uma deputada, da apresentação de uma proposta de decreto-lei.

Depois não percebo porque é que quem não é favorável à despenalização do aborto não quer que as mulheres sejam acusadas e condenadas. Se o aborto é considerado um crime, tem que ser penalizado e quem o pratica acusado e condenado a cumprir a pena estabelecida por lei. Se todos estão de acordo que é chocante condenar em tribunal a penas de prisão mulheres que abortaram, então é porque é chocante considerar o aborto um crime.

E ainda não percebo como é possível Zita Seabra ser a protagonista deste episódio. Devo afirmar que não conheço em pormenor a posição de Zita Seabra sobre este assunto. Mas Zita Seabra foi durante anos e anos membro do PCP e deputada por esse partido às diversas assembleias. Que me lembre, a posição do PCP foi e tem sido sempre a favor da despenalização do aborto, defendendo uma alteração legislativa sem necessidade de recurso a referendo. Sabendo que o PCP é sempre unânime nas suas decisões, fala sempre no plural (mesmo na campanha para a Presidência da República falava sempre na “nossa candidatura”), sempre depreendi que Zita Seabra era a favor da despenalização do aborto.

Ter-me-ei enganado? Não devo ter percebido mesmo nada!

Peregrinação


Erramos pelo poema, peregrinos
em busca das palavras que se escapam
ao silêncio da voz aprisionada.

Erramos pelo mundo, penitentes
por pecados que nos dedos viajantes
nos embalam como luz enfeitiçada.

Queremos e corremos,
sem dor ou método, vivemos
do amor com que matamos e morremos.


Outro diálogo (com a Ana Luísa) - irrepetível e obrigatório!
(pellegrini)

Intervenção e cidadania

Estamos, de facto, perante encruzilhadas, nós todos como sociedade, cada um de nós como indivíduo, parte da mesma sociedade.

As mudanças que decorreram nas últimas décadas, após a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a chamada globalização, com o aumento do consumismo, a glória do mercado, o apelo aos valores do individualismo, competitividade, sucesso a todo o custo, concentração de capital, de serviços, de pessoas, levanta um vendaval de problemas que nos levam a desequilibrar as nossas próprias convicções.

A nova esquerda, a refundação da esquerda, os novos ideais socialistas, a intervenção e cidadania. Palavras e expressões grandiloquentes mas, muitas vezes, vazias de significado. Começa porque não sabemos qual é a noção de cidadania que cada um de nós aceita e, principalmente, pratica. Porque cidadania não é só escrever num blogue, ler jornais e dizer mal do governo à mesa de café, queixarmo-nos do aumento de impostos ou da morosidade da justiça.

Individualmente a cidadania também se exprime na noção de que a nossa atitude cívica é essencial para a coesão social. Ter do trabalho a noção de serviço público, do cumprimento das leis a noção de segurança e equilíbrio, do pagamento de impostos a noção de equidade, da distribuição dos recursos a noção de solidariedade.

A voragem das mudanças, a propaganda e a miragem do consumo têm tentado convencer-nos que a ordem económica e social têm prioridades inversas, que o bem estar e a realização individual são directamente proporcionais ao tamanho do carro, ao número de televisores e telemóveis, à efémera glória do espectáculo mediático.

Sinais de constrangimento e medo assolam a Europa. O envelhecimento populacional, a extrema pobreza numa grande parte do mundo, a imigração crescente e a falta de soluções para a integração dos imigrantes, o desemprego, o crescer dos fundamentalismos religiosos e o uso desses fundamentalismos com objectivos políticos e belicistas, assim como a capitulação perante os extremistas, podem levar-nos a descrer de valores que sempre considerámos universais, convictos que assim podemos travar o avanço para novas formas de totalitarismo.

Refundar, em cada um dos cidadãos, a ideia de pertença, a ideia de que cada pessoa é um elo indispensável à comunidade e a uma vida mais feliz, repensar a noção de cidadania no respeito pela sociedade – talvez seja essa a função mais importante da nova esquerda.

30 setembro 2006

Conversa outonal


Tempo de compotas
de castanhas e chuva.

Cheiro de mosto
de saudades e choro.


Tempo de sussurros
de arrepios e malgas.

Sabor de lágrimas
de amor e segredos.

Tempo de ventania
de mãos e sementes.

Som de tempestades
de corpos e lixo.

Tempo de permeio
de folhas e peregrinos.

Impressão de enganos
de ilusões e rodeio.


À conversa com Ana Luísa

(pintura de Raphael Collazo: friends and relatives)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...