30 setembro 2006

Os Laços


Mesmo que tudo me faltasse
nunca me faltaria o teu braço
que me apoiasse,
o teu corpo que me vestisse.

Mesmo que tudo me sobrasse
nunca me sobraria o teu espaço
onde poisasse
o resto da alma que resistisse.


(Pintura de Gustav Klimt: o beijo)

29 setembro 2006

O puro e o impuro

O primeiro som devora-o a noite, mas fica para sempre
- por ter sido a primeira das coisas comuns. Aquele
minuto, nunca o repetes. Vagamente o lembrarás mais tarde,
porque é frequente falar-se do mistério da vida. Já o esqueceste

muitas vezes choveu sobre ele e sobre nós, os relâmpagos
não bastam para que o mundo o mostre. Chamas-lhe revelação,
ao gesto que abre os braços, o primeiro olhar que se ama
lentamente, nele cabe o silêncio anterior, as coisas que estremecem

só de terem um nome, uma sombra, um modo de adormecer.
A partir daí, do primeiro som, tudo recomeça enquanto o dia
se não curva; repousando, agora, ela perfuma a vida. Haverá outra

maneira de descrever todas as coisas que nascem assim – mas
esta basta, é a mais simples. A mais amada das coisas cede
o seu lugar por esse minuto, esse som, o gesto que abre os braços.


(poema de Francisco José Viegas; escultura de Radu Aftenie: "Father with Child")

28 setembro 2006

Trapalhadas pouco saudáveis

Ninguém se entende sobre o preço dos medicamentos, uns dizem que desceu outros que subiu. O Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos anda MUUUIIITOOO preocupado com a falta de empenhamento ministerial nos genéricos. Parece que, finalmente, as farmácias vão poder funcionar em hospitais 24 em 24 horas. Aleluia, aleluia.

Por outro lado, as taxas moderadoras não são para moderar, são para utilizar, porque assim, como nos explicou um solícito deputado do PS, que até é médico, ele pode aconselhar a cirurgia mas quem decide ser operado… é o doente! Espantoso!

Ou seja, as trapalhadas são mais que muitas mas uma coisa já se percebeu: cada um de nós vai passar a pagar mais pela saúde.

É esse o modelo que o governo vai seguir? Aumentar os impostos indirectos para financiar o SNS?

Debate parlamentar

Não vi a totalidade da discussão da proposta de reforma da segurança social, no parlamento.

Do que vi realço:
  • a arrogância, agressividade e pouco respeito de Sócrates
  • a ignorância, falta de nível, idiotice, falta de preparação e pouco respeito dos deputados da oposição.

Ainda bem que não temos tempo de ver os debates parlamentares! A abstenção eleitoral poderia chegar aos 90%!

Idomeneo


O medo já domina a Europa livre e tolerante. O fanatismo religioso ganha terreno. Felizmente ainda há vozes que não se curvam.

27 setembro 2006

Divertidíssimo

Gostava imenso de ouvir António Carrapatoso e companheiros sobre esta notícia. Gostava de ouvir os comentários dinâmicos, empresariais, esclarecidos, enérgicos, eficazes, mercantis e globalizantes sobre o modo como o Fórum Económico Mundial (FEM) avalia as empresas e os empresários portugueses e a sua contribuição para a má imagem da economia portuguesa.

Aplaudo de pé: O grande contributo que o relatório de Davos pode dar é acabar com a conversa sobre o funcionamento das instituições públicas para começarmos a falar do verdadeiro problema do País, a falta de preparação de gestores e empresários. Só começando por enfrentar a realidade podemos iniciar as correcções. O Estado, afinal, é um falso problema.

25 setembro 2006

Decisões inadiáveis

Estudos sobre a sustentabilidade financeira da Segurança Social, do Serviço Nacional de Saúde, a Reforma da Função Pública, dossiers que todos os governos de todos os partidos evitaram até agora, vão sendo noticiados com mais ou menos pompa.

Estamos na era das decisões difíceis, estamos na época da moda neoliberal, estamos no tempo em que a ideologia se asfixia com o mercado.

Este é o momento deste governo socialista mostrar que são as ideias que comandam o mundo. O dinheiro é importante, não se pode distribuir o que se não tem, mas a forma como se destina e a quem se destina o dinheiro faz a diferença na política. É aos políticos que compete governar, foi para isso que foram eleitos.

Mas a tão falada sociedade civil deve controlar, apreciar, comentar, reivindicar. Os sindicatos têm cada vez mais um papel menos importante na defesa dos interesses dos trabalhadores, porque ainda não perceberam que se transformaram em associações de defesa de privilégios corporativos.

E os trabalhadores necessitam de representantes conscientes das mudanças ao longo destas últimas décadas, que reivindiquem o que é justo e possível, que defendam a qualidade, o mérito e o rigor.

Sou a favor das progressões por mérito, sou a favor das remunerações diferenciadas por desempenho, sou a favor da informatização dos serviços, da formação contínua de todos os profissionais, dos apoios sociais às famílias, às mulheres e aos homens que trabalham e têm filhos e pais e mães a seu cargo, aos solteiros e solteiras, às pessoas.

Não tenho medo que se reforme o que está mal, desorganizado, ineficiente, ineficaz e gastador. Mas as reformas têm que ter em vista os cidadãos, porque os serviços servem para os cidadãos, os impostos são para gastar com os cidadãos, para que vivam melhor, aprendam mais, sejam mais felizes.


Adenda: Já começaram a surgir associações “pró-vida”, de "famílias numerosas", de "biólogos pela natureza", de "médicos pela consciência" e outros que mais ainda surgirão contra a despenalização do aborto. Mas o Ministro da Saúde tem uma necessidade, quase diria patológica, de abrir a boca. Porque é que ele não está calado???

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...