16 junho 2006

Pois



Abri o descanso com uma chave ferrugenta. Tenho os ossos irritantemente pontiagudos a despontar da pele, que pede cama. Não sei se lhes faça a vontade.

Teimosamente limpo os vidros mas o nevoeiro mantém-nos baços. Notam-se bem as pontas dos dedos no bafo quente que lhes deito.

É melhor riscar do tempo estas nuvens.

Vou lambuzar-me com um livro que saiba a chocolate e reescrever o espectáculo da chuva. São gotas a menos e pedras a mais.



(Festival do chocolate, Óbidos, 2005)

"Homens no fio"


Ontem, depois de mais uma ida pouco satisfatória à FNAC do Colombo, consegui encontrar um exemplar (de dois) do livro “Homens no fio”, bem encafuado numa das prateleiras do fundo das enormes estantes da literatura portuguesa. Como é habitual, nenhuma outra obra do mesmo autor existia.


Peguei no livro e não parei de o ler até ao fim. De uma forma elegante e cheia de ternura, Luís Naves descreve uma (quase) tragédia de dois pescadores no mar dos Açores, ao largo de S. Miguel.

Com uma sobriedade e simplicidade exemplares, sofremos com os dois homens, um quase pai e outro quase filho, numa experiência limite de desespero, de fé e de destino. Dois homens vulgares, como vulgar e fruto do acaso são as armadilhas que se colocam entre nós e o infinito.

Com eles procuramos a luz, equilibramos o “Totobola”, bebemos água da chuva misturada com água do mar, tiritamos de frio e imaginamos na meia sonolência da fome, da sede e do medo, tubarões, barcos e amores.

É, ao mesmo tempo, um hino à vida. Gostei imenso. Parabéns ao autor.

15 junho 2006

Manipulação

Não percebo a vantagem desta manobra. O primeiro-ministro é tão rápido a propagandear as hipóteses de vitória, que deveria ser igualmente rápido a admitir a certeza da derrota.

O governo está à espera de um milagre? Faz fé na vitória de Portugal no mundial, para que se esqueça o desemprego crescente? Ou pensa que vai tudo de férias?

A descarada manipulação da informação é uma bofetada nos que ainda tentam acreditar na boa fé dos governantes.

Sem remorsos


Assaltei o João Gonçalves e, sem remorsos, roubei o Jorge Luis Borges…


He cometido el peor de los pecados
que un hombre puede cometer. No he sido
feliz. Que los glaciares del olvido
me arrastren y me pierdan, despiadados.

Mis padres me engendraron para el juego
arriesgado y hermoso de la vida,
para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida

no fue su joven voluntad. Mi mente
se aplicó a las simétricas porfias
del arte, que entreteje naderías.

Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado.


(pintura de Fernando Ureña Rib)

14 junho 2006

Para longe


Olho para longe desta ausência
de flores na mesa e nos cabelos,

Olho para longe do olhar,
para lá do mundo que quero fechar.

Pode ser o mar.



(pintura de Angela Rossen: turtles)

Deprimente

Não consigo deixar de me sentir revoltada com o fecho anunciado da fábrica da Opel da Azambuja. Bem sei que é o mercado e a globalização e tudo o que quiserem. Mas que não me parece moralmente correcto despedir 1500 trabalhadores que o ano passado eram considerados muito bons, muito produtivos, maravilhosos, enfim, não me parece.

O ministro da economia vem dizer que está tudo em aberto. Pois está, as portas bem abertas para todos saírem, o mais depressa possível, e transferirem tudo para Saragoça cujos trabalhadores, este ano, vão passar a ser, por sua vez, maravilhosos.

Ao menos alguma coisa mexe na educação. Espero que mexa ainda mais, na saúde também, na justiça, e em muitos outros sectores, que tanto precisam, que tanto precisamos de um pouco de esperança.

Mas o que se está a passar na Azambuja é deprimente. Triste e deprimente.

Lisboa à chuva


Lisboa molhada e aflita, sacode a água dos passeios e encharca as sandálias nas bermas das ruas.

Há pedras soltas nas calçadas. As pernas nuas das mulheres salpicadas de frio e o arrepio que encolhe os ombros, por baixo do guarda chuva de carteira e do gozo danado de quem olha.



(fotografia de Oscar Garcia Suarez: rain paints the streets)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...