06 junho 2006

Nós


Dobro o joelho lentamente
na volúpia de te tocar,
com a mão em concha
afago-te o ombro,
tacteio-te a discreta
rugosidade da pele.

Supérflua a roupa,
desajeitadamente retirada
com delicadeza e deleite.

Jogamos a ternura do enlace
desapertamos os beijos,
rolamos e atamos de nós
as pernas e os braços que temos.

Amanhã sonharemos.

(escultura de Edward Walsh: lovers)

Genética



Tudo o que escrevo
é a transcrição
de bases alinhadas lado a lado,
duma dupla hélice
de amor e carne
que se abre,
não sei por que ordem
ou por que código secreto,
para ser copiada
e replicada,
repetida e disciplinadamente
até que o infinito
dê por finda
a minha vida.

Seis do Seis de dois mil e Seis


Exactamente!

Se há dias de tudo e mais alguma coisa, o dia do Diabo, Besta, Satã, e todos os outros, por maioria de razão, está perfeitamente bem!

Belo dia para diabolicamente saborear o prazer satânico de preguiçar.


(pintura de William Blake: The Number of the Beast is 666)

Correntes

E que tal uma corrente de e-mails contra mais uma greve entre um feriado e o fim de semana? E que tal uma corrente de sms a favor da verdadeira discussão da verdadeira avaliação dos verdadeiros profissionais?

E que tal uma corrente de indignação pelos péssimos manuais escolares? E um cartaz gigantesco em frente à residência oficial do 1º ministro contra os currricula infantilizados e imbecis? E uma marcha contra a violência nas escolas? E uma marotana a favor dos exames nacionais?

Contemplação

Já estava preparada para me levantar, como é meu hábito e vício, maquinalmente rodar a chave da ignição e começar o dia.

Quando o bafo do ar se entranhou no meu corpo, as pedras da calçada levantaram-se e impediram passos inconscientes.

Luziu-me a espera e os dedos repousaram: descanso, preciso de contemplação.

Pontuação

Para quem lê, a pontuação funciona como sinais de trânsito, avisando paragens, respirações, perguntas e admirações, pausas, sorrisos ou suspensões. Serve a liberdade de quem escreve mas limita a liberdade de quem lê.

De certa forma, se a poesia for encarada como uma expressão ligeiramente anárquica do pensamento, que estimule a associação livre de palavras e ideias, a falta de pontuação pode perder o leitor, mas pode tatuar-lhe melhor o poema, visto que se cola à verdadeira medida da sua pele.

Interdependência

Dizem-me que o contraste entre a minha fúria e a minha quieta e contemplativa poesia é estranha. Penso muitas vezes que somos várias pessoas, umas dentro das outras, em camadas concêntricas, com canais comunicantes, vasos e nervos, para uma nutrição partilhada.

Por vezes há adormecimentos focais, raramente permanentes, comas superficiais e estados catatónicos.

Nem sempre é fácil conviver com esta comunidade de interdependências.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...