31 dezembro 2017

Dois mil e dezoito

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dois zero um oito


 


Com ou sem contabilidade final, acaba-se um ano e começa outro. Não cruzamos o tempo nem o tempo nos espera à entrada do primeiro segundo da primeira hora do primeiro dia do resto das nossas vidas.


 


Mas não deixamos de nos olhar como se alguma pele se destacasse e renascêssemos reluzentes, um brilho novo dentro das nossas habituais e usadas roupagens.


 


Que 2018 nos apeteça mais ainda que 2017.

30 dezembro 2017

O admirável mundo novo

(...) Assim, determina-se o seguinte:


1 — Os contratos a celebrar, para concessão de espaços destinados à exploração de bares, cafetarias e bufetes, pelas instituições do Ministério da Saúde, sejam da administração direta ou indireta do Estado ou os serviços e entidades públicas prestadoras de cuidados de saúde que integram o Serviço Nacional de Saúde (SNS), designadamente os agrupamentos de centros de saúde, os estabelecimentos hospitalares, independentemente da sua designação, e as unidades locais de saúde, não podem contemplar a venda, nem a publicidade, dos seguintes produtos:


a) Salgados, designadamente rissóis, croquetes, empadas, chamuças, pastéis de massa tenra, frigideiras, pastéis de bacalhau, folhados salgados e produtos afins;


b) Pastelaria, designadamente, bolos ou pastéis com massa folhada e/ou com creme e/ou cobertura, como palmiers, jesuítas, mil -folhas, bola de Berlim, donuts, folhados doces, croissants ou bolos tipo queque;


c) Pão com recheio doce, pão-de-leite com recheio doce ou croissant com recheio doce;


d) Charcutaria, designadamente sanduíches ou outros produtos que contenham chouriço, salsicha, chourição, mortadela, presunto ou bacon;


e) Sandes ou outros produtos que contenham ketchup, maionese ou mostarda;


f) Bolachas e biscoitos que contenham, por cada 100 g, um teor de lípidos superior a 20 g e/ou um teor de açúcares superior a 20 g, designadamente, bolachas tipo belgas, biscoitos de manteiga, bolachas com pepitas de chocolate, bolachas de chocolate, bolachas recheadas com creme, bolachas com cobertura;


g) Refrigerantes, designadamente as bebidas com cola, com extrato de chá, refrigerantes de fruta sem gás, refrigerantes de fruta com gás, águas aromatizadas, preparados de refrigerantes, refrescos em pó ou bebidas energéticas;


h) «Guloseimas», designadamente rebuçados, caramelos, pastilhas elásticas com açúcar, chupas ou gomas;


i) «Snacks» doces ou salgados, designadamente tiras de milho, batatas fritas, aperitivos e pipocas doces ou salgadas;


j) Sobremesas doces, designadamente mousse de chocolate, leite-creme ou arroz doce;


k) Barritas de cereais e monodoses de cereais de pequeno-almoço;


l) Refeições rápidas, designadamente hambúrgueres, cachorros quentes, pizas ou lasanhas;


m) Chocolates em embalagens superiores a 50 g e chocolates com recheio;


n) Bebidas com álcool;


o) Molhos designadamente ketchup, maionese ou mostarda.


2 — Os contratos referidos no número anterior devem contemplar a disponibilização obrigatória de água potável gratuita e de garrafas de água (entende -se como água mineral natural e água de nascente) e preferencialmente os seguintes alimentos:


a) Leite simples meio-gordo/magro;


b) Iogurtes meio-gordo/magro, preferencialmente sem adição de açúcar;


c) Queijos curados ou frescos e requeijão.


d) Sumos de fruta e/ou vegetais naturais, bebidas que contenham pelo menos 50 % de fruta e/ou hortícolas e monodoses de fruta;


e) Pão, preferencialmente de mistura com farinha integral e com menos de 1 g de sal por 100 g de pão;


f) Fruta fresca, preferencialmente da época, podendo ser apresentadas como salada de fruta fresca sem adição de açúcar;


g) Saladas;


h) Sopa de hortícolas e leguminosas;


i) Frutos oleaginosos ao natural, sem adição de sal ou açúcar;


j) Tisanas e infusões de ervas sem adição de açúcar.


3 — Ao pão, referido na alínea e) do número anterior, devem ser privilegiados os seguintes recheios: queijo meio-gordo/magro, fiambre com baixo teor de gordura e sal e de preferência de aves, carnes brancas cozidas, assadas ou grelhadas, atum (de preferência conservado em água) ou outros peixes de conserva com baixo teor de sal, ovo cozido; o pão deve ser preferencialmente acompanhado com produtos hortícolas, como por exemplo alface, tomate, cenoura ralada. (...)


 


Diário da República, 2.ª série — N.º 248 — 28 de dezembro de 2017


 


A remodelação do corpo pessoal e social, à distância de (mais) uma proibição.

29 dezembro 2017

Um pouco de promoção

Para quem estiver interessado, aqui fica o excerto do programa Agora Nós, da RTP1 (a partir dos 27 minutos), onde falei um pouco com o José Pedro Vasconcelos sobre o livro Prosas Bíblicas.


 


Agora Nós de 29 Dez 2017 - RTP Play - RTP


26 dezembro 2017

Amar pelos dois


Salvador Sobral & Luísa Sobral


 


 


Se um dia alguém, perguntar por mim


Diz que vivi para te amar


Antes de ti, só existi


Cansado e sem nada para dar


 


Meu bem, ouve as minhas preces


Peço que regresses, que me voltes a querer


Eu sei, que não se ama sozinho


Talvez devagarinho, possas voltar a aprender


 


Meu bem, ouve as minhas preces


Peço que regresses, que me voltes a querer


Eu sei, que não se ama sozinho


Talvez devagarinho, possas voltar a aprender


 


Se o teu coração não quiser ceder


Não sentir paixão, não quiser sofrer


Sem fazer planos do que virá depois


O meu coração, pode amar pelos dois

Ele é que não perdeu mais uma oportunidade...

... de fazer uma tristíssima figura.


 


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Costa "perdeu oportunidade" para mostrar que "ainda é capaz" de governar


 

Voluntários e voluntariado

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Proliferam as associações e agrupamentos de pessoas de muito boa vontade, que voluntariamente dão o seu tempo, o seu esforço e as suas competências às mais diversas causas, mas especialmente a ajudar o próximo, mais precisamente aquele próximo a quem dava muito mais jeito um emprego do que o cabaz de Natal, a comida e os embrulhos de brinquedos e roupas.


 


Proliferam as empresas que pedem aos seus empregados para, voluntariamente, prescindirem dos seus dias de descanso para angariarem mais clientes, oferecendo serviços a custo zero, à custa de horas de trabalho sem remuneração.


 


Crescem as avaliações que não prescindem da explicitação do trabalho comunitário e voluntário de quem se candidata a qualquer tipo de emprego, mesmo que as acções não tenham sido mais que as estritamente necessárias para enfeitar o currículo.


 


Publicitam-se abundantemente os voluntariados e os voluntários nas televisões, nas rádios, nas redes sociais, para nos lambuzarmos de bondade, por darmos tanto de nós a tanta gente, de quem esperamos gratidão, fidelidade, consumismo, ou mesmo adoração.


 


Nada tenho contra a gentileza e o sentido de solidariedade seja de quem for, muito pelo contrário. Mas não estaremos nós a substituir empregos por trabalho não remunerado? É que para haver voluntários a dar aulas, ou a pintar escolas há professores e pintores que não têm trabalho. Além de que há muitas tarefas e apoios que são veiculados através do voluntariado e que deveriam ser obrigação do nosso Estado e da nossa sociedade.


 


Por outro lado desconfio sempre que a maior parte dos voluntários o são à força, ou então apenas desejam auto-promoção, à custa dos mais vulneráveis. A constante exploração dos sentimentos e da boa-fé, tal como a mercantilização do bem fazer, é tudo menos partilha e solidariedade. Pelo menos para mim.

Back to business


 


Adenda: hoje foi mais em modo caranguejo...


 


Das demonstrações banalizadas

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Expresso


 


Tanta palavra, tanto abraço, tanto afecto, tanto amor, tanto mel, tanto amasso, tanto sorriso, tanta lágrima. Tudo se banaliza, até o que de mais íntimo e genuíno temos. E tudo acaba por perder significado e importância.


 


O Presidente da República transformou-se no fiel da balança dos afectos e dos compromissos – tudo o resto se lhe compara, o tom, os olhares, a voz, a compaixão – ele é sempre o melhor e é com ele que todos se têm de medir.


 


Depois de uma irrelevância de Presidência protagonizada por Cavaco Silva, pelo azedume, pela escassez de empatia, pela arrogância e pelas intervenções rancorosas, Marcelo arrisca-se a desfazer aquilo que o transformou num excelente Presidente, pelo constante transbordar de discursos, comentários, aparições e avaliações. É, de facto, uma pena e um desperdício.

25 dezembro 2017

Reinventando a tradição...

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 ... que, como todos sabemos, já não é o que era.


 


A manhã passou-se a arrumar a desarrumação da véspera e a preparar o almoço. Resolvi aproveitar as sobras das couves, das batatinhas pequeninas e novas e do grão cozidos para fazer sopa, que será o meu alimento para os próximos dias, recuperando lentamente das calorias ingeridas.


 


Para esquecer as pernas de peru que costumam assombrar os nossos natais, o Pai Natal cá de casa investiu numa massada de tamboril com camarão, berbigão e vieiras, muito saudável, com muito tomate, pimentos, cebola, alho e salsa, "tudo em cru" (expressão assumidamente disparatada que muito se usa). Estava muito bom!


 


Respiremos, portanto, e deixemos que a preguiça nos restaure as forças. Para o ano há mais!

Das maravilhosas prendas de Natal

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O melhor das prendas de Natal são as horas de cumplicidade e aconchego que passaremos a ver as séries, bem doseadas, e a descobrir histórias e autores novos (pelo menos para mim).

24 dezembro 2017

Somebody to love


 


Can anybody find me somebody to love?


Each morning I get up I die a little


Can barely stand on my feet


Take a look in the mirror and cry


Lord what you're doing to me


I have spent all my years in believing you


But I just can't get no relief, Lord!


Somebody, somebody


Can anybody find me somebody to love?


 


I work hard every day of my life


I work till I ache my bones


At the end I take home my hard earned pay all on my own –


I get down on my knees


And I start to pray


Till the tears run down from my eyes


Lord - somebody – somebody


Can anybody find me - somebody to love?


 


(He works hard)


 


Everyday - I try and I try and I try –


But everybody wants to put me down


They say I'm goin' crazy


They say I got a lot of water in my brain


Got no common sense


I got nobody left to believe


Yeah - yeah yeah yeah


 


Oh Lord


Somebody – somebody


Can anybody find me somebody to love?


 


Got no feel, I got no rhythm


I just keep losing my beat


I'm ok, I'm alright


Ain't gonna face no defeat


I just gotta get out of this prison cell


Someday I'm gonna be free, Lord!


 


Find me somebody to love


Can anybody find me somebody to love?

Dos desejos de Festas Felizes

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Quase a iniciar as hostilidades natalícias, pois de uma guerra se trata entre nós e o bacalhau, as couves e o grão, a massa de aletria e respectivos ovos, as ditas rabanadas com o seu caldo, enfim, e tudo o resto que entretanto irá acompanhar - gente, conversa, confusão, barulho, bem-estar e harmonia - carrego as baterias calmamente aconchegada numa manta.


 


Já os laços estão atados e o silêncio conforta. Foi um ano difícil, em carrossel permanente, com o país político cheio de casos e golpes baixos, de que o último é a perseguição a Vieira da Silva, de má gestão mediática e erros por parte da Geringonça, total ausência de oposição a sério, omnipresença do Presidente da República que há-de tropeçar na própria hiperactividade e hiperverborreia. Os cidadãos encolhem os ombros e suspiram de medo, de tristeza, de impotência, e gritam de alegria, de alívio, de orgulho e de esperança.


 


O próximo ano desenha-se trabalhoso mas promissor. Acredite-se ou não na Divina Providência, o carinho e o mimo que damos e recebemos faz de nós gente mais completa, inteira e solidária. Que todos possamos assim crescer.

23 dezembro 2017

Dos atrasadíssimos inícios das festividades natalícias

Mesmo quase em cima dos acontecimentos afadigo-me nos preparativos da época natalícia. Este ano, ainda por cima, tenho o compromisso de preparar iguarias saudáveis e hipocalóricas que, como bem sabemos, são a negação da volúpia e do prazer da degustação gastronómica, e o contrário do espírito peganhento e decadente do Natal.


 


Mas nada me faz desistir. Sendo assim, aproveitando uma cabazada de abacates que amavelmente me ofereceram, com o recado de que era isso que poderia comer por estes dias, com o compromisso de abater as calorias em fartos e penosos treinos pós pantagruélicas refeições (sem açúcar, sem farinha, sem frituras, etc., coisas a que será deveras difícil obedecer), rumei a destinos desconhecidos no que diz respeito à confecção de compotas.


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Inventei uma. Pela cara de um dos habitantes cá de casa não terá sido um êxito retumbante, mas come-se.


 


Cortam-se as passas aos bocadinhos para dentro de um tacho; a seguir junta-se a raspa de 2 limas; depois cortam-se os abacates ao meio (cerca de 8), retiram-se os caroços e, com uma colher, a polpa que se desfaz à garfada, regando com o sumo das 2 limas, aos poucos; faz-se o mesmo com 3 bananas e põe-se tudo ao lume. Misturam-se umas colheradas de mel (no meu caso 3), a gosto, e deixa-se cozinhar, pelo menos uns 45 minutos, mexendo sempre. No fim reduz-se a puré com a varinha mágica.


 


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Ideal para comer com iogurte (daqueles sem açúcar, sem gordura, sem sabor, enfim), flocos de aveia integrais e sementes de sésamo.


 


O licor de folha de figueira é a parte herdada da vida de deboche gastronómico, feito com a verdadeira aguardente, as folhas de figueira e açúcar. Maravilhoso.


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Amanhã será a vez do ritual do bacalhau, da aletria, das rabanadas, do Natal com gente, conversa e tradição. Tudo é já tradicional, desde o pequeno almoço saboreado na cama, a bonança antes da tempestade, à azáfama de uma tarde passada na cozinha e à noite entre a família e os amigos.


 


Que todos possam passar um excelente Natal.

Prosas Bíblicas - Porto e Setúbal

Muitas emoções e muito trabalho. Assim me justifico pelo tempo arredada do blogue.


 


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As apresentações do livro no Porto e em Setúbal foram momentos que guardarei com orgulho e carinho. Orgulho por aqueles que me acompanharam, nomeadamente o Prof. Sobrinho Simões, o Manuel de Oliveira, a Maria Celeste Pereira, o Fernando Pinto do Amaral e o José Teófilo Duarte. Carinho pela simpatia com que nos acolheram, na Casa Allen e no Café da Casa (da Avenida), e por todos os que quiseram estar presentes. Muito obrigada a todos.


 


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Casa Allen, Porto, 14 de Dezembro de 2017


 


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 Casa Allen, Porto, 14 de Dezembro de 2017


 


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Café da Casa, Setúbal, 16 de Dezembro de 2017


 


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 Café da Casa, Setúbal, 16 de Dezembro de 2017


 

12 dezembro 2017

Prosas Bíblicas - Porto e Setúbal

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Apresentação na 5ª feira, 14 de Dezembro/2017 – 19:00h


Casa Allen - Rua António Cardoso, n.º 175, 4150-081 Porto


com


Manuel Sobrinho Simões


Manuel de Oliveira


Maria Celeste Pereira


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Apresentação no Sábado, 16 de Dezembro/2017 – 17:00h


Caféda Casa / Casa da Avenida Galeria


Avenida Luísa Todi, 286-296 Setúbal


com


Fernando Pinto do Amaral


Paulo Curto


José Teófilo Duarte


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06 dezembro 2017

Um louco na Casa Branca

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Reuters / Jonathan Ernst


 


É difícil imaginar que alguém possa ser eleito para um cargo com o poder e a importância da Presidência dos Estados Unidos da América sem um mínimo de bom-senso, de conhecimento histórico e de razoabilidade, sem se rodear de gente competente e cautelosa, gente que pense e se importe com um pouco mais do mundo do que aquele que corresponde ao espaço vital que ocupa.


 


Mas aconteceu, e continuará a acontecer. Donald Trump vai ultrapassando todos o limites que julgávamos intransponíveis. O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel é uma decisão com consequências imprevisíveis.


 


Há um louco perigoso à solta na Casa Branca.

05 dezembro 2017

Um dia como os outros (180)

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(...) Mas foi o candeia nacional Marques Mendes que nos iluminou. Centeno no Eurogrupo? "Mentira de 1.º de Abril... Campanha de autopromoção... É o seu ego... A sua vaidade... Está deslumbrado... Inchado... Muito inchado... Não há uma única alma lá fora que fale de Centeno... É um bocadinho ridículo uma pessoa assim a oferecer-se..." Ontem, Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo. O que vai fazer amanhã? Não sei. Mas ontem soube o significado do sorriso parvo: esteve sempre a rir-se dos pedaços de asno.


 


Ferreira Fernandes

02 dezembro 2017

Prosas Bíblicas - Livro 3

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(…) Uma lição que transforma o amor nessa misteriosa espécie de “cola” ou de “barro” capaz de ligar os pedaços sempre dispersos das nossas vidas tão fragmentadas, procurando unir na mesma substância indivisível o corpo e a alma ou, se preferirem, o humano e o divino: “Da cola do amor remendamos os cacos das vidas / Do barro do amor colamos as peças removidas / De nuvens de amor sopramos as faces ressequidas / Do canto do amor lambemos as crostas das feridas // Presos e atados por amor a tantos fios invisíveis / Amparados pelo amor que sem saber semearemos / Em cada canto do amor assim nos confiaremos / No tumulto do amor morreremos indivisíveis”


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


16.


Da cola do amor remendamos os cacos das vidas


Do barro do amor colamos as peças removidas


De nuvens de amor sopramos as faces ressequidas


Do canto do amor lambemos as crostas das feridas


 


Presos e atados por amor a tantos fios invisíveis


Amparados pelo amor que sem saber semearemos


Em cada canto do amor assim nos confiaremos


No tumulto do amor morreremos indivisíveis


 


Livro 3 (pág. 78)

Prosas Bíblicas - Livro 3

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(…) mas o que daqui ressalta é, acima de tudo, a consciência muito clara de que, por mais belas que sejam tais palavras, por mais harmoniosa que seja a sua música, por mais que o “todo” seja “eloquente”, há sempre uma dimensão que elas não atingem. Como se diz no último poema: “Que o amor não se ouve nem se canta / Apenas se sente”. (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


20.


A todos os que me querem e me ouvem


Assim farás de ovo e serpente


Que o amor não se ouve nem se canta


Apenas se sente


 


A todos os que serão sem que o sejam


À espera da luz que não se acende


Assim abrirás o manto da vida


Para todo o sempre


 


Livro 3 (pág. 82)

Prosas Bíblicas - Livro 3

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(…) A matéria-prima desse infinito labor continuam a ser as palavras – “Com palavras amareis um pouco ou totalmente / Pelas palavras o nada será o todo eloquente” – , (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


9.


Escavareis a terra com as mãos da solidão


Cantareis a alma com a voz da paixão


Usareis o alento do corpo sem salvação


Expiareis com a vida o peso da ambição


 


Pelas palavras semeareis o fruto e a semente


Nas palavras sofrereis a pomba ou a serpente


Com palavras amareis um pouco ou totalmente


Pelas palavras o nada será o todo eloquente


 


Livro 3 (pág. 71)

Prosas Bíblicas - Livro 2

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(…) Digamos que na segunda parte ecoa uma atitude mais pessoal, talvez mais próxima dos pequenos dramas de cada um de nós, mais interrogativa perante as escolhas a que, melhor ou pior, a vida sempre nos obriga: “E agora que faço comigo matéria informe que se criou / e por céus e terras em paixões secretas alastrou / de ti desabrigada por ti desmanchada em ti / teimosamente escondida?” (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


8.


Nasceram-me braços e pernas cresceram-me bocas e línguas


fundiram-se sangue e saliva cozeram-se peles e dias.


E agora que faço comigo matéria informe que se criou


e por céus e terras em paixões secretas alastrou


de ti desabrigada por ti desmanchada em ti


teimosamente escondida?


 


Livro 2 (pág. 56)

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Aqui, os sentimentos são também razões e vice-versa, numa fusão mediante a qual todas as fronteiras conceptuais parecem esbater-se, num mecanismo cujo efeito pode ser, de certo modo, libertador, mas permanece ciente da humildade humana perante uma outra dimensão (chamemos-lhe divina) que radica no humano mas se situa infinitamente para lá do humano: “Ao longe está a candeia / As flores que sempre sonhei / Desejo que me incendeia / Palavras que eu criei // As grades estão quebradas / O dia escureceu / Tenho mil e uma estradas / Nenhuma que chegue ao céu”. (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


12.


Sequei a água do mar


Abri as portas que encerra


O mundo a transbordar


Das incertezas da terra


 


Ao longe está a candeia


As flores que sempre sonhei


Desejo que me incendeia


Palavras que eu criei


 


As grades estão quebradas


O dia escureceu


Tenho mil e uma estradas


Nenhuma que chegue ao céu


 


Livro 1 (pág. 26)

01 dezembro 2017

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Não vale a pena, portanto, conceber categorias rígidas ou sistemáticas para um conhecimento cuja amplitude é essencialmente holística e só pode funcionar como um todo, no qual não conseguimos separar a razão e o coração: “Senhor Deus falta-me o ar / Nesta Babel de emoções / Sem conseguir separar / Sentimentos de razões”. (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


20.


Senhor Deus falta-me o ar


Nesta Babel de emoções


Sem conseguir separar


Sentimentos de razões


 


Os dardos que te roubei


São ramos envenenados


Palavras com que matei


Cordeiros sacrificados


 


As portas estão fechadas


Os lacraus fazem a guarda


Milhões de línguas caladas


Descanso que ainda tarda


 


Fujo de ti meu Senhor


Sem sequer olhar em frente


Nos braços do teu andor


Passeia o medo da gente


 


Livro 1 (pág. 34)

Elixir da alma


Manuel de Oliveira

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) É dessa matéria terrestre, corporal, palpável, que temos sempre de partir para encetar outros voos, o que implica que, tal como na Bíblia, a linguagem aqui veiculada é eminentemente simbólica, fazendo apelo a uma dimensão metafórica latente em todas as palavras que proferimos, cujo alcance acaba por ser bem mais amplo do que seria o seu significado literal: “Suspendo a luz que semeia / A ânsia do teu perfume / Palavra que incendeia / O feno do meu ciúme // Recebe-me em fogo lento / Os beijos que te confortam / Desfaz-te do desalento / Das cordas que te sufocam”. (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


4.


Suspendo a luz que semeia


A ânsia do teu perfume


Palavra que incendeia


O feno do meu ciúme


 


Recebe-me em fogo lento


Os beijos que te confortam


Desfaz-te do desalento


Das cordas que te sufocam


 


Se ainda sentes na sombra


O manto da descoberta


Esquece o medo que assombra


O sonho que te liberta


 


Livro 1 (pág. 18)

Voar


 Xutos e Pontapés


 


Eu queria ser astronauta


o meu país não deixou


Depois quis ir jogar á bola


a minha mãe não deixou


Tive vontade de voltar a escola


mas o doutor não deixou


Fechei os olhos e tentei dormir


aquela dor não deixou.


 


Ó meu anjo da guarda


faz-me voltar a sonhar


faz-me ser astronauta ...e voar


 


O meu quarto é o meu mundo


o ecrã é a janela


Não choro em frente á minha mãe


eu que gosto tanto dela


Mas esta dor não quer desaparecer


vai-me levar com ela


 


Ó meu anjo da guarda


faz-me voltar a sonhar


faz-me ser astronauta....e voar


 


Acordar meter os pés no chão


Levantar e dar o que tens para dar


Voltar a rir, voltar a andar


Voltar Voltar


Voltarei


Voltarei


Voltarei


Voltarei

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Leiamos, então, as Prosas Bíblicas de Maria Sofia Magalhães, organizadas em três “livros”, dos quais o primeiro ocupa cerca de metade do conjunto e avulta como aquele em que sentimos mais intensamente a carga misteriosa que o ilumina. Quando digo “carga misteriosa”, uso o adjectivo sem uma conotação demasiado espiritual, já que, embora estes poemas mostrem um inegável pendor místico desde a abertura – “Senhor Deus a fome é tua / Que alimento sem querer / Raiva fria alma crua / Corpo em vida a perecer” –, as imagens que neles encontramos descem muitas vezes à nossa natureza de seres humanos, i.e., seres terrestres na sua materialidade. (…) 


O HUMANO E O DIVINO - Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


1.


Senhor Deus a fome é tua


Que alimento sem querer


Raiva fria alma crua


Corpo em vida a perecer


 


Senhor Deus a tua sede


Banha ombros a quem sente


Penitência de quem pede


Incerteza de quem mente


 


Senhor Deus não tenho rumo


Com a tua direção


Numa prece te consumo


Sem te dar o meu perdão


 


Livro 1 (pág. 15)

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...