No intervalo destes últimos 40 anos, o mundo mudou radicalmente. O desenvolvimento tecnológico exponencial permitiu maior longevidade e qualidade de vida, nos países a que se convencionou chamar desenvolvidos, maior riqueza e bem-estar, melhor e mais rápida divulgação com as novas tecnologias de informação.
Politicamente a queda do muro de Berlim, o ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque, a consolidação e alargamento da União Europeia, o despertar dos países da América do Sul, o crescimento da China e da Índia, os fenómenos de migração populacional, entre muitos outros, modificaram os equilíbrios existentes a um ritmo crescente, transformando o mundo numa massa globalizada, que cria riqueza mas que a concentra em cada vez menores núcleos de indivíduos, aumentando o fosso entre os que mais podem e os que nada podem.
Percebemos hoje que não tem havido capacidade, imaginação nem vontade de lidar com os novos problemas que se avolumam – as alterações demográficas, o reacender dos ódios (xenofobia e racismo), as alterações climatéricas, a gestão dos recursos naturais. Em Portugal e na Europa assiste-se a um cada vez maior divórcio entre os governantes, os líderes dos partidos e os representantes das diversas associações sociais (sindicatos, confederações patronais, industriais, etc) e a restante população, aumentando a descrença neste regime democrático em que esses mesmos governantes, líderes e representantes são, por definição, eleitos livremente.1
A total subversão do papel da comunicação e da informação, fruto da revolução informática, transformou a vida, os direitos, as liberdades e o conceito de justiça numa paródia, assistindo-se à construção e destruição de carácter e de factos, mais falsos que verdadeiros, numa roda-viva dentada que tritura pessoas, instituições, conceitos. A manipulação das vontades e dos sentimentos globais movem as multidões e aqueles que deveriam ser os dirigentes deixam-se dirigir pelas ondas de protesto, indignação, fúria ou júbilo que todos os dias assolam a sociedade.
Estas organizações políticas não conseguem mobilizar os cidadãos, que deixaram de acreditar no que lhes é dito e repetido. A vida vai correndo à parte do que é cozinhado nas cadeiras dos diversos poderes e a raiva surda com o encolher de ombros vai sendo a atitude de quem quer manter a mínima sanidade mental. É confrangedor ouvir as frases gastas, os clichés, as palavras de ordem de governo, oposição, comentadores, economistas, sindicalistas e outros membros que gravitam na órbita desta elite, sem centelha, sem ideias, sem glória.
Ao contrário de tanta coisa que se modificou nos últimos 40 anos, nada se quer mudar nesta organização política formal, porque já é só formalidade e alimentação de interesses de poder, sem que importe a sociedade, o seu respirar, o seu viver, a sua felicidade. A riqueza e o poder deixaram de ser meios para serem fins, e o governo da nação deixou de se preocupar com a própria nação para se preocupar com os que a governam, num mundo ficcional e desligado da realidade.
Por isso é cada vez mais provável a queda do regime democrático. Ninguém acredita nele. Continuamos neste romance de faz-de-conta até que, provavelmente tarde de mais, outro regime ditatorial tome conta de nós. É que eu não conheço mais nenhum tipo de regime – democracia e ditadura podem ter várias práticas e vários nomes, mas são apenas essas as alternativas - democracia ou ditadura. E a avaliar pelo que se passa nesta Europa, o primeiro arrisca-se a ser trocado por um mais moderno, mais chique e mais na moda.
1 A última manifestação convocada pela CGTP parecia uma procissão, com andor e ladainhas e menos fulgor que as rezas de um velório.
COMENTÁRIO AO POST "Da queda do regime democrático"
ResponderEliminar00- O post, bem ancorado em diversos links, faz uma leitura judiciosa da atual situação política, que repousa numa enorme crise do Regime Democrático.
01- Temos a perversão da manipulação.
02- Temos a perversão do populismo.
03- Temos a perversão da mistificação da realidade.
04- Temos a perversão do abandono da ética republicana.
05- Temos a perversão de um PR que perdeu a isenção e tomou as dores de uma Parte, do atual Governo.
06- Temos a perversão de uma governação cobrido o “Senso Comum” acrítico.
07- Temos a perversão do voluntarismo, omitindo as regras objetivas residentes nos processos.
08- Temos a perversão dos diversos intervenientes organizados omitirem uma Estratégia que responda às novas necessidades das populações, decorrentes das enormes mutações operadas na última década.
09- Temos a perversão de um Governo e de um Comunicação Social desrespeitando o preceituado nas “Liberdades, Direitos e Garantias, Individuais”.
10- Temos a perversão de persistirem, sem crítica, diversas práticas radicadas na Doutrina Corporativa.
11- Temos a perversão de ser desbaratada a correta hierarquização das coisas.
12- Temos a perversão de toda a governação conduzir a uma deterioração do rácio “Trabalho” / “Capital”.
13- Temos a perversão de todo o legislado pelo atual Governo engendrar um agravamento da “Distribuição de Rendimento”.
14- Temos a perversão do atual Governo privilegiar a debilidade dos elos fracos, os idosos, os doentes e os desempregados.
15- Temos a perversão da ousadia do atual Governo em desrespeitar a Constituição, saída do “25 de Abril”.
16- Temos a perversão de ser menosprezado por todos os intervenientes, o conceito e as consequências do “Excedentes Gerados na Atividade Económica”.
O governo atual persiste no Empobrecimento, o Empobrecimento dos Trabalhadores, o Empobrecimento do País, na delapidação do acervo do Conhecimento Científico, penosamente construído em quarenta anos.
Democracia ou Ditadura, refere a Autora do post.
Na convicção, que se sente, de que ainda haverá forças para ser preservada a DEMOCRACIA.
Bom Fim de Tarde de Sábado.
Bom Domingo.
Cordiais, Amistosas e Afáveis Saudações
ACÁCIO LIMA
Assino por baixo a análise... Receio que a consequência seja,no MELHOR,o renascer das fronteiras,pelo menos por "ilhas"(a globalização só favoreceu os especuladores de vários carizes,e deu umas "migalhas"culturais e sociológicas...);e,no PIOR,um regresso a uma espécie de Idade-Média...à talibã de extracção ocidental...
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