28 fevereiro 2010

Glück das mir verblieb

 



Die tote Stadt - Glück das mir verblieb


Erich Wolfgang Korngold & Julius Korngold


Anne Sofie von Otter


 


 









Glück, das mir verblieb, // Joy, that near to me remains,

rück zu mir, mein treues Lieb. // Come to me, my true love.

Abend sinkt im Hag // Night sinks into the grove

bist mir Licht und Tag. // You are my light and day.

Bange pochet Herz an Herz // Anxiously beats heart on heart

Hoffnung schwingt sich himmelwärts. // Hope itself soars heavenward.



Wie wahr, ein traurig Lied. // How true, a sad song.

Das Lied vom treuen Lieb, // The song of true love,

das sterben muss. // that must die.



Ich kenne das Lied. // I know the song.

Ich hört es oft in jungen, // I heard it often in younger,

in schöneren Tagen. // in better days.

Es hat noch eine Strophe-- // It has yet another verse--

weiß ich sie noch? // Do I know it still?



Naht auch Sorge trüb, // Though sorrow becomes dark,

rück zu mir, mein treues Lieb. // Come to me, my true love.

Neig dein blaß Gesicht // Lean (to me) your pale face

Sterben trennt uns nicht. // Death will not separate us.

Mußt du einmal von mir gehn, // If you must leave me one day,

glaub, es gibt ein Auferstehn. // Believe, there is an afterlife.



Tradução de Lisa Lockhart





Contradições

 


A tragédia na Madeira deve ser tratada como tal, e o governo deve prestar toda a ajuda e colaboração que puder a essa região de Portugal.


 


Mas como muito bem disse Teixeira dos Santos, não se deve misturar isso com o problema da Lei das Finanças Regionais. Tal como não se deve deixar de apurar eventuais responsabilidades por erros cometidos reiteradamente, lá como em muitíssimos mais lugares de Portugal, e que pioraram as consequências das intempéries, nomeadamente na Madeira.


 

Revolta

 


Revolta-se a terra como o corpo

pesado pela força das marés.

Revolta-se o mundo como o sonho

pisado pelo corpo que se nega.

Revolta-se o corpo como a terra

tremores de tempo empedrado

sem rumo sem azul sem espadas

por algas de silêncio amolgado.

Orquestra de vegetais

 



The Vegetable Orchestra


 

Chile

 



 


A terra não pára de tremer. Primeiro Haiti, agora Chile. Que pequenos e dispensáveis somos todos perante a fúria dos elementos.


 


Actualização (18h20): Número de mortos do sismo do Chile sobe para 400.


 

Ciclo político

 





 


Este ciclo político tem variantes que podem ser decisivas para o seu desfecho.


 


O Orçamento de Estado de 2010 (OE 2010) foi aprovado na generalidade e será aprovado na especialidade, assumindo o governo e a Assembleia da República o compromisso de viabilizar o governo com este orçamento. Mas há uma disputa interna para a liderança do PSD e já se sabe que, pelo menos Pedro Passos Coelho não se sente obrigado a aceitar o compromisso do seu próprio partido, enquanto liderado por Manuela Ferreira Leite.


 


Estará para aprovar e entregar em Bruxelas o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) que, da mesma forma que o OE 2010 terá que ser assumido pelos actores políticos desta legislatura. Será que após o Congresso e eleições para a liderança do PSD o novo líder se comprometerá a cumpri-lo?


 


Mesmo após a decisão da liderança do PSD não é provável que qualquer dos líderes (Aguiar-Branco, Paulo Rangel ou Passos Coelho) tenha hipóteses de ganhar umas eleições antecipadas, pois poderá continuar a luta interna pelo poder no PSD, aliás como tem acontecido até agora. Ou seja, mesmo com toda esta campanha anti-Sócrates, se houver eleições antecipadas o quadro parlamentar poderá ser idêntico.


 


Já existe um candidato presidencial assumido – Fernando Nobre - um quase candidato – Manuel Alegre - e um provável candidato – Cavaco Silva. O aparecimento de Fernando Nobre pode baralhar as contas à esquerda mas também à direita. Ao contrário do que muitos defendem, penso que Fernando Nobre pode dividir os votos da esquerda, mas também pode retirar votos a possíveis eleitores de Cavaco Silva. Não sabemos ainda se Cavaco Silva avança ou se haverá outro candidato de direita, nomeadamente Marcelo Rebelo de Sousa.


 


Se o Presidente mudar, para Manuel Alegre ou para Fernando Nobre, será que vai haver maior estabilidade e melhor cooperação institucional entre governo e Presidente? Pela actuação de Manuel Alegre nos últimos anos é pouco provável que assim seja. Até por isso acho um erro o PS apoiar como partido a candidatura presidencial de Manuel Alegre. Se não encontra um candidato alternativo, nomeadamente se não se revê em Fernando Nobre, deveria dar liberdade de voto aos seus militantes. Seria mais transparente e mais honesto.


 


Resumindo: o governo do país, com o OE 2010 e com o PEC deverão ser aprovados como um compromisso dos maiores partidos – o tal Bloco Central de que tanto tenho desdenhado e vilipendiado – independentemente de haver ou não eleições antecipadas, antes das presidenciais. Por isso mesmo é bom que o PSD e o Presidente da República, que tanto falam dos interesses nacionais, pensem bem antes de precipitar uma crise política, cujas consequências poderão ser bem desagradáveis para todos nós.






 

Pedra a pedra, o poeta constrói o poema (2)

 



Pedro Teixeira Neves; René Magritte


 


alguns afastamentos entre pedras, poemas e poetas:


 


Uma pedra não surge do nada, os poemas costumam surgir.

As pedras não amadurecem, os poemas e os poetas sim. E devem.

Uma pedra não finge, o poeta, como é sabido, é um fingidor.

As pedras podem não querer dizer nada, os poetas pretendem muitas vezes ensaiar dizer tudo.

As pedras sabem esperar, os poetas são impacientes.

É provável que as pedras perdurem para sempre, é provável que os poemas não.

Tentar ler uma pedra pode ser uma perda de tempo, tentar ler um poema nunca o é.

As pedras em si mesmas não são conflituosas, alguns poetas são-no.

As pedras não tem identidade, a poesia sim.

As pedras não respiram, a boa poesia respira.

As pedras preciosas são raras, os grandes poetas muito mais raros são.

Uma pedra ocupa sempre um lugar, a poesia pode não ocupar e, sim, como dizia o poeta, é sempre uma coisa muito bonita.

Uma pedra não sofre, há poemas sofridos, tal como sofríveis.

Há, na realidade, poetas que parece não terem ultrapassado a idade da pedra.

Uma pedra pode ser inútil, um poema é sempre útil.

Uma pedra pode matar, a poesia raramente mata, a não ser que transborde de emoções ou se arme em reaccionária.

Houve uma idade da pedra, não sei se existiu, existe ou existirá uma idade da poesia. Se calhar todas as idades são idades da poesia.

Às vezes o Homem parece não conseguir passar sem pedras, há homens que parecem conseguir passar sem poesia.

Os bichos não gostam de pedra, há bichos que infelizmente gostam de poesia. E gostam das nossas estantes, gostam de mastigar palavras e papel.

Com as pedras permanecemos, com a poesia viajamos.

Há pedras em todo o lado, os poemas encontram-se ao fundo dos poetas.

As pedras podem servir para afundar, um poema pode ser fundacional.

As pedras por vezes confundem-se, os poetas são sempre distintos. No entanto, sim, há poetas confundidos.

A pedra não diz, o poema diz.

Água mole em pedra dura, na poesia é loucura.

A pedra não vira costas a nada, a poesia por vezes vira as costas à vida.

As pedras não se comprometem, a poesia deve comprometer-se.

As pedras não nascem em nós, a poesia nasce.

Uma pedra não acontece, a poesia acontece.

Uma pedra não é senão aquilo que é, pedra. A poesia é sempre mais do que aquilo que parece.

As pedras são coisas, os poemas são coisas especiais.

As pedras têm qualquer coisa de nada, a poesia tem qualquer coisa de tudo.

Uma pedra pode entrar no sapato, o poema dificilmente é uma pedra no sapato.

Uma pedra não provoca incêndios, um poema pode ser incendiário. Sobretudo se queimado. Outrora inúmeros poemas alimentaram grandes fogueiras.

As pedras são diárias, os poemas nem sempre.

A pedra só responde por si, o poema responde também pelo poeta.

Uma pedra pode bastar, raramente um poema nos basta.

Uma pedra atirada pode fazer barulho, um poema atirado pode fazer muito mais.

De noite as pedras apagam-se, os poemas refulgem.

Podemos guardar uma pedra no bolso, mas jamais no peito como um poema.

Um lugar com uma pedra pode continuar a ser um lugar vazio, um lugar com um poema jamais o será.

Um conjunto de pedras pode tapar o horizonte, um conjunto de poemas abre o horizonte.

Uma pedra pode servir de prova, um poema não pretende provar nada.

Para voar uma pedra precisaria de asas, um poema não precisa.

As pedras pesam, os poemas levitam.

As pedras não sabem a frutos, os versos podem saber a cerejas.

É provável que as pedras perdurem além de si mesmas, é menos provável que os poemas perdurem para além dos leitores.

As pedras não sangram, há poemas que parecem sangrar.

As pedras não são raízes, os poemas são como raízes.

O vento não entra nas pedras, mas o vento pode entrar num poema.

Uma pedra só é, o poema vive.

Uma pedra tem veios, um poema veias.


 

Pedra a pedra, o poeta constrói o poema (1)





Pedro Teixeira Neves; René Magritte


 


algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas:

 


O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.

O poeta, como as pedras, faz-se de matéria-silêncio.

Se o poeta quiser uma pedra pode ser um poema.

O poeta é um pedreiro cujas pedras traz no peito.

O poeta é um lapidário de sentimentos.

O poeta, como as pedras, precisa de solidão para medrar.

O poeta poetiza pedra a pedra, mas convém que não transforme os poemas em muros de lamentações.

Pedra a pedra o poema se constrói, mas convém que não se confunda com o imobilismo das pedras.

Há quem olhe para a pedra dos poemas como se olhasse para calçadas. Por isso há quem pise a poesia, desconhecendo pisar a vida, esse solo frágil.

Enquanto pedras, as palavras têm falhas. Por isso os poetas falham.

Enquanto pedras, as palavras têm arestas. Por isso é difícil a poesia.

Enquanto pedras, as palavras por vezes doem. Por isso têm os poetas corações magoados.

Enquanto pedras, as palavras são às vezes atiradas da boca para fora.

Enquanto pedras atiradas da boca para fora por vezes as palavras ferem.

Enquanto pedras, as palavras estão e não estão, são e não são.

Enquanto pedras as palavras não precisam de mais nada.

Os poetas nem sempre são puros como as pedras. Do mesmo modo as palavras.

A pedra pode corromper, as palavras também.

Os poemas como as pedras deviam servir apenas para construir.

Em Gaza há décadas que as pedras servem como arma, a poesia também pode ser uma arma.

Uma pedra pode atingir-nos mortalmente, um poema também.

Às vezes o poeta magoa-se com as palavras, tal como uma criança por vezes se aleija brincando com pedras; os poetas têm muito de crianças.

Às vezes não sabemos o que fazer com uma pedra, do mesmo modo que com um poema.

Atirar uma pedra fora é como rasgar um poema.

Olhando para uma pedra julgamos por vezes olhar para nada. Há quem olhe para os poemas como se olhasse para pedras.

Os poemas, como as pedras, encontram-se ao alcance de todos. A poesia, como as pedras, anda na rua.

Um poema é como uma pedra, pode sempre estilhaçar-se.

Alguns poetas têm corações de pedra. Se calhar por isso mesmo são poetas, porque se sentem na obrigação de ao longo das suas vidas irem polindo o coração.

Há pedras tão belas que parecem inventadas. Há poemas tão belos que parecem pré-existir ao poeta.

As pedras a ninguém pertencem. Os poemas deveriam também ser de toda a gente.

No meio do caminho de cada poeta existe sempre uma pedra, como existe sempre a palavra.

As pedras têm a qualidade da inércia. Há poetas que por vezes assumem essa qualidade.

Pegar numa pedra encontrada no caminho sabe bem. Sabe bem sentir o seu peso ancestral, sabe bem sentir a sua pele dura, áspera e seca, sabe bem cheirar o seu cheiro a terra e a distância. Pegar num livro de poesia encontrado ao caminho numa qualquer estante sabe igualmente bem, sabe bem sentir o seu peso, passar a mão pela sua pele de papel, sentir o seu toque e o seu cheiro.

Antigamente os homens escreviam nas pedras. As pedras eram livros que não se podiam folhear. Nesse contexto, os livros já foram de pedra. Ainda assim, isso de pouco lhes valeu – o tempo leu-os tantas e tantas vezes que os apagou da história, restando apenas algumas páginas em cavernas; entenda-se, páginas não encadernadas mas antes, dir-se-ia, encavernadas.

No tempo dos livros de pedra não resisto a pensar que emprestar um livro a alguém podia ser um acto perigoso e subversivo, considerado até um ataque à integridade física.

Igualmente no tempo dos livros de pedra, ninguém ia ler para a margem dos rios. Era demasiado custoso. Isto é, poucos se atreveriam a passear de livro debaixo do braço, sobretudo se fossem calhamaços de seiscentas páginas… Não sei que sucesso nesses tempos teria um Leon Uris ou um Rodrigues dos Santos…

No tempo dos livros de pedra, um best-seller equivaleria a uma pedreira inteira esventrada. Os ambientalistas do tempo dos livros de pedra é bem provável que não vissem com bons olhos os autores de best-sellers. Talvez preferissem os poetas.

Atirada, uma pedra pode viajar sem horizontes, um poema também.

Com pedras se constroem casas, com poemas se constroem abrigos.

Há casas feitas com pedra, e há quem faça dos poemas casa.

Da utilidade das pedras pouco sei dizer, da utilidade de um poema sei dizer o respirar.

Com uma pedra pouco podemos, com apenas uma palavra podemos às vezes muito mais. Com a palavra Amor, por exemplo.

As pedras guardam segredos do princípio do mundo, os poemas revelam esses segredos.

Há poetas que gostariam de ser lidos pelas pedras, como o poeta Manoel de Barros.

O meu pai foi geólogo e escreveu poesia.


 

27 fevereiro 2010

Chuva

 


Quando olhei já te não vi

cega que estava de chuva e névoa,

quando se instalou a ausência

já nem senti

por dentro das pedras que arrastam

a água do silêncio.


 

A ciegas

 



Miguel Poveda


 


 


 


Yo muchas noches sentía,

cercano y al día,

tus pasos en la casa,


 


Gracias a Dios que has llegao,

que no te ha pasao,

ninguna cosa mala,


 


En tus manos, un aroma,

que trasminaba como el clavel,


 


Pero yo, lo echaba borma,

porque era exclavo de tu querer,


 


Que me he entretenio,

las cosas del juego,

y yo te decia,

cerrando los ojos,

lo mismo que a un ciego.


 


No tienes que darme cuentas,

a ciegas yo te he creío,

yo voy por el mundo a tientas,

desde que te he conocío,


 


Llevo una venda en los ojos,

como pintan a la fe,

no hoy dolor como esta gloria,

de estar queriendo sin ver,


 


Mi corazón no me engaña,

y a tu caridad se entrega,

duerme tranquilo se entraña,

que te estoy queriendo a ciegas.


 


No se que mano cristiana,

abrió una mañana,

mi puerta derepente,

luz que cortó en mil pedazos,

como un navajazo,

la venda de mi frente.


 


Me quitaron la ceguera,

con un cuhillo de compasión,

y hoy va solo por la acera,

sin lazarillo mi corazón,

toda esa mentira,

lo firmo y lo pruebo,

y yo te decía,

queriendo ponerme,

la venda de nuevo.


 


No tienes que darme cuentas,

él no te las ha pedío,

quien va por el mundo a tientas,

lleva los rumbos perdíos,


 


Dios me clavará en los ojos,

alfileres de cristal,

pa no verme cara a cara,

contigo y con tu verdad,


 


Miente de noche y de día,

y a jurarme en falso llega,

sigue mintiendo, alma mía,

que te estoy queriendo a ciegas.

 

Comissão Parlamentar

 



 


Finalmente vai haver uma comissão parlamentar de inquérito para apurar as responsabilidades do governo e/ou do Primeiro-ministro à compra da TVI. Ainda bem que o PSD resolveu emparceirar com o BE nesta acção, que também o PS deveria apoiar.


 


A Assembleia da República é o local para apurar essas responsabilidades, assim como a actuação do Procurador Geral da República, como defende Freitas do Amaral. Continuo a pensar que todo este assunto não é mais do que uma tentativa de golpe anti-democrático, com o envolvimento ilegítimo de actores da justiça e de jornalistas, com a pretensão de derrubar ilegitimamente um governo emanado de eleições legislativas, livres e democráticas.


 


Mas alguma vez terá que se apurar a verdade.


 

Oportunistas na política e a vontade de calar quem defende as políticas do PS

 


Este é o texto de Bruno Reis, publicado ontem (26/Fevereiro) pelo Público, em Cartas à Directora (pág.40), a propósito do último artigo de Pacheco Pereira: Um estranho Verão entre eleições

 


O PÚBLICO fez eco, assim como alguns dos seus colunistas, de afirmações caluniosas quanto ao blogue Simplex surgidas em blogues e nalguma imprensa. Eu fiz parte do blogue Simplex. Como muitos dos que lá escreveram, não tenho, nem tive, nem conto ter qualquer cargo político remunerado por via do actual Governo. Nego terminantemente como insultuosas e difamatórias as notícias que caracterizam o Simplex e os que nele participaram como parte de uma campanha de informação determinada pelo Governo e paga com dinheiro público.




Para quem conheça o descontraído e tudo menos ortodoxo João Galamba é delirante pensar que ele seria chefe de fila de uma qualquer cabala coordenada pelo Governo. Que a imprensa de referência ande a dar como notícias tais patetices insultuosas só mostra como desceu o seu nível de referência. A mesma imprensa que tanto critica os blogues dá eco ao que de pior por lá se publica.




O que escrevi no Simplex foi sempre livremente decidido por mim. Foi essa a condição da minha entrada no blogue em conversa com o próprio João Galamba. Os mails, ilegalmente publicados sem autorização (aparentemente não se vê agora obstáculo em fazer notícias com base em divulgação de correspondência privada, ao contrário do que aconteceu quando se tratava de mails trocados entre jornalistas do PÚBLICO), fizeram parte de uma quantidade enorme de mails referente aos mais variados temas políticos ou mundanos. Essa troca de mails resultou simplesmente de uma rede de amizades e convergências políticas que levou a que se trocassem informações sobre os debates que dominavam a campanha eleitoral – foi expressamente com esse objectivo que o blogue foi criado e quem o lia sabia isso. Essa troca de mails nada teve de anormal ou de ilegal. Nenhum foi assinado por um membro do Governo, nem configura qualquer instrução do Governo.




Sei bem o que é estar num blogue com uma linha política definida, e sei bem a diferença.  No Barnabé, blogue em que participavam pessoas mais ou menos ligadas ao Bloco de Esquerda – e agora cronistas em jornais de referência –, mas que se reclamava um blogue plural de toda a esquerda, aí, sim, sofri pressões de alguns para não me desviar de uma determinada linha. Tal nunca sucedeu no Simplex. Sei sobretudo que o Carlos Santos que o PÚBLICO e outros media apresentam como defensor da liberdade de expressão, da imparcialidade e da ética república, CENSUROU a publicação do post em que eu tencionava explicar por que saía do blogue A Regra do Jogo. Sei que o Carlos Santos criou o blogue A Regra do Jogo, logo a seguir ao fim do Simplex e convidando, com elogios rasgados, os que tinham participado nesse (agora) aparentemente temível exemplo de manipulação da informação. Sei ainda que o mesmo Carlos Santos apelou a participantes no Simplex para lhe arranjarem um lugar de cronista na imprensa. Sei que há oportunistas em todos os partidos, que os usam como forma de promoção pessoal. A minha pergunta é se não será esse o caso do Carlos Santos.

 


Convém também recordar que são pagos pelo erário público os deputados e respectivos assessores dos partidos da oposição que, também eles, fazem política e participam no debate público na imprensa e nos blogues. Cabe perguntar, portanto, se o que se quer, na verdade, é que os apoiantes do programa do actual Governo não tenham a liberdade de participar no debate público para defender as suas ideias – sejam eles assessores do Governo, membros do Governo, ou, como é o meu caso, não tenham mais do que prejuízo com o tempo que gastam na política.




Há um clima crescente na sociedade portuguesa de intolerância e tentativa de silenciar os que apoiam as corajosas reformas e os ambiciosos projectos para o país do actual Governo. Quantos comentadores no PÚBLICO defendem regularmente a política do Governo – 1, 2? Entre quantos? Os jornais não têm de reflectir os resultados eleitorais na escolha de colunistas políticos. Mas também não têm o direito de dar eco a calúnias que visam vozes que se atrevem a desafiar os poderes fácticos e os interesses instalados na imprensa e não só.

Bruno Reis, Lisboa

 

Um dia como os outros (39)

 


(...) O Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, distingue este ano a escritora Maria Velho da Costa pelo romance Myra (Assírio & Alvim). (...)


 


(...) Eduardo Pitta, poeta, ensaísta, crítico do jornal PÚBLICO e colunista da revista "Ler", foi distinguido com o Prémio Especial Jornalista ou Imprensa de Edição, por “com a sua voz singular e olhar atento, continuar a dar sentido ao conceito de crítica literária”.(...)


 

24 fevereiro 2010

Um dia como os outros (38)

 


(...) Perante uma prolongada sentença de prisão, Orlando Zapata Tamayo não viu outra saída para protestar contra a terrível e continuada repressão exercida contra os dissidentes políticos em Cuba, senão fazer greve de fome.


A morte de Orlando Zapata também sublinha a necessidade urgente de Cuba autorizar peritos internacionais de direitos humanos a visitarem o país para verificarem o respeito pelos direitos humanos, em particular das obrigações no âmbito da Convenção Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos.


Orlando Zapata Tamayo era um dos 55 prisioneiros de consciência adoptados pela Amnistia Internacional em Cuba.


A maioria pertencia ao grupo de 75 pessoas que foram presas na sequência das repressões violentíssimas levadas a cabo pelas autoridades contra activistas políticos, em Março de 2003. O sistema judicial em Cuba não é independente, por isso os julgamentos são frequentemente sumários e ficam largamente aquém dos padrões internacionais para julgamentos justos. Uma vez condenados, as hipóteses dos arguidos poderem recorrer são nulas.


 

Os novos Guardiões do Templo
















 


Este é o texto hoje publicado pelo Público, em Cartas à Directora (pág.34), a propósito do último artigo de Pacheco Pereira: Um estranho Verão entre eleições:


 


Saiu hoje um artigo no Público, assinado por José Pacheco Pereira – Um estranho Verão entre eleições – em que o articulista afirma que o blogue Simplex, blogue de apoio ao PS e formado exclusivamente para isso, como consta do seu manifesto publicado a 20/07/2009, teria servido como fluxo de informação do governo, preparado por assessores e utilizando bases de dados da Rede Informática do Governo, através de João Galamba, um dos impulsionadores do blogue.


 



Tal como outros membros do blogue, aceitei integrá-lo porque acreditava, como acredito, que a manifestação de opinião na blogosfera é uma forma de intervenção cívica acessível e democrática, que enriquece o debate. O convite para integrar o blogue foi-me feito precisamente assegurando a completa independência editorial o que foi determinante para a minha aceitação. Mais afirmo que não me foi prometida qualquer contrapartida, monetária ou outra, por essa participação tal como não o foi a qualquer dos outros participantes.


 



Posso portanto afirmar com conhecimento de causa que não havia controlos, orientações nem distribuição de temas para debate. Cada um de nós actuou e escreveu dentro das suas disponibilidades, abordando as suas áreas de interesse, com as informações de que dispunha e a que tinha acesso, nomeadamente documentos que membros do governo, candidatos a deputados e militantes do PS usavam, como base de sustentação argumentativa, como depreendo que é feito em qualquer campanha eleitoral. Toda a informação que foi trocada nos emails é a habitual entre um grupo que se uniu com um objectivo comum, assumido, claro e transparente.


 



É absolutamente vergonhosa a utilização deste simples facto, a criação de um blogue para fazer campanha eleitoral, estratégia utilizada por outros partidos políticos - Jamais pelo PSD e Rua Direita pelo CDS – tendo o articulista feito parte do blogue Jamais. Será que também recebeu ou prometeu dinheiro ou outras recompensas por esse facto? Será que não havia troca de comunicações entre os seus vários elementos, divulgação de factos e documentos em que baseassem as suas análises e opiniões? Em que país democrático é que se proíbe os políticos do partido do governo de fazerem campanha pelo seu próprio partido? A liberdade de expressão é apenas para os partidos da oposição?


 



Ao contrário do que o articulista defendeu em plena campanha, no seu blogue, no blogue Jamais, nos artigos de opinião dos jornais para os quais escreve e nos programas de televisão em que participa, a asfixia democrática é exercida por ele e por quem usa os métodos tristemente célebres de ataque ao carácter das pessoas já que não tem argumentos para debater ideias. Foi assim na ditadura anterior ao 25 de Abril de 1974, foi assim até 25 de Novembro de 1975, foi assim na antiga União Soviética, foi assim no regime franquista, é assim em Cuba e em todas as ditaduras, sejam elas de que sinal forem.


 



Assim se percebe que há pessoas, sendo o articulista José Pacheco Pereira um excelente exemplo, que entendem a liberdade individual como um instrumento para impor a sua visão totalitária da sociedade. Para elas a criação de blogues de gente livre são uma intolerável ascensão do povo à esfera do poder. A democracia é boa, mas apenas quando é controlada por minorias constituídas pelos novos Guardiões do Templo.


20/02/2010


 

21 fevereiro 2010

Edvard Munch ou l'Anti-Cri

 





Edvard Munch: Winter Night


 


Edvard Munch, um dos precursores do expressionismo alemão, ficou mundialmente conhecido pela sua obra O Grito.


 


Mas Edvard Munch foi mais que isso. Quem puder poderá descobri-lo na Pinacothèque de Paris, numa exposição intitulada Edvard Munh ou l'Anti-Cri, até 18 de Julho deste ano.


 

Um dia como os outros (36)



(...) O Governo vai reunir na segunda-feira num Conselho de Ministros extraordinário, no qual irá decretar três dias de luto nacional pelas vítimas da tempestade na Madeira. O executivo irá ainda analisar novas medidas de apoio às populações afetadas e à recuperação do que ficou destruído.





De acordo com balanço oficial do Governo regional, registam-se pelo menos 42 mortos, mas teme-se que o número aumente nas próximas horas, à medida que se efetuam os trabalhos de remoção de destroços e lama. Ao PÚBLICO, foi confirmada esta tarde a existência de mais uma vítima, elevando o número total para os 43 mortos (entre os quais um bombeiro e um trabalhador que integrava os esforços de remoção de destroços). Só no Funchal, há 18 vítimas mortais. (...)


 

A questão religiosa

 


 


 


Todos os domingos, às 11h00, a TSF passa O Jornal da República, um programa de Fernando Alves, interessantíssimo. Hoje falou-se da questão religiosa, tendo sido convidado o investigador Sérgio Pinto, do Centro de Estudos Religiosos da Universidade Católica.


 


A ideia republicana de laicização do Estado, ao contrário do confessional que então existia, em que os elementos do clero eram seus funcionários, assegurando o registo civil e até o recrutamento militar, não era totalmente renegada pela Cúria Romana, visto que estava em curso uma reorganização da Igreja Católica, com vista a uma maior autonomização da Igreja em relação ao Estado.


 


Para os republicanos o fenómeno religioso iria desaparecer, competindo ao Estado a tutela sobre o cidadão, sendo também o elemento de ligação entre os cidadãos, a componente que cimentava a sociedade, e não a religião.


 


O Episcopado português nunca discutiu o regime republicano mas sim as suas leis, nomeadamente a Lei da Separação da Igreja e do Estado. A Pastoral Colectiva do Episcopado Português ao Clero e Fiéis de Portugal foi a reacção da Igreja, chegando Afonso Costa a proibir a sua leitura nas Igrejas.


 


Por outro lado houve um ataque ao poder das Congregações, que vinha já do período da Monarquia Constitucional, reduzindo-lhes a influência na sociedade, nomeadamente vedando-lhes o acesso ao ensino, e proibindo a religião nas escolas.


 


O investigador Sérgio Pinto é de opinião de que, mais do que a perseguição religiosa a que se assistiu na Primeira República, havia uma enorme violência na sociedade portuguesa no princípio do século, visível na repressão do movimento operário e em toda a actividade política.




Por fim foi contada a história de uma figura que ficou na memória colectiva do povo do Fundão e de Coimbra – Alberto Costa ou o Pad' Zé, objecto de investigação de João Mendes Rosa.




O Pad' Zé estudou 3 anos no colégio de S. Fiel, no Fundão, fez o curso de Direito na Universidade de Coimbra, onde se distinguiu pelas suas ideias monárquicas. Posteriormente foi para Lisboa, ter-se-á tornado membro da Carbonária e aderido aos ideais republicanos (a sua menina). Era um homem bem-humorado e generoso, havendo vários ditos populares a seu respeito, nas regiões do Fundão e de Coimbra. Era corajoso, amigo de vários caudilhos republicanos como Afonso Costa e Bernardino Machado, não alimentando ilusões sobre as suas ideologias, reconhecendo o autoritarismo e o conservadorismo dos mesmos, idênticos aos dos monárquicos. Foi encontrado morto no seu gabinete (era redactor do jornal O Mundo), não se sabendo se foi suicídio ou não.


 


Enfim, um excelente programa que vale a pena seguir nas manhãs de Domingo.

 

Regressemos à governação

 


 


 


Por intermédio do Saúde SA fui ler a intervenção da Ministra Ana Jorge na sessão de discussão do OE 2010.


 


É um discurso interessante mas, quanto a mim, pouco esclarecedor da forma como se vão atingir as metas a que o governo se propõe.


 


Por um lado é muito importante voltar a falar-se da sustentabilidade do SNS que se tinha mais ou menos abandonado aquando da demissão de Correia de Campos. Assim, a ênfase na melhoria da eficiência da gestão, quando se fala na redução da despesa, parece-me indiscutível. No entanto, em que é que o investimento nos processos de contratualização dos cuidados de saúde primários e hospitalares melhora a eficiência dos serviços prestados, não se percebe. Tal como é muito pouco perceptível o significado de uma implementação gradual e progressiva dos mecanismos de avaliação hospitalar. Esses mecanismos já deveriam ter sido implementados, até porque não se entende como se avalia a gestão, a sua eficiência, o grau de cumprimento do que é contratualizado, etc., sem que haja uma criteriosa monitorização dos indicadores de qualidade e de organização.


 


Os serviços partilhados (compras e tecnologia informática), prescrição electrónica de medicamentos e unidoses são tudo objectivos do início da anterior legislatura, adiados todos os anos. Será que é desta vez que vamos assistir à sua implementação?


 


O problema dos recursos humanos em saúde é um daqueles em que o discurso político está longe da prática. Para se dotarem os serviços de saúde de médicos, que é a classe profissional com maior escassez de recursos, há que assumir que é necessário alterar muita inércia nas organizações existentes, como os horários de trabalho, a repartição e distribuição dos médicos das unidades em que são excedentários para as que são deficitárias, reestruturação das carreiras médicas com remodelação dos salários praticados, separação entre prestação de serviços público e privado, etc. Além disso não se podem estrangular as unidades de saúde impondo-lhes crescimento zero ou negativo para a rubrica dos recursos humanos. Isso aumentará a precariedade e a dificuldade de formar e diferenciar equipas de trabalho.


 


O Plano Nacional de Saúde 2011/2016 está já em preparação. Poderá ser acompanhada neste site e entrará, posteriormente, em consulta pública. Os grandes temas orientadores serão:



  1. A promoção da cidadania

  2. As políticas públicas saudáveis

  3. A equidade e o acesso adequado aos cuidados de saúde

  4. A qualidade dos cuidados


Regressemos à política, regressemos às reformas estruturais, regressemos ao que importa aos cidadãos. Espero deste governo socialista, numa área que tem estado adormecida e anestesiada, primeiro com a preocupação de apaziguamento do populismo, depois com a pandemia da gripe A e, ultimamente, com a maledicência e a coscuvilhice endémicas, a efectiva e justa governação. Foi para isso que o elegemos, já basta de responder ao diz-que-diz-que dos últimos meses, mais mortal que qualquer pandemia.

 

20 fevereiro 2010

Abril é macho

 



 


Militares de Abril: casamento gay é «aberração»

Impressionante

 



Temporal na Madeira


 

Um dia como os outros (35)

 


(...) Vantagem: Carlos Santos contou onde vai a Câmara Corporativa, feita por gente que tem o gosto pela bufaria anónima, buscar tanta informação, por vezes informação sobre adversários políticos: directamente aos gabinetes do poder. Vantagem: um blogue de bufaria depende de bufos. (...)





(...) Resumindo: distingo entre os que dão o seu nome por combates, mesmo que não concorde com eles, e os migueis abrantes desta vida e as suas fontes de gabinete. Mas vão-me perdoar: ver o Câmara Corporativa falar de bufos só mesmo para rir. (...)


 


(...) quanto ao miguel abrantes, sei quem é. como se chama, e o que faz; tenho o número de telefone dele e encontro-o de vez em quando. conheci-o, como já disse, no sim no referendo e por causa do sim no referendo. através do convite do daniel oliveira, portanto -- pode-se dizer que conheci o miguel abrantes através do daniel oliveira. sim, o daniel oliveira, como muitas outras pessoas que hoje escrevem coisas indignas sobre o miguel abrantes, já viu o miguel abrantes. esqueceu-se da cara dele, talvez tenha até esquecido o que ele faz e o telemóvel dele. (...)


 


(...) Estive duas vezes com o Miguel Abrantes: num jantar e num prós e contras (que foi quando o conheci pessoalmente). Só uma vez me disse o nome dele (quando se apresenou, nos bastidores do P&C), coisa que, lamentavelmente, não decorei. No meu telemovel (entretanto perdido com tantos contactos, como sabes porque tive de pedir a muita gente ajuda para recuperar contactos) o nome que tinha, talvez por facilidade, foi sempre "Miguel Abrantes" (...)


 

Expectativa

 


O aparecimento de uma candidatura presidencial completamente diferente das que estavam previstas pode ser uma oportunidade de debate sério.


 


O discurso do apartidarismo pode soar a populismo e demagogia, mas também pode apenas significar que há uma vontade genuína de romper com vícios dos vários aparelhismos.


 


Ainda falta algum tempo e veremos o discurso e as opiniões que se vão desenvolver. Penso que Fernando Nobre pode ir buscar votos a vários quadrantes políticos, não só à esquerda.


 


Estou na expectativa.


 

Temporal na Madeira

 



 


A tragédia bateu-nos à porta. Este tem sido um Inverno demasiado mau. Sejamos solidários com a Madeira.

Comissão para Avaliação do Carácter

 



Contemplation, Perseverance, Imagination, and Free Will


The Castle of Perseverance


 


Torna-se público o último decreto do Comité para a Moralização da Política:


 


A partir da data da publicação deste decreto, toda e qualquer pessoa que deseje erguer a sua voz contrária à linha oficial do partido da oposição, deverá entregar o seu computador, a chave da sua casa, o código do seu pensamento, a impressão genética da sua consciência, que ficará proprietária da recém-formada Comissão para Avaliação do Carácter (CAC).





Sempre que a CAC achar necessário, qualquer palavra, pensamento ou acto, serão objectos de análise, escrutínio e publicitação, não sendo do domínio privado nada que a CAC assim não considere.





Publique-se.


 

Bach - Violin and Voice

 



Hilary Hahn - violino


Christine Schäfer - soprano


Matthias Goerne - barítono


 

18 fevereiro 2010

Dos oligoquetas*

 



 


Acabo de ver o Carlos Santos na SIC dizer candidamente que, após as eleições, releu os mails (foram centenas deles) que foram trocados entre os participantes do SIMplex e apercebeu.se, oh surpresa, oh ignomínia, que havia documentos de assessores do governo.


 


É desta fibra que se fazem as opiniões de muito do jornalismo de hoje, que ocupa as notícias televisivas.


 


Aqui está a resposta de João Galamba.


 


Nota: Ler A. Teixeira - Sobre a nossa tolerância à mentira.


 


*Oligoqueta


 

17 fevereiro 2010

Um dia como os outros (34)

 


(...) Serei candidato independente, apartidário e em nome da cidadania, a Presidente da República, nas próximas eleições de 2011. (...)





(...) Sou e serei sempre um ser livre. Rejo-me e reger-me-ei sempre por valores em que acredito e não por qualquer outro tipo de ambição. E neste momento acredito poder vir a ser mais útil num outro contexto. (...)





(...) E quero que saibam que a minha motivação é exclusivamente uma: acreditar que posso fazer a diferença, não me acomodando nunca. (...)


 

Dos métodos totalitários de propaganda

 



 


Saiu hoje um artigo no Correio da Manhã, assinado por Eduardo Dâmaso, Tânia Laranjo e Manuela Teixeira, que acusa um blogue de que fiz parte, o SIMplex, de ser alimentado com meios públicos, usados a partir do governo. Mais à frente é afirmado que assessores do primeiro-ministro, secretários de estado e chefes de gabinete de alguns ministros usaram o seu tempo, pago pelo erário público, meios informáticos e informação privilegiada para produzir propaganda.


 


Ficamos pois a saber que os elementos do governo estão proibidos de fazer campanha eleitoral, mesmo em plena campanha. Ficamos pois a saber que o erário público paga os custos da democracia, financiando a propaganda política dos partidos políticos mas que o PS, por estar no governo, não pode fazê-la. Ficamos a saber que ninguém pode usar o computador do serviço para enviar emails, usar as ferramentas do Office para escrever documentos políticos, mesmo que a sua função seja política. A política, quando é exercida pelo PS que está no governo não deve existir.


 


Ficamos também a saber que nenhum de nós pode usar conhecimento e informação adquirida na sua área de especialização e trabalho para escrever opinião, se for opinião a favor do PS ou do governo do PS. Porque os opositores ao governo, os elementos das oposições partidárias, do PSD, do CDS, do PCP, do BE, podem usar informação do governo, dos deputados, dos seus assessores, dos institutos de apoio, dos independentes, etc., para produzirem documentos sustentando as suas opiniões.


 


Ficamos também a saber que a acusação de divulgar informação privilegiada não necessita de provas, mesmo sendo de uma enorme gravidade.


 


Impõe-se um esclarecimento da minha parte. Fui convidada a participar no SIMplex, o que muito me honrou e de que não estou minimamente arrependida. Sou médica hospitalar, tenho um blogue pessoal desde 2005 onde escrevo sobre vários assuntos, nomeadamente de saúde, em que uso a minha experiência profissional para reflectir sobre a política de saúde, uso a minha experiência pessoal para escrever sobre outros assuntos, uso o que penso, o que os outros pensam, o que outros escrevem e escreveram para fundamentar as minhas opiniões. Ninguém me pagou nem prometeu nada pela participação no SIMplex.


 


Após as eleições fui convidada pelo Carlos Santos, também colaborador do SIMplex, a participar no blogue A Regra do Jogo, convite que aceitei. No entanto não tardei a perceber que a ética de quem me convidou não era coincidente com a minha, pelo que, a 24 de Janeiro, cessei a participação nesse blogue. Talvez não por acaso, desde essa data até hoje, já cessaram a sua colaboração com o mesmo blogue mais doze participantes.


 


Sou uma pessoa livre e é livremente que me exprimo. Repugnam-me estes métodos absolutamente inqualificáveis de insinuações mentirosas e calúnias sobre tudo e todos que apoiam o PS e o seu governo. Não é assim que me intimidam.


 


Se é esta a forma que usam para escrever artigos de jornalismo de investigação sobre a conspiração governativa para controlar a comunicação social, então cada vez acredito mais que a conspiração existe, mas para forçar a demissão do primeiro-ministro por meios ilícitos, subvertendo a democracia.


 


A todos os que, como eu, participaram no blogue SIMplex, a minha solidariedade.


 


Nota: Ler também Eduardo Pitta, Rogério da Costa Pereira, André Couto, Pedro Adão e Silva, Porfírio Silva, Tomás Vasques (1), Tomás Vasques (2), Luís Novaes Tito, Miguel Abrantes, José Reis Santos, Palmira F. Silva, Tiago Barbosa Ribeiro, Francisco Clamote e Ana Paula Fitas.


 


Adenda: Afinal parece que o Carlos Santos nunca esteve no SIMplex. Não consta da lista de colaboradores nem há lá nenhum post dele. Devemos todos ter sofrido de alucinações. Há quem acalente estes tiques de retocar o passado.


 

15 fevereiro 2010

Manifesto

 



 


Pela democracia e pelo respeito da vontade popular, nós tomamos partido.


 

Concerto para violino em Lá menor - Andante

 



Johann Sebastian Bach


David Oistrakh


 

Controlo informativo

 



Alexander Ovchinnikov 


 


O controlo estatal da comunicação social é um perigo e uma subversão da democracia, porque coloca em causa a pluralidade da informação e da opinião, ao serviço do poder, levando à manipulação de quem o detém.


 


E o controlo da comunicação social pelos grandes grupos económicos? Não terá perigos também? Quem nos assegura a isenção, a liberdade e a independência editorial dos media, nessas circunstâncias?


 

Legitimidade democrática

 


Acabei de ouvir Octávio Teixeira a dizer, na SIC Notícias, que Marcelo Rebelo de Sousa e toda a comunicação social chamam mentiroso ao Primeiro-ministro, significando que Sócrates perdeu toda a credibilidade e a legitimidade democrática.


 


É interessante esta visão de perda da legitimidade democrática pelo facto da comunicação social chamar mentiroso ao Primeiro-ministro. E é exactamente isso que está a acontecer: as regras da democracia e a Constituição estão a ser substituídas pelas regras da manipulação da opinião pública.


 


Penso que o Eduardo Pitta tem razão. Após a aprovação do OE 2010 (e a elaboração do PEC), o governo deverá apresentar uma moção de confiança à Assembleia da República.


 


Cavaco Silva não vai dissolver a Assembleia da República. Primeiro porque o PSD ainda não tem um líder com condições para vencer umas eleições legislativas antecipadas, arriscando-se a ficar com uma composição parlamentar idêntica à que há hoje, segundo porque colocará em perigo a sua eventual hipótese de ganhar as eleições presidenciais, caso se candidate. Só assim se entende o seu silêncio, quando fez uma comunicação ao país a propósito do Estatuto dos Açores e outra a propósito de Fernando Lima.


 


Outro silêncio que se regista é o do candidato à presidência Manuel Alegre. Que pensa ele de tudo o que se tem passado?

 

12 fevereiro 2010

A enormidade da entrevista

 



 


É penoso ouvir esta entrevista a Noronha do Nascimento. Por muito que não me seja simpático, foi notável a paciência que teve perante a má educação, a petulância e a agressividade de Judite de Sousa.


 


Judite de Sousa não quer ser esclarecida nem está interessada em esclarecer o público. O esclarecimento só será total quando Judite de Sousa e outros como ela conseguirem arrancar ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, tratado como um idiota, um incompetente, um traste, uma criatura indigna, qualquer coisa que possam aproveitar para adensar suspeitas. Noronha do Nascimento não lhe fez a vontade.


 


A sua última frase - (...) não encontrou nelas [nas escutas apreciadas por Noronha do Nascimento] qualquer referência ao Presidente da República. - é um portento.


 

Eurosondagem (4 a 9 de Fevereiro)





 


Parece que a minha tese tem alguma sustentação.


 

Vice-presidência do Banco Central Europeu

 



 


Os ministros das Finanças da Zona Euro, que vão reunir segunda feira em Bruxelas, deverão escolher Vítor Constâncio para ocupar o lugar de vice-presidente do Banco Central Europeu a partir de 01 de Junho em Frankfurt.


 


Vítor Constâncio é Governador do Banco de Portugal há 10 anos. Durante o seu mandato vários casos de negligência/incapacidade de supervisão sobre a actividade bancária, evidente nos casos do BCP e do BPN, evidenciada pela comissão parlamentar de inquérito ao BPN. Nessa altura defendi que que o Governador do Banco de Portugal deveria assumir a sua responsabilidade política demitindo-se.


 


Por isso a escolha de Vítor Constâncio para vice-presidente do BCE, ainda por cima com o apoio sem reservas de Paulo Rangel, é elucidativo do tipo de político que se vai revelando e do que devem ser os outros concorrentes ao lugar.


 

Double standart

 


Tenho por princípio tentar ser isenta nas minhas apreciações, políticas e outras. Até por deformação profissional, a dúvida metódica e a avaliação de todas as hipóteses antes da conclusão final são imperativas porque reduzem a possibilidade de erro. No entanto tenho a certeza de que nem sempre o consigo. Tenho convicções e não sou neutra nas considerações que faço. 


 


Isto vem a propósito de um post de Pedro Correia em que me aponta uma visão parcial do assunto de momento, o desvario sobre a hipotética tentativa de bloquear os jornalistas, os jornais e a liberdade de expressão. Segundo Pedro Correia, eu concordei com Joaquim Vieira, enquanto provedor do Público, quando este chamou a atenção para a claustrofobia democrática no interior do jornal, quando foi discutido o caso das escutas ao Presidente, e não concordo com ele (chamo disparate a toda esta situação, que inclui as declarações de Joaquim Vieira, jornalista por quem tenho o maior respeito) quando apela à desobediência civil no caso do jornal Sol.


 


O caso das escutas de Belém não envolveu qualquer quebra de segredo de justiça (que é um crime), não envolveu a interposição de uma providência cautelar, instrumento legal e legítimo, em uso nas sociedades democráticas e nos estados de direito, não envolveu a desobediência a essa decisão judicial, recidivando no delito. Houve um jornalista e um jornal que denunciaram uma farsa, de contornos políticos graves, através da publicação de um email que, segundo vários testemunhos oriundos da classe profissional, não violavam sequer o código deontológico, muito menos qualquer lei.


 


Por isso não me parece que as duas situações se possam comparar. Na verdade, o que transparece de toda esta nebulosa, é que o objectivo é forçar a demissão de Sócrates, a todo o custo. Vários casos foram já ventilados pela comunicação social, colocando-o sempre na posição de ter que provar que não fez aquilo de que é suspeito de ter feito.


 


Não sei se Sócrates tentou ou não manobras para controlar todas as empresas privadas de comunicação. Acredito que não, mas não sei. O que sei é que, até agora, não se provou nunca que ele tenha cometido qualquer crime. Como já aqui disse, os problemas políticos são para ser tratados em sede própria, na Assembleia da República, pela Presidência, pelas eleições. Gostaria mesmo de perceber a razão pela qual nem o PSD nem o CDS nem o PCP nem o próprio PS viabilizam de imediato o inquérito parlamentar pedido pelo BE. Recuso-mo a aceitar que, numa democracia, a manutenção do cargo de primeiro-ministro seja decidida pelos escândalos que os jornais e as televisões divulgam, usando ilicitamente escutas que, ainda por cima, não se percebe porque estavam a ser feitas - que crime estava a ser investigado que justificasse a autorização daquelas escutas?


 


Há limites, que estão estabelecidos na lei, que não devem ser ultrapassados. Todos sabemos  que já o foram. A partir de agora, tudo será permitido e ninguém, anónimo cidadão ou figura pública, estará seguro de que as leis o poderão proteger.


 


Nota: Vale a pena ler Francisco Proença de Carvalho e Leonel Moura.


 


Adenda: informações adicionais (divulgação do email) no caso das escutas de Belém:


11 fevereiro 2010

Um dia como os outros (32)

 


(...) Dezoito hospitais, entre eles os maiores do País, estão em risco de perder pelo menos 45 milhões de euros em relação a 2009, porque o Estado lhes vai pagar menos pelos cuidados prestados. É este o impacto do novo modelo de financiamento do Governo para as unidades de saúde, recebido com duras críticas pelos administradores hospitalares, que ameaçam demitir-se. (...)


 


(...) Nenhum dos hospitais da região norte vai aplicar o novo modelo de financiamento do Ministério da Saúde, asseguraram ao DN fontes do São João e do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro. "Estamos solidários com a posição do presidente da Administração Regional de Saúde do Norte, Fernando Araújo", que numa reunião com a ministra da Saúde, Ana Jorge, terá defendido que não aceitava o novo modelo de financiamento dos hospitais, disse fonte da administração da unidade transmontana. (...)


 


Adenda: O bom-senso prevaleceu. Ainda bem.

O PREC da direita*

 


Entre o 25 de Abril de 1974 (mais precisamente entre o 11 de Março de 1975) e o 25 de Abril de 1975 viveu-se, em Portugal, um clima de avassaladora intimidação para quem não comungasse da visão dos revolucionários.


 


Durante esse período quem ouvisse a rádio, visse a televisão, lesse os jornais, participasse nas famosas RGAs nas Escolas Secundárias, quem ouvisse os sindicatos, as comissões de trabalhadores, de moradores, de soldados e marinheiros e o MFA, ficava completamente convencido que caminhávamos a largos passos para uma sociedade totalitária, na esfera de influência da União Soviética. A música, o vocabulário, as manchetes, as acusações de fascista e reaccionário, tudo fazia crer na esmagadora maioria de votantes no PCP.


 


Com a surpresa de todos o PCP foi derrotado tendo-se seguido o PREC, altura em que o PCP e a extrema esquerda  tudo tentaram para subverter o resultado das eleições constituintes.


 


Tal como já aqui referi e como o Eduardo Pitta tão bem sintetizou num título de um post, vivemos neste momento o PREC da direita. Os métodos são idênticos e a intimidação de quem ousa dizer o contrário de quem mais grita, de quem mais fala, de quem mais defende a liberdade de expressão, é absolutamente extraordinária. Acresce que em Outubro o país se pronunciou votando maioritariamente no PS.


 


Mas tudo serve para dar a sensação de desvario, tal como aconteceu com o PREC de 1975. A forma irresponsável como se acusa o poder judicial de estar ao serviço do governo e de Sócrates, essa encarnação do maligno, como se incentiva o julgamento sumário pela populaça, guindando os jornalistas, tal como os militares durante o PREC, ao patamar dos deuses, faz-nos recuar 35 anos.


 


Tal como nessa época é preciso não perder de vista o essencial – a liberdade, a responsabilidade e o respeito pelas instituições democráticas. Porque é esse desrespeito que faz com que Portugal possa transformar-se num Estado de Direito formal, como demagogicamente afirmou Paulo Rangel, no Parlamento Europeu.

 


*Título roubado ao Eduardo Pitta


 

Manipulações perigosas

 


Já nada trava o disparate e a manipulação política.



  • Um jornal viola a lei, publicando o que está em segredo de justiça;

  • Um cidadão visado e julgado na praça pública, que não é arguido em qualquer processo judicial, para proteger o seu direito constitucional ao seu bom nome,  tenta que uma decisão judicial interponha uma providência cautelar para impedir que o jornal viole de novo a lei;

  • Isso é entendido como uma interferência do governo na liberdade de imprensa e rotulado como censura;

  • Esse jornal recusa-se a receber a notificação judicial;

  • Há um jornalista que incita à desobediência civil;

  • Há uma manifestação que usa o pressuposto de que não há liberdade de expressão em Portugal;

  • Os telejornais abrem com directos em que se discute a censura decretada por um juiz;

  • um bloguer que faz uma lista de blogues que não aderiram à manifestação.


A espiral de loucura não pára, está em roda livre.

 


Começa a ser assustador.


 


Nota: Vale a pena ler o Porfírio Silva.


 

Ética parlamentar

 


Se há dúvidas quanto à actuação política de responsáveis governamentais, estes devem ser confrontados politicamente na Assembleia da República.


 


Significativamente apenas o BE pediu uma comissão parlamentar de inquérito à actuação de José Sócrates.


 

10 fevereiro 2010

As redes, as teias e os tentáculos

 



 


Os casos de justiça começam sempre com grandes redes tentaculares, descobertas pelos jornalistas de investigação, e perdem-se nos confins do tempo, sem honra nem glória, deprimindo os cidadãos e ajeitando os cenários políticos.


 


O caso Casa Pia, que durante anos seguidos conspurcou a vida de tanta gente, vítimas abusadas sexualmente e vítimas abusadas pelos nomes que foram envolvidos na alegada grande rede de prostituição internacional, que faria um terramoto, segundo Catalina Pestana, com fotografias de personalidades conhecidas do mundo da política, arrasta-se penosamente nas suas próprias malhas, com Carlos Cruz, Jorge Ritto e poucos mais. Entretanto Paulo Pedroso esteve preso e o nome de Ferro Rodrigues andou nas bocas do mundo.


 


O caso Freeport acabou, depois de ter andado anos a caluniar José Sócrates. O caso Apito Dourado empalideceu totalmente, não deixando, no entanto, de enlamear Pinto da Costa. O caso BPN, misteriosamente, deixou de existir. Estamos agora com mais uma rede tentacular que se chama Face Oculta.


 


Estas teias e estes tentáculos são fabricados com tanta ansiedade e tão atabalhoadamente que acabam, inexoravelmente, em fantasmas que se esfumam. E vai-se esfumando também a nossa confiança.


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...