A Ministra da Saúde iniciou o seu mandato sob o signo do apaziguamento e de colocar em banho-maria as reformas impopulares que Correia de Campos tinha iniciado.
Mais uma vez, a pressão mediática pouco inocente todos os dias ecoava a indignação das populações, os partos nas ambulâncias, as mortes por atraso no socorro, etc.
Miraculosamente tudo se apagou desde que Ana Jorge tomou posse. Inclusivamente a situação em Anadia caiu no esquecimento, tendo ficado exactamente na mesma. Os jornalistas nunca mais se lembraram de alertar para essa grande injustiça e ataque à saúde da população.
Ana Jorge é uma Ministra que se tem mantido fora das luzes da ribalta, o mais possível. Mas agora recomeçam a virar os holofotes para o que diz.
A sua afirmação de que os prematuros deveriam ser tratados apenas em hospitais públicos tem pouco de ideológico e tem muito de profissionalismo e acautelamento da saúde dos mesmos prematuros. O treino de uma equipa de Neonatalogia, médicos e enfermeiros, as condições técnicas e o investimento nessas unidades e, principalmente, o número de prematuros que devem ser assistidos para garantir a melhor competência das equipas não se compadece com a multiplicação de serviços de Neonatalogia em unidades privadas. Aliás, de imediato, o próprio Bastonário da Ordem veio afirmar que esse investimento não interessa às unidades privadas.
A defesa do SNS, que Ana Jorge tem inscrita no seu percurso profissional, é uma esperança para que as negociações entre as estruturas sindicais e o ministério corram da melhor forma.
A falta de médicos de que muitos governos são responsáveis, pela manutenção de um numerus clausus totalmente irrealista, alimentado pela Ordem dos Médicos, é agora um assunto de emergência nacional. Não há médicos suficientes, os que existem estão numa faixa etária elevada, o que não permite a renovação dos serviços nem a manutenção da qualidade do atendimento por exaustão de meios humanos.
Não concordo com a ideia de trazer estudantes portugueses de medicina nas Universidades de Espanha e da República Checa para acabarem o curso em Portugal, porque considero que isso é uma afronta a quem, por motivos económicos, não conseguiu seguir a sua vocação. Mas acho que devem ser dadas todas as condições a quem acaba essa licenciatura, de concorrer em pé de igualdade com os médicos que se formaram em Portugal. Ou até dar-lhes alguns incentivos, pois eles estarão a concorrer já num mercado internacional. Também, haverá injustiça nestas situações, mas será menor e, a verdade é que não há muitas soluções.
A tentativa de formação e acreditação dos cursos de medicina e de especialidades médicas de profissionais vindos de países fora da União Europeia, que tem estado a ser efectuado em conjunto com a Fundação Gulbenkian, é também uma proposta de solução. Assim como a possibilidade de abrir vagas para licenciados em áreas de ciências da saúde para quem sempre quis tentar medicina. Não conheço a realidade da Universidade do Algarve, os seus curricula ou os seus métodos de ensino, por isso não me posso pronunciar, mas obviamente é preciso que não tenhamos médicos de primeira e de segunda, sem credibilidade para exercer medicina e tratar os doentes com todos os requisitos de competência e rigor que se exigem aos formados nas outras Faculdades de Medicina.
As opções não são muitas. E ainda bem que há ideias, mesmo que algumas não sejam fantásticas. O problema é emergente.
Quanto ao facto de os problemas do SNS estarem na sua organização e de serem responsabilidade das Administrações Hospitalares e Direcções dos Serviços, é absolutamente verdade. Mas não é menos verdade que as Administrações são nomeadas pelo Ministério da Saúde. Onde está a avaliação e a demissão dos que não cumprem?
