28 fevereiro 2009

Democracia em directo

 


Ouvir Jaime Gama elogiar José Sócrates desta forma, faz-me lembrar os elogios que fez a Alberto João Jardim, anos depois de o ter comparado a Bokassa.


 


Depois, os momentos de embaraço militante dos que resolveram abrilhantar o congresso com teses sobre sexo entre animais irracionais, ou cantar em honra de Edite Estrela.

 


Assim se discutem os problemas da Nação, do desemprego às políticas sociais, dos serviços públicos ao sindicalismo.


 

Boomerang

 


A forma que certas pessoas têm de desvalorizar os partidos e os congressos partidários na luta política não é mais do que desvalorizar a democracia representativa.


 


Tal como Salazar, casado com a Pátria e pondo o seu destino acima de qualquer coisa, tal como Cavaco Silva que fala dos interesses nacionais tratando os partidos como excrescências inúteis e perigosas, Manuela Ferreira Leite brandiu a arma da ausência de Sócrates numa reunião informal da EU, onde se fará representar por um Ministro de Estado, acusando-o de preferir ir a uma festa partidária.


 


Claro que o facto de haver 3 eleições em Portugal este ano, de o PS ser o maior partido português e de os congressos partidários servirem para eleger o líder e as moções políticas que serão, mais tarde, propostas ao eleitorado, não tem importância nenhuma.


 


Se há debate político ou não no dito congresso é da responsabilidade dos militantes do próprio partido e principalmente de quem se tem mostrado crítico às orientações de José Sócrates. A esses se devem pedir a apresentação de alternativas, que critiquem, no local de eleição, tudo o que consideram errado na política seguida até agora. Por exemplo, onde está Manuel Alegre e as suas críticas às políticas de direita deste governo e deste PS?


 


A unanimidade dos seguidores do líder, o não se questionarem orientações e soluções diferentes é muito empobrecedor para o país, ainda por cima numa época em que todos os contributos são indispensáveis, aí sim por um imperativo nacional. Mas para uns, o aplauso constante e acrítico poderá assegurar-lhes um lugar nas listas, um pelouro nas autarquias, seja ele real ou fictício. Para outros é muito mais fácil falar e ter atitudes de insubmissão partidária do que assumir as diferenças e confrontá-las com as teses da situação.


 


Também são interessantes as vozes que, triunfantemente, manifestam o seu regozijo pelo tratamento político que Sócrates deu ao caso Freeport, na abertura do congresso, dizendo que foi ele e só ele que transformou esse caso num assunto político. É uma enorme falácia e uma enorme hipocrisia. Este caso de justiça foi transformado em caso político por todos os políticos e por todos os comentadores. Ou já se esqueceram que todos acentuaram e dramatizaram o epíteto de assunto de estado que lhe deu o Presidente da República?


 


Sócrates está a transformá-lo em arma de arremesso, pela vitimização constante. Eu não gosto, acho mesmo detestável, até porque a demagogia que lhe está subjacente é óbvia. Mas Sócrates está apenas a aproveitar o que a oposição começou.


 


Nota: o Tomás Vasques faz uma leitura semelhante.

 

26 fevereiro 2009

Populismo demagógico à esquerda

 


Francisco Louçã acaba de dizer na SIC notícias que não viabilizará um governo do PS e que não vê a política como um trajecto pessoal, mas como uma resposta de projectos.


 


Está a falar de homens e mulheres, da esquerda e do BE na próxima legislatura, que não negoceiam o que discordam e que vão assumir a política da esquerda grande.


 


Não consegue explicar quem vai concretizar os projectos – alguém? Será que o cargo de Primeiro-Ministro vai passar a ser um órgão colegial?


 


De facto é o vazio total do populismo asceta e iluminado. Não se percebe o que é que o BE deseja, quer, visiona ou prevê para o governo do país. Votar no BE é legitimar a irresponsabilidade da demagogia pura, por muito apelante que ela possa parecer.


 

25 fevereiro 2009

Aterragem política

 


A propósito dos voos da CIA, talvez fosse interessante saber se Luís Amado continua a admitir pedir a demissão caso se prove que Portugal estava ao corrente da existência de voos ilegais da CIA, utilizando o nosso espaço aéreo, a caminho de Guantánamo.


 

Ataques de "grunhice"









As notícias mais divulgadas no Carnaval estiveram de acordo com a quadra. A apreensão de livros em que figurava uma foto do quadro L'Origine du monde, de Gustave Courbet, e a proibição de uma imagem de um nu feminino no monitor do “Magalhães”, num carro alegórico de Torres Vedras, é de um ridículo muito português, tal como a marcha das  “Mães de Bragança”, para citar só um exemplo.


 


O moralismo bacoco que se exibe e a hipocrisia atrevida da afronta dos nus femininos ou masculinos, é mais grave que a falta de conhecimentos de arte pictórica. Convenhamos que deve haver uma pequeníssima percentagem de pessoas, em Braga, Bragança, Vila Real de Santo António, Porto ou Lisboa, que conheçam a obra de Gustave Courbet.


 


O problema, tal como aponta Tomás Vasques, é o poder que qualquer pessoa que se sinta ofendida com um livro, uma estátua ou um monitor de computador tem, ao desencadear um ataque persecutório em defesa da moral e dos bons costumes.


 


Não se pode decretar o fim da grunhice, mas pode-se legislar sobre quem pode exercer o poder de proibir manifestações de alma, artísticas ou outras. Ou não?


 



(pintura de Gustave Courbet: L'Origine du monde)


 

23 fevereiro 2009

Desconfianças

 


A condenação de Domingos Névoa devolve u pouco da esperança que temos na Justiça, se bem que os €5.000 euros de multa é um valor simbólico.


 


Também o deixar cair do BPP pode ser uma boa notícia ou um símbolo. Mas porquê agora? O que é que aconteceu?


 

22 fevereiro 2009

Europa

 


Esperam-nos eleições europeias. A Europa tem, neste momento, a oportunidade de ser uma União de Facto, principalmente se decidir que, em conjunto, deve enfrentar a crise económica e financeira. As resoluções da cimeira de hoje, em Berlim, dão-nos alguma esperança.


 


Em Portugal teremos que decidir quem nos deve representar. PS e PSD, com a quebra da promessa de um referendo ao Tratado de Lisboa, não estão em muito boas condições. CDS/PP, BE e PCP sempre tiveram mais um casamento de conveniência com a União Europeia, do que uma verdadeira relação de amor.


 


Como decidir?


 

Notícias carnavalescas

 


Canonização do beato Nuno de Santa Maria - Aqui está uma notícia que nos deverá inspirar, segundo as palavras do nosso Presidente da República.


 


José Sócrates convidou Hugo Chávez para o Congresso do PS - Será que também convidou José Eduardo dos Santos, esse grande democrata de um país irmão? Ou foi mesmo só o MPLA?


 



(pintura de Ang Kiukok)


 

Jade Goody (1)

 


 


Pela primeira vez leio o nome de Jade Goody, uma mulher de 27 anos que está a morrer por uma neoplasia disseminada.


 


Esta mulher, que só agora conheci, deu muito que falar e que vender pela sua participação num Big Brother em que, pelo que li nos jornais online, a sua forma de falar, a sua falta de conhecimentos gerais e a história de uma infância desgraçada, foi um verdadeiro caso social a explorar pelos media.


 


Dessa efémera celebridade, que lhe deu fama e dinheiro para lhos tirar pouco tempo depois, com o escândalo causado por atitudes de índole racista que demonstrou no mesmo ou noutro programa semelhante, aprendeu a vender a sua vida, a sua história, a sua pessoa.


 


Até ao acto final, talvez mais íntimo e secreto que nascer, Jade Goody resolveu vender a sua doença e a sua própria morte, tentando desta forma garantir sustento para os filhos que deixa, ao apetite sem governo de uma sociedade que tudo vende e tudo compra, num espectáculo que já não tem fronteiras.


 


Se tudo vale, então ela aprendeu bem a lição. De tudo se valerá, até do seu próprio fim.

 

Barricadas

 



(pintura de Andrew Wyeth)


 


Há a tristeza de reconhecer

que rios de revolta nos uniam

naqueles dias serenos do amanhecer


momentos tão longínquos como a verdade

que se escapa em redondas palavras

em gestos estudados e banais.


 


Perdemos a frescura de acreditar em nós

enfrentamos medos diários

nos socalcos das fundas rugas

frágeis e sós barricados de gelo.

 

21 fevereiro 2009

Klezmer Trio - Odessa Bulgarish

 



 


Marcin Jabłoński - accordion

Stanisław Leszczyński - double bass

Damian Szymczak - Clarinet


 


Klezmer

Encontros

Em dia de Primavera, quente, brilhante, colorido, fazemos as pazes com o mundo. Apetece-nos tudo o que for deambular, o sol activa as nossas reservas antidepressivas e vemo-nos a planear gostosamente a nossa semana, mesmo sabendo que o trabalho não diminui:



  1. Terça-feira 24, dia de Carnaval - um encontro com o Demónio

  2. Sexta-feira 27 - um encontro com o olhar

  3. Sábado 28 - um encontro com o amor


Mas agora, neste sábado e neste domingo, as flores amarelas que atapetam o lado das estradas e o ar limpo vão ser as minhas companhias.


 


(Post retocado!)

19 fevereiro 2009

Renovação de médicos

 


Concordo com o Presidente da República quanto à necessidade de renovar as gerações de médicos. Só tenho pena é que durante os seus governos ele não a tenha sentido.


 


Talvez nessa altura tivesse sido mais importante a sua preocupação e planeamento estratégico, visão a longo prazo, ou outras expressões semelhantes. Agora vem um bocadinho extemporânea, ou mesmo atrasada...



 

Cansaço

 


Não sei se é por estar muito cansada mas, depois de uma discussão sobre os benefícios ou malefícios das intervenções estatais, dos caminhos intervencionistas ou liberais de recuperação económica, do valor do trabalho em si, para além do valor da sobrevivência económica, da salvação dos empregos a todo os custo, comparando com a valorização das competências e do mérito, deparo-me com estas duas notícias.


 


Absurdas, graves, inqualificáveis?


 


Devo estar muito cansada.


 

15 fevereiro 2009

Arrival of the Queen of Sheba

 



 


Händel - Arrival of the Queen of Sheba


Amethyst Quartet:


Johnny Salinas - Soprano Saxophone


Sean Hurlburt - Alto Saxophone

Luke Gay - Tenor Saxophone


Zachary Pfau - Baritone Saxophone


 

Taxas que não moderam

 


Nunca percebi a introdução das taxas moderadoras para as cirurgias de ambulatório e para os internamentos hospitalares. Sempre as considerei um erro político e, pelo que então dizia Correia de Campos, não ajudavam ao financiamento do SNS.


 


Parece que há projectos-lei do PCP, BE e CDS para acabar com estas taxas moderadoras. Espero que passem e que o PS reconheça que foi um erro político.


 


Não deixa de ser interessante ver o CDS a votar ao lado do BE e do PCP. As voltas que o mundo dá.


 

O Fado da Procura

 



(Ana Moura)


 


Mas porque é que a gente não se encontra

No largo da bica fui-te procurar

Campo de cebolas e eu sem te encontrar

Eu fui mesmo até à casa do fado

Mas tu não estavas em nenhum lado

Mas porque é que a gente não se encontra

Mas porque é que a gente não se encontra

Já estou sem saber o que hei-de fazer

Se seguir em frente ai madre de deus

Se voltar a trás ai chiados meus

E o rio diz que tarde infeliz

Mas porque é que a gente não se encontra

Mas porque é que a gente não se encontra

Já estou farta disto farta de verdade

Vou beber a bica sentar e pensar

Ver se esta saudade ai fica ou não fica

E talvez sem querer não querem lá ver

Sem te procurar te veja passar

Sem te procurar te veja passar


 

Princípios

 


A desertificação do debate político que leva a uma eleição de um líder com 96,43% dos votos é da responsabilidade dos militantes e dos simpatizantes desse partido, mais especificamente do PS.


 


Se há medo é porque os cargos e os favores são mais importantes do que as ideias e os valores. Mas é um fenómeno transversal a todos os partidos, mesmo a toda a sociedade, basta observar o amorfismo dos partidos da oposição, principalmente do PSD, e da chamada sociedade civil, que se aninha no que acha que é a segurança da paz podre.


 


É precisamente em tempos de crise que se devem questionar as raízes das nossas convicções. O que entendemos que é o nosso papel na sociedade, o que entendemos que deve ser o papel do estado, quais os serviços que deve assegurar, o que entendemos ser a pluralidade de opiniões, a negociação e a decisão de quem tem essa responsabilidade. O que entendemos ser o papel dos sindicatos, o que entendemos ser o sindicalismo nos dias de hoje, o trabalho, a precariedade no emprego, quais os direitos e os deveres dos trabalhadores.


 


Há algo que julgo ser muito importante o PS e Sócrates clarificarem antes das eleições legislativas: qual a política de alianças que defendem após as eleições, caso não tenham maioria absoluta. É que disso também pode depender a votação no PS. Para mim é indispensável que o PS afirme e cumpra que não fará alianças com o PSD e com o CDS/PP. É uma questão de princípios e alguns princípios devem estar na base de um partido que se apresenta a eleições.

 

14 fevereiro 2009

Passeio

 



(pintura de Elohim Sanchez: Couple)


 


Passeamos pelo lado esquerdo

fintamos os passeios atravessamos asfaltos

olhos de água coração de sementes

passeamos pela solidão de nos querermos

em tanto e tão usado tempo

escorremos pelas mãos sem medo

de nos perdermos.

Adiós nonino

 



 


Concerto para bandoneon e orquestra

Astor Piazzola & Cologne Radio Orchestra

SNS e carreiras médicas

Ana Jorge sempre exerceu a sua actividade profissional no SNS e é sua defensora acérrima. Nas suas funções de Ministra tem uma oportunidade única de promover uma verdadeira reforma das carreiras médicas, indispensável para a manutenção e melhoria da qualidade do SNS, nas suas vertentes de serviço público e de sustentabilidade do mesmo.


 


Os médicos são profissionais altamente qualificados e com enormes responsabilidades que prestam um serviço à comunidade. Enquanto servidores do estado devem pugnar porque esse serviço seja o melhor e o mais qualificado, tendo o estado o direito e o dever de defender a saúde dos seus cidadãos.


 


Não é possível esperar mais por essa reforma. As carreiras médicas estão paralisadas e desreguladas, os contratos de trabalho nos vários hospitais EPE e privados precisam de regras, nomeadamente no que diz respeito à qualificação e respectiva remuneração; é necessário que, de uma vez por todas se separem os sectores privado do público, com dedicação exclusiva, plena, o que lhe quiserem chamar, aliciando os médicos ao trabalho a tempo inteiro num determinado sector, dando-lhes condições de trabalho e remuneratórias condignas e exigindo-lhes cumprimento de horários, objectivos, etapas, formação, etc.


 


É hora de investir no sector público, de rentabilizar os blocos operatórios e as consultas, de melhorar e incentivar a formação e a abordagem multidisciplinar dos doentes, de investir na investigação clínica, de promover os rastreios, de centrar o acesso aos cuidados de saúde nos cuidados primários, nos Médicos de Família que trabalham nos Centro de Saúde e nas USFs.


 


Esperemos que o Ministério não perca esta oportunidade e que os Médicos conduzam as negociações de uma forma firme e digna. O comunicado conjunto da Ordem dos Médicos e das Associações Sindicais pode ser uma boa ou uma má notícia. Esperemos que aproveitem a unidade não para uma defesa corporativista que só descredibilizará a classe mas para uma defesa da verdadeira qualificação, certificação e dedicação ao serviço público, não abdicando das condições de trabalho e remuneratórias a que têm direito.

 


 



 

O medo

 


Em relação à detenção de Geert Wilders em solo britânico, vale a pena ler Rui Bebiano e João Tunes.


 


Vão-se somando perigosos precedentes a coberto da defesa da liberdade e da democracia.


 

Telenovela

É extraordinário como se mantém a ficção de negociação entre o ME e a FENPROF. Neste momento a linha estratégica da FENPROF é recorrer aos tribunais para que os professores não cumpram a lei.


 


Vários títulos de jornais acusaram a avaliação de desempenho de inconstitucionalidades, descobrindo-se depois que essa era a opinião de Garcia Pereira que, por muito respeitada que seja, ainda está por provar. Avança-se agora com a teoria das manobras intimidatórias aos professores, porque o ME avisa da obrigatoriedade de entrega dos objectivos individuais para se proceder ao modelo simplificado de avaliação.


 


Quanto às negociações do estatuto da carreira docente, nada é aceite: nem a existência de mais escalões, nem a proposta de prémios para os melhores desempenhos.


 


Não se percebe como é possível manter esta telenovela que tem cada vez menos audiência.

A rapariga que roubava livros

 



 


O poder das palavras, o seu âmago de linimento, carícia, a sua capacidade de fazer a ponte entra a realidade e a ficção, o caminho para a sobrevivência, a capacidade de redenção e salvação.


 


É da força das palavras que trata o livro que me acompanhou nas últimas noites de insónia. Daqueles que queremos muito ler, que nos causa sofrimento e uma deliciosa tristeza, a sensação de que no meio da banalização da dor há clareiras insuspeitas de humanidade, que sempre lá estiveram mas que se revelam a quem está disposto a aceitá-las.


 


A rapariga que roubava livros é um estranho livro, em que a Morte nos vai mostrando os pesos específicos das almas que recolhe abundantemente, em plena II Grande Guerra, num bairro pobre dos arredores de Munique.


 


A linguagem poética, de uma simplicidade abrupta e pictórica, transporta-nos para o sofrimento de alemães comuns, para o dia-a-dia de quem tem um Fhürer a quem deve heil, da juventude hitleriana, das fogueiras de livros, das mortes inevitáveis, da pobreza, da fome, da amizade, da extraordinária bondade mascarada de palavras agastadas, de almas vivas e descarnadas que apenas habitam no coração dos livros, de janelas abertas para quem rouba a sua sobrevivência nas palavras.


 


Fala-nos das caves em que os homens se abrigavam das bombas, de uma rapariga de construía a sua vida a ler e a escrever, que esconjurava os seus demónios junto ao um homem de olhos de prata e com a alma sentada, com um acordeão e apetrechos de pintor.


 


Fala-nos do poder das promessas, dos judeus moribundos, de um judeu escondido entre lençóis e latas de tinta, abraçado pelos livros que recicla e escreve, pelos fragmentos de céu que imagina, pela companhia da alma de Liesel, pela partilha dos pesadelos.


 


É um estranho e um belo livro de Markus Zusak.
 

11 fevereiro 2009

A Moeda do Tempo

 



 


Distraí-me e já tu ali não estavas


vendeste ao tempo a glória do início


e na mão recebeste a moeda fria


com que o tempo pagou a tua entrada


 


Gastão Cruz - A Moeda do Tempo


Prémio Literário Casino da Póvoa - Correntes d’Escritas 2009


 

10 fevereiro 2009

Dignidade no trabalho

 



(pintura de Aleta Gudelski: Laundry Day)


 


Nesta época de crise financeira e económica, antecedida por uma época de lucros desmedidos e inexplicáveis de algumas empresas, de fusões e de despedimentos, deslocalizações e precariedade laboral, o desemprego crescente, a nova pobreza e o descontentamento social mostram à evidência que a globalização deve assentar, tal como hoje foi enfatizou Juan Somavia, Director-geral da OIT, em valores de dignidade humana e de dignidade no trabalho.


 


São necessárias acções conjuntas a nível internacional, porque a intolerância e a xenofobia já começaram a manifestar-se, arrepiando só o imaginarmos a existência de 50 milhões de desempregados. É uma época em que os oportunismos e as falências fraudulentas vão crescer, em que haverá a tentação do regresso ao trabalho de escravo.


 


Temos agora que olhar para os outros e para nós, de nos perguntarmos o que podemos fazer do nosso emprego, como é importante dignificarmos o trabalho com esforço e profissionalismo, até porque temos a capacidade de desenvolver uma actividade, de termos uma remuneração mensal e de podermos participar activamente na sociedade, o que está a ser negado a cada vez mais pessoas.


 


O trabalho é um direito de todos os cidadãos e é um dever que cumprimos para nós próprios e para os outros. Convém que não nos esquecermos desse princípio.

 

07 fevereiro 2009

Thelonius Monk

 



 


 "Round Midnight" - Thelonius Monk Quartet

Aerofone

Há uma coisa que queria dizer, antes que me esqueça:


 


Neste momento está em votação o Aerofone e o nomeados são:


acordeão, bandoneón, clarinete, fagote, flauta, gaita-de-fole, oboé, orgão, trompa, trompete e saxofone.


 


E, já agora, alguém me explica para que serve o Twitter?


 

Promessas

Acabei de ouvir na TSF que o Primeiro-Ministro assume o casamento entre homossexuais e a regionalização eram uma bandeiras para a próxima legislatura.


 


Não consigo entender a falta de seriedade de Sócrates. O PS inviabilizou na Assembleia da República uma lei para a regularização deste assunto, em Outubro do ano passado!


 


E quanto ao referendo, depois de ter prometido um em relação ao Tratado de Lisboa, como poderemos nós acreditar num próximo para a regionalização?


 


A falta de oposição à direita é mesmo uma tragédia. As soluções únicas começam a impor-se com as únicas soluções. Nem no PSD nem no PS se vislumbram alternativas a José Sócrates. E o BE anda à procura de quem queira convergir mas parece que as convergências estão a arredar-se, até porque eles próprios se enredam nas divergências.


 


E depois o Presidente admira-se da falta de interesse pela política.


 

Artigos de opinião

Mesmo assim, nestas manhãs de sábados em que tento restaurar a cabeça, leio jornais.


 


Destaco 2 artigos dos quais não tenho links disponíveis:



  • "Carta aberta a Augusto Santos Silva e Manuel Alegre", de Henrique Neto - Público, pág. 38

  • "Ganância", de José Pacheco Pereira - Público, pág. 39.

Hibernação

Precisava que os dias tivessem muito mais horas e que cada minuto se prolongasse por 90 segundos. Amontoam-se obrigações, compromisso e ideias, que no turbilhão e na catadupa do trabalho se perdem por entre o tumulto da secretária.


 


Já tentei agendas, notas e papelinhos que inexoravelmente se perdem, esquecendo-me sucessivamente de consultar os plannings onde tento registar o que tenho para fazer.


 


Com tudo isso nem tenho tido ânimo de comentar os acontecimentos que não se esquecem de acontecer, mesmo que não haja acontecimentos ou que estes aconteçam por vontade dos criadores de acontecimentos, em vez de por existência própria.


 


Muito se fala do medo existente na nossa sociedade e, mais precisamente, do medo existente no PS. Pobre PS que tão medrosos militantes tem. Pobre PS que tão malheiros militantes tem.


 


Se isto é o retrato do resto dos partidos, do resto do país, bem podemos continuar nesta vida em que se debatem factos que não se sabem se existem ou não, suspeitas de corrupção e famílias de políticos, em vez de ir ao âmago das questões.


 


Há corrupção na nossa sociedade, há uma ineficácia atroz do nosso sistema de justiça, há um desgaste e um cansaço de todos perante tanto barulho para nada.


 


Os dinheiros públicos, as decisões dos governantes, etc., devem estar sob escrutínio público e o jornalismo livre e responsável é essencial na democracia. Mas quem escrutina as informações veiculadas pelo jornalismo se o sistema judicial não funciona?


 


O debate político está parado, esperemos que apenas em hibernação.


 


Sendo assim, vou aproveitando os 60 segundos de cada minuto para me dedicar aos múltiplos afazeres que me abafam. Vá lá que o dia hoje parece mais brilhante.

 

05 fevereiro 2009

Traulitadas

O estilo trauliteiro do Ministro dos Assuntos Parlamentares demonstra que ele decerto levou uma traulitada na cabeça.


 


Deve ser por isso que têm medo, os militantes socialistas, das traulitadas de Santos Silva. Manuel Alegre vai mantendo o estilo reserva moral do PS até ao bocejo.


 


No país em grande e caótica cavalgada para uma crise que se alimenta das traulitadas dos bancos, dos empresários e dos desgraçados que regressarão das terras para onde emigraram, ouvimos as esperanças governativas e o seus comentadores e opositores destratarem-se, falando de medo e de situacionismo, em linguagem desadequada e cansativa.


 


Chega e sobra para o aumento da desesperança.

01 fevereiro 2009

Barcelona

 



Giulia y los Tellarini


 


 


Por qué tanto perderse

tanto buscarse, sin encontrarse.

Me encierran los muros de todas partes.

Barcelona


 


Te estás equivocando

no puedes seguir inventando

que el mundo sea otra cosa

y volar como mariposa.

Barcelona


 


Hace un calor que me deja

fría por dentro

con este vicio de vivir mintiendo

que bonito sería tu mar

si supiera yo nadar.

Barcelona


 


Mi mente tan llena

de cara de gente extranjera,

conocida, desconocida

he vuelto a ser transparente.

No existo más.

Barcelona


 


Siendo esposa de tus ruidos

tu laberinto extrovertido

no he encontrado la razón

por qué me duele el corazón

Barcelona


 


Porque es tan fuerte

que sólo podré vivirte

en la distancia y escribirte

una canción.

Te quiero, Barcelona


 

Breve canção

 



(pintura de Connie Chadwell: A Little Tango)


 


Breve a canção de despedida

entre nuvens penumbras de nós dois

breve a canção entristecida

entre dúvidas de antes e depois.


 


Breve a canção morte querida

divididos os versos sem amor

breve a canção desvanecida

do sangue do sonho e da dor.


 


Breve o momento em que somos

o antes da canção que nos queimou

no amor dos versos que compomos

o depois do amor que nos cegou.

 

Entre dos aguas

 



 


Paco de Lucia


 

Vicky Cristina Barcelona

 


 



 


História de estereótipos de mulheres, de homens e mulheres latinos, do amor em Barcelona e Oviedo, do flamenco e das guitarras, do artista enquanto desequilíbrio e criação, autodestrutivo, das fantasias e da liberdade sexual de quem não tem barreiras.


 


Estereótipos gentis e credíveis, amáveis caricaturas do que somos, filhos do ambiente, das pedras, do vinho, das flores, das cores das cidades meio indígenas aos olhos de um americano como Woody Allen.


 


Não no seu melhor, mas um filme leve e, ao mesmo tempo, um filme que se nos cola como uma máscara invisível, mas que nos assenta bastante bem.

Os Insones

 



 


Tony Bellotto é um escritor brasileiro que também é guitarrista de uma banda rock – Titãs.


 


Não conheço nada da banda rock mas li de novo um livro escrito por ele, Os Insones, que foi uma prenda de Natal gostosíssima.


 


É uma escrita veloz e meio alucinada, totalmente cinematográfica, em que conseguimos ver as personagens e as acções a desenrolarem-se por detrás dos nossos olhos.


 


A violência nas favelas, nos lares da classe média, os idealismos e a sobrevivência sem ideias, as referências adolescentes, as drogas, o cansaço da vida arrumada, a procura do que há do outro lado, a solidariedade, os gangs e a morte, omnipresente, crua e como um hino à insónia de nos imaginarmos num mundo que é assim, mesmo ao lado das nossas vidas, mesmo a entrar-nos pela porta dentro.


 


É muitíssimo bom e, por ironia suprema, li-o em noites de insónia.

Ministério da Saúde - Ana Jorge

A Ministra da Saúde iniciou o seu mandato sob o signo do apaziguamento e de colocar em banho-maria as reformas impopulares que Correia de Campos tinha iniciado.


 


Mais uma vez, a pressão mediática pouco inocente todos os dias ecoava a indignação das populações, os partos nas ambulâncias, as mortes por atraso no socorro, etc.


 


Miraculosamente tudo se apagou desde que Ana Jorge tomou posse. Inclusivamente a situação em Anadia caiu no esquecimento, tendo ficado exactamente na mesma. Os jornalistas nunca mais se lembraram de alertar para essa grande injustiça e ataque à saúde da população.


 


Ana Jorge é uma Ministra que se tem mantido fora das luzes da ribalta, o mais possível. Mas agora recomeçam a virar os holofotes para o que diz.


 


A sua afirmação de que os prematuros deveriam ser tratados apenas em hospitais públicos tem pouco de ideológico e tem muito de profissionalismo e acautelamento da saúde dos mesmos prematuros. O treino de uma equipa de Neonatalogia, médicos e enfermeiros, as condições técnicas e o investimento nessas unidades e, principalmente, o número de prematuros que devem ser assistidos para garantir a melhor competência das equipas não se compadece com a multiplicação de serviços de Neonatalogia em unidades privadas. Aliás, de imediato, o próprio Bastonário da Ordem veio afirmar que esse investimento não interessa às unidades privadas.


 


A defesa do SNS, que Ana Jorge tem inscrita no seu percurso profissional, é uma esperança para que as negociações entre as estruturas sindicais e o ministério corram da melhor forma.


 


A falta de médicos de que muitos governos são responsáveis, pela manutenção de um numerus clausus totalmente irrealista, alimentado pela Ordem dos Médicos, é agora um assunto de emergência nacional. Não há médicos suficientes, os que existem estão numa faixa etária elevada, o que não permite a renovação dos serviços nem a manutenção da qualidade do atendimento por exaustão de meios humanos.


 


Não concordo com a ideia de trazer estudantes portugueses de medicina nas Universidades de Espanha e da República Checa para acabarem o curso em Portugal, porque considero que isso é uma afronta a quem, por motivos económicos, não conseguiu seguir a sua vocação. Mas acho que devem ser dadas todas as condições a quem acaba essa licenciatura, de concorrer em pé de igualdade com os médicos que se formaram em Portugal. Ou até dar-lhes alguns incentivos, pois eles estarão a concorrer já num mercado internacional. Também, haverá injustiça nestas situações, mas será menor e, a verdade é que não há muitas soluções.


 


A tentativa de formação e acreditação dos cursos de medicina e de especialidades médicas de profissionais vindos de países fora da União Europeia, que tem estado a ser efectuado em conjunto com a Fundação Gulbenkian, é também uma proposta de solução. Assim como a possibilidade de abrir vagas para licenciados em áreas de ciências da saúde para quem sempre quis tentar medicina. Não conheço a realidade da Universidade do Algarve, os seus curricula ou os seus métodos de ensino, por isso não me posso pronunciar, mas obviamente é preciso que não tenhamos médicos de primeira e de segunda, sem credibilidade para exercer medicina e tratar os doentes com todos os requisitos de competência e rigor que se exigem aos formados nas outras Faculdades de Medicina.


 


As opções não são muitas. E ainda bem que há ideias, mesmo que algumas não sejam fantásticas. O problema é emergente.

 


Quanto ao facto de os problemas do SNS estarem na sua organização e de serem responsabilidade das Administrações Hospitalares e Direcções dos Serviços, é absolutamente verdade. Mas não é menos verdade que as Administrações são nomeadas pelo Ministério da Saúde. Onde está a avaliação e a demissão dos que não cumprem?


 



 


 

Luta política em baixa versão

Não é possível tentar ignorar a pouca vergonha do que se tem passado com o caso Freeport.


 


Não se trata da investigação do MP, do DCIAP, da PGR, sei lá mais de quem. Trata-se apenas de, a reboque de uma investigação que, como de costume, se arrasta penosamente e sem brio em todos os casos e mais gravosamente, em todos os que envolvem responsáveis políticos, fazer assassinato de caracter com fins políticos.


 


Não é possível tentar ignorar a verdade. A justiça está a ser usada e instrumentalizada por quem está interessado em descredibilizar o Primeiro-Ministro. Tudo é usado, até a compra de uma casa pela mãe de José Sócrates, anos antes do caso que, alegadamente, como agora se diz, está a ser investigado.


 


No início o processo Casa Pia acreditei piamente que haveria gente com cargos de responsabilidade pública que estariam envolvidos, e sempre esperei que a justiça prevaleceria. O resultado foi coisa nenhuma, as prometidas revelações e os terramotos que se iriam sentir apenas se concretizaram na decapitação política do aparelho do PS.


 


Esta é a realidade.


 


José Sócrates não está acima da lei, tal como não está Mário Crespo, Daniel Oliveira, Marcelo Rebelo de Sousa, a D. Anabela do café da esquina ou seja quem for. Se há indícios que levam a investigar processos pouco claros que se investiguem, o que não é possível é manter por semanas esta pressão em cima de um cidadão, com a sensação de que o que interessa não é chegar à verdade.


 


Neste caso, como noutros, a verdade é o que menos interessa. Isto é luta política, na sua mais baixa versão.


 

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