14 fevereiro 2009

A rapariga que roubava livros

 



 


O poder das palavras, o seu âmago de linimento, carícia, a sua capacidade de fazer a ponte entra a realidade e a ficção, o caminho para a sobrevivência, a capacidade de redenção e salvação.


 


É da força das palavras que trata o livro que me acompanhou nas últimas noites de insónia. Daqueles que queremos muito ler, que nos causa sofrimento e uma deliciosa tristeza, a sensação de que no meio da banalização da dor há clareiras insuspeitas de humanidade, que sempre lá estiveram mas que se revelam a quem está disposto a aceitá-las.


 


A rapariga que roubava livros é um estranho livro, em que a Morte nos vai mostrando os pesos específicos das almas que recolhe abundantemente, em plena II Grande Guerra, num bairro pobre dos arredores de Munique.


 


A linguagem poética, de uma simplicidade abrupta e pictórica, transporta-nos para o sofrimento de alemães comuns, para o dia-a-dia de quem tem um Fhürer a quem deve heil, da juventude hitleriana, das fogueiras de livros, das mortes inevitáveis, da pobreza, da fome, da amizade, da extraordinária bondade mascarada de palavras agastadas, de almas vivas e descarnadas que apenas habitam no coração dos livros, de janelas abertas para quem rouba a sua sobrevivência nas palavras.


 


Fala-nos das caves em que os homens se abrigavam das bombas, de uma rapariga de construía a sua vida a ler e a escrever, que esconjurava os seus demónios junto ao um homem de olhos de prata e com a alma sentada, com um acordeão e apetrechos de pintor.


 


Fala-nos do poder das promessas, dos judeus moribundos, de um judeu escondido entre lençóis e latas de tinta, abraçado pelos livros que recicla e escreve, pelos fragmentos de céu que imagina, pela companhia da alma de Liesel, pela partilha dos pesadelos.


 


É um estranho e um belo livro de Markus Zusak.
 

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