A atitude do Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de contribuir para a credibilização e prestígio da classe médica, apenas serve para a fechar sobre si própria e afastá-la cada vez mais da restante comunidade.
O poder dos médicos, enquanto senhores de um saber que lhes dava acesso às portas da vida e da morte, conferia-lhes um halo de sacerdócio tão importante como o dos ministros religiosos.
A abertura ao conhecimento, a democratização da informação e do acesso ao saber, foi corroendo a relação entre os médicos e a restante população, porque estes se fecham e resistem com atitudes, normas e dogmas que se vão desadequando cada vez mais da sociedade em que vivem, e se vão afastando cada vez mais da verdadeira prática profissional.
Se a existência de um código deontológico se pode aceitar como normal, pela regulamentação de práticas e normas de conduta que protejam as populações de actuações erradas, abusivas, negligentes e pouco éticas, a declaração de não proceder conforme esse código questiona de imediato a pertinência desse mesmo regulamento ético.
Por outro lado, se o código deontológico se arroga como defensor da consciência dos médicos, a consciência individual é privada e o comportamento individual é regulado pela lei e pelo sistema judicial pelo que, mais uma vez, se questiona a necessidade de regulamentação de uma consciência colectiva.
As normas de conduta foram-se modificando ao longo dos séculos e aquilo que era crime há uns anos deixou de ser considerado como tal, assim como atitudes aceitáveis e até desejáveis há 50, 100, 200 anos, são agora olhadas como verdadeiros crimes.
Ao Bastonário da Ordem dos Médicos pede-se que defenda o saber, a formação, a idoneidade dos seus associados, que valorize os médicos naquilo que têm de valorizável, não a manutenção de atitudes anacrónicas, protestos de independência e superioridade moral, tão eloquentes como vazios, defendendo o indefensável.