30 novembro 2007

Não sou o único

Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o céu
A ver os sonhos partirem
À espera que algo aconteça
A despejar a minha raiva
A viver as emoções
A desejar o que não tive
Agarrado às tentações

E quando as nuvens partirem
O céu azul ficará
E quando as trevas abrirem
Vais ver, o sol brilhará
Vais ver, o sol brilhará

Não, não sou o único
Não, sou o único a olhar o céu
Não, não sou o único
Não, sou o único a olhar o céu

Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o céu
A ouvir os conselhos dos outros
E sempre a cair nos buracos
A desejar o que não tive
Agarrado ao que não tenho
Não, não sou o único
Não sou o único a olhar o céu

E quando as nuvens partirem
O céu azul ficará
E quando as trevas abrirem
Vais ver, o sol brilhará
Vais ver, o sol brilhará

(letra: Zé Pedro; música: Xutos & Pontapés; cantam: Resistência)

Prémio

Não sei se mereço este prémio. Mas tenho a certeza de quem mo encaminhou merece. Por isso lhe agradeço e continuo a corrente, para outros blogues. A eles ninguém os cala!

E as regras são:
  1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que consideras serem bons, entende-se como bom os blogs que costumas visitar regularmente e onde deixas comentários.
  2. Só e somente se recebeste o prémio “Diz que até não é um mau blog”, deves escrever um post:
    - Indicando a pessoa que te deu o prémio com um link para o respectivo blog;
    - A tag do prémio;
    - As regras;
    - E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio.
  3. Deves exibir orgulhosamente a tag do prémio no teu blog, de preferência com um link para o post em que falas dele.
  4. (Opcional) Se quiseres fazer publicidade ao blogger que teve a ideia de inventar este prémio, ou seja – Skynet - podes fazê-lo no post).

E o prémio segue para:

Sem vergonha

Há algumas notícias que me deixam estarrecida, pelo que revelam de desvergonha e sensação de impunidade.

Uma é a de que Fátima Felgueiras utilizou dinheiro da autarquia para financiar a sua fuga para o Brasil, assim como as custas do seu advogado.

Outra é a que nos dá conta dos comentários de responsáveis pela autarquia lisboeta, que brincam com os seus munícipes e com o dinheiro dos contribuintes.

Não fiz greve

Eu hoje não fiz greve.

Por muito que me incomodem alguns indicadores como o aumento do fosso entre os muito ricos e os muito pobres, os lucros obscenos no sector bancário, os oligopólios das empresas de comunicação e petrolíferas, o poder de grupos profissionais que emperram a mudança, apesar de tudo, este governo tem sido o melhor governo que temos desde há muitos anos, desde os governos de Guterres.

Todos os trabalhadores têm razão de queixa, não são só os funcionários públicos. E ao contrário da intensa campanha que nos tenta convencer que este governo é de direita, que quer desmantelar o SNS, a educação pública, acabar com as reformas e empobrecer a população, o que eu vejo é uma tentativa honesta e inadiável de reformar o estado, de gerir melhor os recursos, de tentar equilibrar as contas públicas.

Adenda: não deixando de registar a coincidência de ter saído hoje, a sondagem TSF/DN/Marktest demonstra que o PS está, novamente, perto da maioria absoluta. Se calhar, há mais pessoas a pensar como eu.

28 novembro 2007

Grupo Folclórico de S. Bento

O grupo parlamentar do PCP está cada vez mais a parecer-se com um grupo folclórico de S. Bento. Arcaico mas vistoso, anacrónico mas estridente.

Valha-nos Santo Ambrósio.

Aeroportos

Agora todos os partidos têm um estudo altamente científico e inquestionável quanto à melhor localização do novo aeroporto. Cada um mais barato que o anterior.
  • CDS/PP - Portela +1P
  • PD/PSD - Alcochete
  • PS - Ota
O LNEC vai ter uma trabalheira para comparar tantos e tão maravilhosos estudos.

Valha-nos Santo Ambrósio.

25 novembro 2007

Novembro, 25, 1975

Há 32 anos não fui ao liceu. Havia qualquer coisa no ar. Lembro-me do clima de suspeição conspirativa que reinava nos supermercados da zona, da agitação constante no liceu, na rua, nas fábricas, no parlamento, ameaças várias de reacção, ameaças contra a reacção, do Pinheiro de Azevedo a puxar os suspensórios, do Vasco Lourenço a suceder a Otelo Saraiva de Carvalho, o amigo da revolução, do Vasco Gonçalves desgrenhado e alucinado, levando a revolução a reboque, das manifestações e contra manifestações, do constante matraquear da muralha d’aço, do meu pai à janela, à espera que aparecêssemos, coisa inédita e nunca vista.


E depois do jantar daquele dia fora do normal, em que a ausência do meu pai já era hábito, a minha vizinha embrulhada em mantas ou xailes, ou qualquer coisa levemente cor-de-rosa e felpuda, aninhar-se no sofá da sala, com aspecto preocupado, pois o seu marido também faltava muito, nos dias que corriam.

Inusitadamente ouvíamos o Capitão Duran Clemente, a explicar qualquer coisa que ninguém entendia, mas todos entendiam que o camuflado na tv não trazia bons augúrios, e inusitadamente começamos a ver um filme cómico com o Danny Kaye, o que nós adorámos até porque a minha mãe, inusitadamente, não nos mandava para a cama, tão enrolada como a vizinha em xailes ou mantas, levemente acastanhadas.

Depois foi Ramalho Eanes, as suas patilhas e os seus óculos escuros, Melo Antunes, a salvar os comunistas da perseguição e do anonimato, Jaime Neves a passear o seu ar ameaçador por todo o lado.

Esse foi o dia em que se refundou o 25 de Abril, em que a utopia de alguns acabou para dar lugar à realidade da democracia pluralista.

Ainda bem que assim foi.

Catedral

Barricada na minha própria catedral
imune aos ruídos do bulício
gozo antecipadamente a antecâmara
da eficiência.

Horas enroscadas de preguiça.

(pintura de Ewa Sadowska: Cathedral-1)

Boas vontades

Candidamente, o ministro Correia de Campos reconheceu as trapalhadas das contas do SNS e, candidamente, prometeu levar em conta as críticas e recomendações do Tribunal de Contas.

Menos candidamente o ministro Teixeira dos Santos não explicou a mudança de estatuto da Estradas de Portugal, nem um período de 75 ou 99 anos de atribuição de uma concessão.

Candidamente, assistimos à substituição da discussão política, pública e parlamentar das opções das atribuições do estado, desde a suposta funcionalização dos magistrados, à descapitalização e inferiorização das forças armadas, ao esvaziamento das funções prestadoras como a educação e a saúde.

Candidamente arrebatamo-nos com as peripécias de histórias que se dizem e se desdizem, que incendeiam os bons sentimentos dos bons cidadãos, desta nossa mole de gente bem intensionada e mansa.

Cobardes ou apenas e só superiormente sábios, perante a imaginação de fazedores de factos e opiniões, de tanta ineficácia governativa, de tanta indigência da oposição.

Mas estamos na época das boas vontades universais, bem cobertas de bolas vermelhas e publicidade enganosa, créditos fantásticos que nos permitem forrar as paredes de plasmas e filmar-nos a comer bolo-rei
.

24 novembro 2007

Fuga


Fecho as portas e a chaminé
para Dezembro não tenho espaço
as paredes cobrem abraços e fé
que eu acordo lá para Março.

Em vão

Em vãos gestos de alegria
suporto a certeza do mundo
numa teia apertada invisível
em lenta
rota
previsível.

(pintura de Christopher Le Brun: the speech of light)

22 novembro 2007

Que contas são essas, Sr. Ministro?

A sustentabilidade financeira do SNS tem sido uma das bandeiras do ministro Correia de Campos para concretizar muitas das políticas de saúde a que temos assistido, nomeadamente a manutenção e alargamento do modelo Hospitais-Empresa.

A notícia veiculada pelos media sobre as questões levantadas pelo Tribunal de Contas, relativamente às contas do SNS de 2005 e 2006 são muitíssimo preocupantes e requerem urgente esclarecimento do ministro.

Se a seriedade das contas, da metodologia e da apresentação dos resultados é posta em causa, ou se demonstra que não há razão para tal ou quem deixa de ser sustentável é esta política de saúde.

Em que ficamos?

Maus hábitos

Durante o dia de ontem, desde manhã, que ouvimos, nas rádios, incitações para acarinharmos a selecção, pois se apoiássemos a selecção os jogadores teriam muita vontade de corresponder e dar alegria aos portugueses. Fomos lembrados pelo treinador Scolari, que devíamos vaiar o seleccionador e os jogadores finlandeses, independentemente do que a selecção fizésse.

Portanto, se quiséssemos ter um bom espectáculo, teríamos que mostrar à selecção quanto a amamos, para que ela, na sua infinita generosidade, se dignasse dar um bom espectáculo.

No fim de mais um jogo da selecção (de que só vi resumos), determinante para o apuramento da fase final do campeonato europeu, depois de os portugueses, obedientemente, terem apoiado a selecção, o jogo terminou empatado e, dizem os entendidos, ninguém vibrou com a qualidade.

Pois Scolari, no auge da sua importância, indignado pela falta das humildes criaturas que ousam dizer que Portugal não joga bem e que o apuramento foi sofrido, ofende-se enormemente e abandona a sala com estrépito.

Nós estamos, de facto, mal habituados, pois aguentamos estas notícias e estas estopadas todas, estas arrogâncias e estas prima donas, dando-lhes a importância que elas não merecem.

Infância

Onde estão o pião e o arco com que brincávamos,
o que foi feito do pátio e da casa enorme,
em que momento perdemos a inocência da infância?
O tempo era o nosso maior brinquedo
mas isso foi antes de termos relógios
e de sermos controlados por eles,
isso foi antes de termos agendas e calendários
para tornar os dias previsíveis e antecipados.
Inventávamos o mundo,
éramos cowboys, índios, marcianos,
podíamos ser tudo por sermos crianças
e não tínhamos imagens para nos aprisionar os sonhos.
Sabíamos talvez menos sobre as coisas
mas as descobertas eram nossas
e as sensações que tínhamos eram mais verdadeiras
porque não condiziam com as que vêm nos manuais.
Dizem que todas as infâncias são lugares mágicos
mas a nossa, por ser nossa e única,
tem uma magia que ultrapassa as palavras
e obriga-nos a libertar outra vez a criança
que o tempo submergiu neste nosso corpo das certezas.


(poema de José Torres; fotografia de Shirley Baker: street kids)

18 novembro 2007

A Original

Bonnet de la liberté

Liberdade, igualdade, fraternidade.

Bóina de esquerda


Cantos

Encontro cantos
esquinas neste espaço
curvas de tempo
por gastar.

Escrevo enquanto
me lembrar
dos olhos das mãos
do teu olhar.


(pintura de Rose Lynn: Eagle’s Nest & Blue Sky)

Como se brincava antes da PlayStation

Com o post anterior respondi ao desafio que me fez José Simões, do DER TERRORIST, sobre como se brincava antes da PlayStation (Com'eravamo, i giochi prima della PlayStation).

Éramos mais livres, aprendíamos com tentativas e erros, as nossas famílias confiavam mais na humanidade, em geral, e em nós, em particular. E nós confiávamos uns nos outros, só chamávamos os adultos em último caso. O mundo era o nosso reino e os pais, avós, enfim, as pessoas crescidas, só serviam para atrapalhar.

Passo esta corrente (mais uma) a outros cinco blogues:

Férias grandes

O Avô já tinha saído, aí pelas 5 da manhã, bem pela fresquinha, segundo ele. Até à Tapada eram uns 2 quilómetros a pé, por caminhos de terra que atravessavam a aldeia, onde homens e animais partilhavam os passos.

O Avô era muito poupado, aproveitando tudo o que a natureza dava, mesmo que fosse o desperdício de alguma natureza, como o estrume dos burros e dos cavalos, que ele recolhia religiosamente levando, tão precavido que era, uma pá e um saco para o depositar. Era para adubar a terra, dizia ele aos netos que lhe perguntavam, angélicos mafarricos, para que queria ele bostas de burro.

Eram os Cinco, todos os Verões, mesmo que o cão fosse a criança mais nova. Tendo entre os 12 e os 5 anos, caminhavam sozinhos de madrugada, durante cerca de 2 quilómetros, sem telemóvel, cotoveleiras ou joelheiras, sem água nem comida, sem adultos por perto, e ficavam a manhã inteira a subir aos cabeços, com sandálias escorregadias, a picarem-se nos cactos, a comerem fruta das árvores, cheias de pó, maduras ou verdes de mais, em quantidades industriais, a caírem e a ferirem os joelhos e as cabeças, a pegarem em lagartixas para se assustarem uns aos outros.

Não havia melhor coisa no mundo. As partidas de badminton no quintal, com a corda da roupa a servir de rede, os jogos de escondidas, em que o mais afoito e admirado por tal feito se escondia na pocilga dos porcos, pelo que ninguém o iria encontrar nunca, embora a retrete antiga, numa casinhota com aspecto infecto, e o galinheiro ou a coelheira, também fossem lugares a que poucos se arriscavam.

A adega e o forro, cheios de tralhas antigas, móveis estropiados, arcas em que os livros contavam histórias de um amor ridículo e proibido, como proibida era a leitura de qualquer livro que não fosse Uma família Inglesa, As pupilas do Senhor Reitor, As duas Mães e poucos mais, umas escadas imensamente perigosas, que rangiam horrores, não tinham corrimão e estavam às escuras, pregos ferrugentos, toneladas de pó branco e espesso, de muitos e muitos anos, que se viam pairando no ar, pela luz baça que entrava pelo telhado, uma enorme quantidade de perigos que eles adoravam e que ninguém parecia entender.

Abandonados à sua própria sorte mas inigualavelmente felizes.

(pintura de Andrew Macara: three boys with tyres)

17 novembro 2007

Chapéus de esquerda


Abraço

Sabem – me a sal
as sombras do navio.
Basta que me abraces
e um infinito de ondas
solta-se na sede imensa
de navegar.

Sabem-me a sol
as ondas deste rio.
Basta que navegues
e solta-se a sede
no imenso infinito
do teu abraço.

(pintura de Evelyn Williams: Lovers I)

Anacronismo deontológico

A atitude do Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de contribuir para a credibilização e prestígio da classe médica, apenas serve para a fechar sobre si própria e afastá-la cada vez mais da restante comunidade.

O poder dos médicos, enquanto senhores de um saber que lhes dava acesso às portas da vida e da morte, conferia-lhes um halo de sacerdócio tão importante como o dos ministros religiosos.

A abertura ao conhecimento, a democratização da informação e do acesso ao saber, foi corroendo a relação entre os médicos e a restante população, porque estes se fecham e resistem com atitudes, normas e dogmas que se vão desadequando cada vez mais da sociedade em que vivem, e se vão afastando cada vez mais da verdadeira prática profissional.

Se a existência de um código deontológico se pode aceitar como normal, pela regulamentação de práticas e normas de conduta que protejam as populações de actuações erradas, abusivas, negligentes e pouco éticas, a declaração de não proceder conforme esse código questiona de imediato a pertinência desse mesmo regulamento ético.

Por outro lado, se o código deontológico se arroga como defensor da consciência dos médicos, a consciência individual é privada e o comportamento individual é regulado pela lei e pelo sistema judicial pelo que, mais uma vez, se questiona a necessidade de regulamentação de uma consciência colectiva.

As normas de conduta foram-se modificando ao longo dos séculos e aquilo que era crime há uns anos deixou de ser considerado como tal, assim como atitudes aceitáveis e até desejáveis há 50, 100, 200 anos, são agora olhadas como verdadeiros crimes.

Ao Bastonário da Ordem dos Médicos pede-se que defenda o saber, a formação, a idoneidade dos seus associados, que valorize os médicos naquilo que têm de valorizável, não a manutenção de atitudes anacrónicas, protestos de independência e superioridade moral, tão eloquentes como vazios, defendendo o indefensável.

Em suspenso

Não olho
não falo
não ouço
não sinto as migalhas
de ar
a seda dos dias
não conto as batidas
do tempo.

Estou em suspenso
espero.

(pintura de Herman Pekel: Afternoon Coffee Break)

15 novembro 2007

Ética e deontologia

  • Código Deontológico
    ARTIGO 47.º
    (Princípio Geral)
    1. O Médico deve guardar respeito pela vida humana desde o seu início.
    2. Constituem falta deontológica grave quer a prática do aborto quer a prática da eutanásia.
    3. Não é considerado Aborto, para efeitos do presente artigo, uma terapêutica imposta pela situação clínica da doente como único meio capaz de salvaguardar a sua vida e que possa ter como consequência a interrupção da gravidez, devendo sujeitar-se ao disposto no artigo seguinte.
  • Estatuto Disciplinar dos Médicos
    Artigo 17.º
    Suspensão
    1. A pena de suspensão é aplicável às seguintes infracções:
    a) Desobediência a determinações da Ordem dos Médicos, quando estas correspondam ao exercício de poderes vinculados atribuídos por lei;
    b) Violação de quaisquer deveres consagrados em lei ou no Código Deontológico e que visem a protecção da vida, da saúde, do bem-estar ou da dignidade das pessoas, quando não lhe deva corresponder sanção superior.
    2. O encobrimento do exercício ilegal da medicina é punido com pena de suspensão nunca inferior a dois anos.

O Bastonário da Ordem dos Médicos deu uma conferência de imprensa para dizer que não alteraria o código deontológico, de forma a que os médicos que pratiquem o aborto antes das 10 semanas de gravidez, ou seja, dentro dos preceitos legais que regem o país, sejam vistos como autores de falta grave e, portanto, punível com pena de suspensão.

Mais afirmou o Bastonário da Ordem dos Médicos que nenhum médico seria punido se praticasse o aborto dentro dos limites da lei.

Mais afirmou o Bastonário da Ordem dos Médicos que o pensamento dos médicos não muda só porque se altera a lei, e que a Ordem assume a subordinação dos seus regulamentos à lei do país.

Não percebo como é que uma Ordem profissional cujos regulamentos se subordinam à lei do país tem regulamentos que punem o que as leis do país consideram legal. Não percebo como é que uma Ordem profissional tem um estatuto disciplinar que publicamente se compromete a não cumprir.

Não percebo onde está a ética e a deontologia de tudo isto.

Adenda: a propósito deste assunto, ler também As palavras e os actos, de João Pinto e Castro, no ...bl-g- -x-st-; Pedro “versão soft Jardim” Nunes?, de Ana Matos Pires, no cinco dias; Teimosia e faz-de-conta, de Vítor Dias, em o tempo das cerejas*; as certezas absolutas têm prazo de validade, de Cristina Vieira, no Contra Capa

A flor na boca

Fim de tarde saboreando palavras, gestos, cada um absorvendo os tons, respirando a calma dos poemas.

Poesia clara, verde e terra, de luz, de frémitos, descobertas, fragmentos de natureza.

Membros de uma comunidade virtual, juntos em real comunhão.


Abocanhar a terra,
molhada do orvalho da manhã;
Mordê-la, triturá-la nos dentes
até à dor.
Esperar pacientemente a Primavera
e sorrir à flor
que nascerá na boca


(poema de Vasco Pontesdovoar)

14 novembro 2007

O sino

Descrente das letras das cinzas
que ensaio e esqueço.

Descrente do tempo das cordas
que enrolo de dedos.

Acordo o sino.

(pintura de Kim Maple: bells)

Os decisores

A localização do novo aeroporto está novamente na ordem do dia. Cavaco Silva deixa no ar a sugestão de que será o resultado dos estudos comparativos efectuados pelo que serão o factor decisório.

Por muito que defenda a importância dos estudos científicos e técnicos que apoiem as decisões políticas, não foram os cientistas que foram eleitos para governar, mas sim os políticos.

As decisões estratégicas de desenvolvimento e ordenamento do país têm que ser da esfera política.

Espero que o Primeiro-Ministro e que o Presidente da República não esvaziem as suas próprias funções.

A retaliação

O acenar da prepotência do rei de Espanha pelos resquícios do colonialismo é ridículo. A Venezuela tornou-se independente na primeira metade do século XIX, portanto já teve tempo de se curar dos desmandos do colonialismo espanhol.

A retaliação de Hugo Chávez à impaciência e irritação de Juan Carlos não se fez esperar. Se agora se ameaçam as empresas espanholas, avisando que serão mais fiscalizadas, será que amanhã não poderá chegar a vez dos cidadãos espanhóis?

13 novembro 2007

Múltiplas campanhas

Está em curso uma enorme campanha de desacreditação do estudo da CIP, que defende Alcochete como a melhor localização para o novo aeroporto, segundo diz Francisco van Zeller, e que terá sido Mário Lino que mandou a RAVE destruir o estudo científico que cientificamente demonstra que é tudo muito melhor em Alcochete.

Ninguém se deu foi ao trabalho de desmentir o que a RAVE disse sobre o traçado do TGV, sobre a perda de passageiros e as incorrecções técnicas das pontes.

Por isso é que me assalta a dúvida de quem terá creditado o estudo da CIP. Terá sido Francisco van Zeller? Mais interessante é a descredibilização do LNEC, que parece que já se iniciou, mesmo antes desse organismo se pronunciar.

O mistério da digitalização de Portas

Paulo Portas terá, alegadamente, mandado digitalizar 62000 documentos, uma semana antes das eleições.

Como Paulo Portas justificou esse seu extraordinário acto com o fim de guardar notas pessoais, algumas hipóteses devem ser analisadas:
  1. Durante essa semana, Paulo Portas passou todos os segundos a escrever e a digitalizar notas pessoais – 8857.14 notas pessoais por dia, 369.04 notas pessoais por hora, 6.15 notas pessoais por minuto;
  2. Paulo Portas digitalizou as notas pessoais todas que escreveu desde que nasceu, durante essa semana;
  3. Paulo Portas receava que não houvesse mais digitalizadores fora do Ministério da Defesa;
  4. Paulo Portas vendeu todos os digitalizadores do país para angariar fundos para a compra dos célebres submarinos;
  5. Paulo Portas estava a coligir segredos para se transformar num agente secreto;
  6. Paulo Portas estava possuído.

Sugere-se a constituição de uma comissão de inquérito para apurar urgentemente as circunstâncias deste mistério, que ultrapassou em muito os mistérios das aparições da Virgem, em Fátima, pois é mais difícil escrever 6,15 notas pessoais por minuto do que se empoleirar numa árvore.

11 novembro 2007

Pasión

No, no digas que yo me muero
Amor, mi vida es sufrimiento
Yo te quiero en mi camino
Por vos cambiaba mi destino

Ay, abrazame esta noche
Y aunque no tengas ganas
Prefeiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas
Acercate a mí, abrazame a ti por Dios
Entregate a mis brazos

Tengo un corazón ganando
Yo sé que vos me estas escuchando
Con mis lagrimas te quiero
Pasión, sos mi amor sincero

Ay, abrazame esta noche
Y aunque no tengas ganas
Prefeiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas
Acercate a mí, abrazame a ti por Dios
Entregate a mis brazos


(Rodrigo Leão: pasión)

¿Por qué no te callas?

Já vi o excerto da cimeira ibero-americana sobre a irritação de Juan Carlos, face ao destempero e má educação de Hugo Chávez. Aqueles que tanto falam de democracia e liberdade de expressão, negam a liberdade do mais alto representante do estado espanhol se indignar publicamente, quando um dos seus governantes é publicamente enxovalhado.

Tudo em abono da sã convivência hipócrita e da pseudo-democracia, tão caras a certos comentadores.

Sou republicana e a ideia de monarquia é, para mim, um anacronismo. Mas dizer que Juan Carlos deveria ter estado calado porque não tem a legitimidade do voto espanhol é totalmente descabido. Tem a legitimidade que lhe vem de uma constituição sufragada democraticamente, já para não falar do facto de ter sido um elemento importantíssimo na construção da democracia espanhola.

Apatia e desinteresse

A discussão do orçamento do estado para 2008 não aconteceu. Penso que a única pessoa que acreditou que se iria discutir alguma coisa foi mesmo Santana Lopes.

Foi triste, pobre e folclórico, com as frases mais bombásticas a serem repetidas até ao infinito pelas televisões, mas nem chegaram a desencadear qualquer reacção.

Apaticamente tudo foi recebido com o desinteresse do costume, até as maravilhosas novidades sobre o cheque dentista, a inclusão da vacina do colo do útero no PNV e o apoio à PMA.

Tudo cheira a pouco sério. Medidas para calarem as vozes da oposição, sem vontade, sem convicção, sem brilho.

Onde está a ideologia? É verdade que o governo lá vai apresentando resultados, mas a motivação e a esperança das pessoas não existe.

E não é Sócrates com a sua voz de comando, nem Manuel Alegre com a sua permanente crítica, às vezes balofa, nem Santana Lopes, o exemplo da vacuidade, nem ninguém.

Falta alegria à nossa vida política.

10 novembro 2007

Decalque

Na paz que nos falta
brilham mãos de lua.

Socalcos de rios sobreviventes
banham armas decalcadas
de corpos e flores.

(escultura de Paul T. Granlund: Constellation Earth)

08 novembro 2007

Cabo-Verde - Contos em viagem


Estreou hoje. Está só até 15 de Dezembro. Como todos os trabalhos do Teatro Meridional, não se deve perder.

Cadeias

  1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
  2. Abra o livro na página 161;
  3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
  4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
  5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

E assim fui apanhada em mais uma corrente. Sem mais delongas (é uma palavra estupenda), estiquei o braço esquerdo e retirei o livro mais ao alcance; procurei a página 161 e contei concentradamente 4 parágrafos. Eis o quinto:

  • Estas cadernetas de poupanças preocupavam-me igualmente, mas por outras razões.

É extraordinária a estranha poética e o inescrutável (excelente palavra, também) mistério do universo. Esta é uma frase que deve estar arredada das possibilidades de muita gente, mesmo que seja uma preocupação constante.

O livro é de Magda Szabó e chama-se A Porta. Vale a pena ler.

E passo a corrente a mais 5 bloggers. São eles:

Boa sorte.

Adenda: agora reparei que já outra pessoa me tinha acorrentado. O meu obrigada pelos elos tecidos.

07 novembro 2007

OE 2008

Estou convencida que vamos ouvir, pelas bocas dos mesmos que criticavam o governo pelo eleitoralismo que se notava, quando sugeria que, dentro de pouco tempo, poderia reduzir os impostos, que o governo está a asfixiar a economia porque só vai baixar os impostos em 2010.

Não tenho ouvido os debates no parlamento e, ao contrário de Cavaco Silva, os resumos feitos pelas televisões e pelos media não chegam para me esclarecer, mas sendo a oposição chefiada por Santana Lopes e Paulo Portas, subscrevo quase na totalidade a frase de Rui Tavares (acho que não podem escapar de todo):
  • Santana e Portas, em separado, ainda poderiam escapar. Em bancadas contíguas no Parlamento, eles são o rosto do Governo mais inesquecivelmente delirante que este país teve desde Afonso VI.

Adenda: afinal Teixeira dos Santos não disse que só baixava os impostos em 2010, nem disse se os baixava antes. O que ele disse é que a prioridade é baixar o défice e que nada fará que faça perigar esse objectivo. Eu ouvi. De facto os resumos feitos pelos media são um pouco falaciosos.

Despertador

Ouvi estremunhadamente, logo de manhã, na TSF, que o nosso Presidente terá comentado que não gostava de ouvir o debate do orçamento em directo, que preferia os resumos feitos pelos senhores jornalistas.

Acordei de imediato, tal não foi o estremecimento.

05 novembro 2007

O caminho

Há dois anos encontrei este caminho. E vou caminhando.

Tantas coisas se passaram. Comigo e com o país, como se o país fizesse parte de mim tanto como eu dele.

Vou continuar a caminhada, com todos os que me acompanham, de perto ou de longe, com passada larga ou titubeante, silenciosos ou faladores.

- O melhor é ir em frente, pensei. Ainda que ninguém possa dizer ao certo o que é a frente e o detrás. Mas talvez a frente fosse por ali. -

Ou por aqui.



(Excertos de O Caminho, de O Quadrado {e outros contos}Manuel Alegre; pintura de Adele Eagleson: Chosen Pathway)

04 novembro 2007

Love of my life

Love of my life, you hurt me,
You broken my heart, now you leave me.

Love of my life cant you see,
Bring it back bring it back,
Dont take it away from me,
Because you dont know what it means to me.

Love of my life dont leave me,
Youve stolen my love now desert me,

Love of my life cant you see,
Bring it back bring it back,
Dont take it away from me,
Because you dont know what it means to me.

You will remember when this is blown over,
And everythings all by the way,
When I grow older,
I will be there by your side,
To remind how I still love you
I still love you.

Hurry back hurry back,
Dont take it away from me,
Because you dont know what it means to me.

Love of my life,
Love of my life.


(Queen: Love of my life)

Somebody to Love

Can anybody find me somebody to love?
Each morning I get up I die a little
Can barely stand on my feet
Take a look in the mirror and cry
Lord what you're doing to me
I have spent all my years in believing you
But I just can't get no relief, Lord!
Somebody, somebody
Can anybody find me somebody to love?

I work hard every day of my life
I work till I ache my bones
At the end I take home my hard earned pay all on my own –
I get down on my knees
And I start to pray
Till the tears run down from my eyes
Lord - somebody – somebody
Can anybody find me - somebody to love?

(He works hard)

Everyday - I try and I try and I try –
But everybody wants to put me down
They say I'm goin' crazy
They say I got a lot of water in my brain
Got no common sense
I got nobody left to believe
Yeah - yeah yeah yeah

Oh Lord
Somebody – somebody
Can anybody find me somebody to love?

Got no feel, I got no rhythm
I just keep losing my beat
I'm ok, I'm alright
Ain't gonna face no defeat
I just gotta get out of this prison cell
Someday I'm gonna be free, Lord!

Find me somebody to love
Can anybody find me somebody to love?

(Queen: Somebody to love)

Entretenimento

Pois é, ainda não consegui a migração para o domínio. Não sei porquê, mas talvez dentro de uns dias.

E assim andei entretida todo o dia. Nem falei da biografia de Cesário Verde que Maria Filomena Mónica escreveu, nem sobre o meu incómodo por se apontarem cidadãos a dedo que, embora acusados de crimes de pedofilia não estão ainda condenados, ou seja, não se provou ainda que são culpados, aguardando meses e anos com a vida suspensa, neste e noutros crimes, que horror de justiça que temos.

Também não falei da tristeza que senti quando, há dias, uma colega me confessou que está desmotivada de tudo, do trabalho, do emprego, do país, que cada vez é mais difícil viver aqui, porque se sente desprotegida, abandonada, que não se acalentam os sonhos, as competências, a felicidade.

Nem sequer tive muito tempo para meditar neste e noutros factos domingueiros, pois a possibilidade de fazer passar fome cá em casa despertou a ancestral cuidadora que (ainda) há em mim, tendo-me esfalfado à volta de um arroz de cogumelos e de uma mousse de pêssego.

Como disse Virgínia Woolf (pelo menos assim vem citada na Notícias Magazine de hoje): Matar o anjo do lar faz parte do ofício de escritora. Pois eu acrescentaria que faz parte de qualquer ofício que não seja anjo do lar.

Nem assinalei o 2º aniversário de um dos melhores blogues que conheço, pela riqueza e profundidade com trata inúmeros assuntos, e pelo humor corrosivo e inteligente. Parabéns ao A. Teixeira.




(pintura de Peggy McGivern: cooking)

Mudanças

Não sei muito bem o que estou a fazer. Neste momento mudei para um domínio personalizado, signifique o que significar. Espero que não deapareça na estratosfera.

www.defenderoquadrado.com

Boa sorte para todos, principalmente para mim.

Adenda: não desesperem. Eu já estou quase.

Afinal parece que é http://blogue.defenderoquadrado.com.

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