Há 32 anos não fui ao liceu. Havia qualquer coisa no ar. Lembro-me do clima de suspeição conspirativa que reinava nos supermercados da zona, da agitação constante no liceu, na rua, nas fábricas, no parlamento, ameaças várias de reacção, ameaças contra a reacção, do Pinheiro de Azevedo a puxar os suspensórios, do Vasco Lourenço a suceder a Otelo Saraiva de Carvalho, o amigo da revolução, do Vasco Gonçalves desgrenhado e alucinado, levando a revolução a reboque, das manifestações e contra manifestações, do constante matraquear da muralha d’aço, do meu pai à janela, à espera que aparecêssemos, coisa inédita e nunca vista.E depois do jantar daquele dia fora do normal, em que a ausência do meu pai já era hábito, a minha vizinha embrulhada em mantas ou xailes, ou qualquer coisa levemente cor-de-rosa e felpuda, aninhar-se no sofá da sala, com aspecto preocupado, pois o seu marido também faltava muito, nos dias que corriam.
Inusitadamente ouvíamos o Capitão Duran Clemente, a explicar qualquer coisa que ninguém entendia, mas todos entendiam que o camuflado na tv não trazia bons augúrios, e inusitadamente começamos a ver um filme cómico com o Danny Kaye, o que nós adorámos até porque a minha mãe, inusitadamente, não nos mandava para a cama, tão enrolada como a vizinha em xailes ou mantas, levemente acastanhadas.
Depois foi Ramalho Eanes, as suas patilhas e os seus óculos escuros, Melo Antunes, a salvar os comunistas da perseguição e do anonimato, Jaime Neves a passear o seu ar ameaçador por todo o lado.
Esse foi o dia em que se refundou o 25 de Abril, em que a utopia de alguns acabou para dar lugar à realidade da democracia pluralista.
Ainda bem que assim foi.
Claro!
ResponderEliminarDesde então tem tudo sido tão bom! E sempre a melhorar!
Só uma questão: Qual democracia?
A democracia que lhe permite, a si e a quem quiser, expressar-se contra ela própria.
ResponderEliminarLiberdade de expressão... Não seja ingénua.
ResponderEliminarMas já agora, em vez de ser tão vaga explique melhor porque "Ainda bem que assim foi."
Há comentários que, pela clarividência e pela sobranceria forçada que procuram transmitir, dão logo uma ideia da idade – pouca - e da maturidade - ainda menor - do seu autor. É o caso exemplar do autor do comentário anterior…
ResponderEliminarPedro Costa Palmeirim: o 25 de Novembro de 1975 permitiu que o nosso regime fosse democrático, pluripartidário, com liberdade de expressão, sim, desculpe a minha ingenuidade, ao contrário do que se tentou implementar a seguir ao 25 de Abril de 1974, a ditadura do proletariado, subvertendo o programa do MFA. Estou a ser pouco concreta?
ResponderEliminarSe o 25 de Novembro tivesse falhado, possivelmente, hoje andaríamos em debandada por essa Europa fora a matar a fome, tal como o estão neste momento a fazer, ucranianos, moldavos, romenos etc.
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