O balanço destes dois anos de governo de Sócrates tem-se limitado, quase em exclusivo, à exaltação da figura do primeiro-ministro, efectuada pelos seus defensores, ou à depreciação do mesmo, feita pelos seus opositores.
A análise de um governo não se pode limitar ao estudo da personalidade do primeiro-ministro, que vários jornais escalpelizaram até ao ridículo, como se construíssem um herói ou um vilão de plástico, tão ao gosto das formas cada vez mais americanizadas de vender figuras públicas.
Não há debate dos verdadeiros problemas sociais, políticos e económicos com que nos defrontamos. A impressão que fica é que ou não há alternativas às decisões da governação, e por isso se escolhem a personalidade, os tiques autoritários, a inspirada predestinação e o jogging de Sócrates, para louvar ou para ridicularizar, ou que não há alternativas aos protagonistas do governo e da oposição, pelo divórcio cada vez maior entre pessoas com qualidade e vontade de assumir cargos políticos e esses mesmos cargos.
Após a maioria absoluta, mais por inexistência de alternativas, protagonizadas por Santana Lopes e Paulo Portas, escreveram-se dezenas se não centenas de páginas, vindas de todos os quadrantes políticos, desfiando os horrores da nossa economia, saúde, segurança social, educação e justiça, só para lembrar os mais citados, encheram-se horas de televisão e rádio a prever cataclismos e catástrofes relativamente à extensão e desgoverno do estado, ao peso dos impostos, à ineficácia da máquina fiscal, ao elevado número de incomensuráveis sacrifícios que seriam pedidos aos portugueses, perante a abundância de perigosas tarefas.
Durante estes dois anos o governo foi acusado de nada fazer, de não ouvir a rua quando pretendia fazer qualquer coisa, de recuar se dialogava com quem protestava. Foi acusado de afrontar as corporações, apenas por populismo e acusado de recuar nas (pseudo) reformas por oportunismo pré eleitoral.
Mas alguém, seriamente, estava à espera que, em dois anos, estivéssemos a crescer ao mesmo ritmo europeu, reduzíssemos o desemprego e o peso do estado, reformássemos a administração pública, a educação, a saúde e a justiça? Mas alguém estava à espera que se tentassem algumas reformas sem reacções sociais, sindicais, profissionais, corporativas, das autarquias?
Talvez fosse preferível procurar-se verdadeira oposição e debate político, fora e dentro do PS, séria, credível, empenhada, que deixe de glosar as qualidades e os defeitos de Sócrates e que proponha alternativas às políticas e às decisões governamentais. Mas, infelizmente, pelos opositores externos e pela falta de opositores internos, continuaremos neste faz-de-conta, com grandes indignações de um lado, grandes orgulhos e satisfações por outro, quaisquer deles sem acordar a modorra do cidadão comum, que vai vivendo a sua vidinha, apesar da tragicomédia palaciana.