31 março 2007

A marca de Deus (1)

É muito complicado falar de assuntos religiosos, ou mais precisamente bíblicos, com cristãos católicos. Talvez também o seja com judeus e islâmicos, mas na verdade nunca se proporcionou a oportunidade.

Mas hoje, a propósito de Judeus, Bispos e Cardeais, eleições papais, antigo e novo testamento, falou-se inevitavelmente da Páscoa.

Páscoa (do hebraico Pessach) significando passagem - a passagem do anjo exterminador. Para os judeus a Páscoa é a festa que comemora a libertação do Egipto, após a última das dez pragas enviadas por Deus (a morte dos primogénitos egípcios) e por Moisés transmitida ao Faraó, negociando a libertação do seu povo, aplacando a ira de Deus.

Os judeus são um povo exclusivista na sua religião e na sua cultura, cioso das suas tradições. O antigo testamento é a história do povo eleito, do povo escolhido por Deus, que exclui todos os outros povos.

Embora o anti-semitismo seja uma terrível realidade histórica que nos acompanha ao longo dos séculos, com numerosas purgas, expulsões e perseguições de judeus pelo mundo fora, a Bíblia conta-nos, de forma alegórica, a primeira manifestação de ódio ou exclusão religiosa, manifestada pelos judeus, ou pelo seu Deus vingativo, contra os egípcios, ao determinar o extermínio dos primogénitos daqueles que não detinham a marca da sua religião: o sangue do cordeiro imolado na porta das suas casas.

(The Golden Haggadah: The Passover)

Passagens

Todos temos as nossas semanas pascais, em que nos preparamos para o que vier depois.

Depois, sempre depois, desde a profunda inspiração que antecede o último esforço do parto, até ao sono que anuncia o acordar.

Sempre depois do medo, da felicidade, da doença, do traumatismo, do sorriso, do abraço, estamos sempre em preparação, de passagem entre uma emoção e a que há-de existir, para além.

Todos temos os nossos momentos pascais, que nesta vida com horizontes sem sinais nem caminhos traçados tendem a ser perpétuos.


(pintura de Shem: Passage of Time)

30 março 2007

27 março 2007

Apenas

Preciso de tão pouco
para que o dia me levante.

Preciso apenas das gotas
de chuva na janela
do rumorejar das folhas
que sussurram
do pincel
dos teus dedos
na minha pele.

E no entanto
para ter
assim tanto
vivo apenas no espanto
de querer.

26 março 2007

Corrupção

Corrupção é encolher os ombros e murmurar ao ouvido do lado as iniquidades de quem manda;

corrupção é olhar na direcção contrária e estender a mão debaixo da mesa, para receber a aprovação de quem manda;

corrupção é fechar os olhos, os ouvidos e o nariz e sorrir apreciativamente aos espaventos estertorosos de quem manda;

corrupção é levantar-se do único lugar da esplanada para o dar a quem manda, e ficar com as réstias de sol que lhe sobra.

A corrupção é o resultado de milhões de anónimos tentando ignorar anonimamente o abuso de outros anónimos que se sentem com direito a ter nome.

E quem é que os nomeia?

E quem é que nos incendeia?

25 março 2007

Ainda

Esperam-nos pássaros caminhos
não ouvidos não caminhados.

Esperam-nos sonhos carinhos
não sentidos não sonhados.

Que faremos por merecer
nas pedras fontes do amanhecer?

Que faremos para entender
os mundos que sobram para viver?


(pintura de Nacera Guerin: one path)

Miséria e grandeza

Entre as cinzentas, pomposas e circunstanciais celebrações dos 50 anos da União Europeia, entendeu o nosso Excelentíssimo e Digníssimo Presidente da República excluir dos convidados de tão interessantes eventos o Dr. Mário Soares, antigo Presidente da República e, apenas e só, aquele que assinou o tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1985.

É verdade que Mário Soares se escapuliu da cerimónia de cumprimentos a Cavaco Silva, aquando da sua tomada de posse como Presidente. Não o devia ter feito, por todas as razões que nos lembremos e mais ainda.

Mas este gesto de Cavaco Silva, como uma vingança mesquinha, só demonstra a pequenez com que interpreta o seu papel na história recente de Portugal, e a sua falta de grandeza ao não reconhecer as grandezas de outros, entre as inúmeras misérias de que todos somos protagonistas.

Ficou-lhe mal a ele, como pessoa, e ficou muito mal ao país, que ele representa, pois não foi capaz de honrar a quem muito deve.

(fotografia da assinatura do tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, 12/06/1985, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa)

Eventualmente...

Segundo as notícias que li nos jornais impressos, on-line e em blogues (informação a sério), que ouvi nas rádios e que vi e ouvi nas televisões, o Tribunal de Contas (TC) confirmou um relatório da Inspecção Geral de Finanças (IGF), em que se demonstram numerosas irregularidades nas empresas municipais, na figura de uso indevido de dinheiros públicos, com numerosos autarcas a acumularem funções como quadros dirigentes das ditas empresas, e a auferirem ordenados e benesses muito acima e para além daquilo a que teriam direito.

Então e agora? Que vai acontecer a essas pessoas, que têm nome, cara, funções como autarcas (representantes do povo) e gestores? Vão ser obrigados a repor o dinheiro? Vão demitir-se dos seus variados cargos? Vão ser constituídas comissões de inquérito para eventuais processos de eventuais arguidos que eventualmente declararão consciências (eventuais) totalmente tranquilas?

E os anos que ainda não foram investigados? O que se vai seguir?

O negócio informativo (2)

Voltando ao post anterior sobre as interdependências entre a informação e os poderes económico e político, parece-me que algumas ideias não ficaram bem claras.

Todo o poder político tem a tentação de controlar a informação, de forma a veicular e propagandear as suas ideias e, principalmente, a esconder, por omissão ou por deturpação, os factos que poderão contrariar a verdade oficial.

Os regimes ditatoriais, tais como o comunismo e o nazismo, o franquismo e o nosso caseiro salazarismo, só para citar exemplos próximos, fizeram do controle da informação uma arma poderosíssima e um meio de excelência para impedir a disputa do poder. Outro exemplo é a organização que suporta a Igreja Católica, por exemplo, que sempre fez do controlo das fontes de informação, da censura e do impedimento ao conhecimento livre, uma das suas fontes de poder.

O exemplo tipificado por Sílvio Berlusconi é, apesar de tudo, ligeiramente diferente. Neste caso a informação é controlada pelo poder económico, concentrada num homem ou numa empresa, que usa o controlo informativo e o poder económico como armas para ascender ao poder político. Ou seja, o facto de se ter dinheiro, compra a informação e a propaganda e compra um lugar na política.

É claro que esta é uma análise mito simplista da situação. Mas talvez seja importante pensar que são indispensáveis mecanismos de regulação, garantidos pelo estado, através dos seus representantes legitimamente eleitos, impedindo a concentração do poder económico e a concentração do poder informativo, sob a alçada do primeiro. Se essa regulação não existir talvez seja difícil garantir a liberdade de discussão de ideias, a liberdade de expressão de pensamento, ou mesmo a democracia, tal como a concebemos hoje em dia.

24 março 2007

Portugal europeu


Ao comemorar, amanhã, 50 anos de União dos países europeus, primeiro com objectivos económicos e de manutenção da paz, com o caminhar dos anos com o estreitamento dos laços sociais e políticos, podemos orgulhar-nos de termos vivido metade de um século em relativa paz, harmonia e bem-estar social.

A ordem política evolui muito desde 1957. Dos seis países fundadores (França, Alemanha, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo) que assinaram o Tratado de Roma, a Comunidade Económica Europeia (CEE) foi-se alargando e transformando na União Europeia, agora com 27 países, muitos dos quais só puderam aspirar à adesão após a queda do muro de Berlim e do fim da guerra fria.

A Europa tem sido uma protectora de democracias e uma catalizadora da luta pelos direitos humanos, pela igualdade de oportunidades, pela instituição dos direitos sociais e de trabalho e pela solidariedade social.

Com a pressão para um aprofundamento político da União Europeia, estaríamos à espera que, na Europa dos Cidadãos, a cidadania, a participação cívica e política, o esclarecimento do que nos une e das propostas para a ratificação de um (moribundo) Tratado que Estabelece uma Constituição para a Europa, a discussão do que correu mal nas anteriores tentativas de aprovação e implementação do mesmo, fossem o mote das celebrações que se preparam por essa Europa fora.

Como tudo o que engrandece, a União Europeia necessita de racionalização, reorganização, simplificação e, principalmente, de uma reaproximação dos organismos decisores aos cidadãos. Ninguém imagina hoje um continente europeu regressado a 1956. Mas se não houver imaginação e verdadeira vivência do que significa para um português, eslovaco, italiano, holandês ou alemão ser europeu, que é necessariamente diferente, e se não se respeitarem essas diferenças, os próximos 50 anos serão mais difíceis, menos pacíficos, mais pobres e mais desiguais.

Poderemos nós todos avançar numa Europa multicultural, multiracial e multirreligiosa? A Europa de hoje alberga um número crescente de imigrantes essenciais no futuro da União Europeia, até por razões demográficas e de rejuvenescimento populacional, se devidamente integrados nas diversas comunidades, mantendo as suas especificidades mas absorvendo também os valores que fundam e formam a nossa matriz comum. Temos os problemas da insegurança e dos fundamentalismos crescentes, da crise económica e da globalização, o desafio do desemprego, da concentração da riqueza, das economias emergentes, das prováveis catástrofes ambientais.

E em Portugal, onde está esse debate?

O negócio informativo (1)

Por vezes ouço os comentários dos comentadores oficiais da TSF e calhou, há uns dias, ouvir a crónica de Joana Amaral Dias, que andou à volta de Berlusconi, provavelmente a propósito da estreia do filme de Nanni Moretti Il Caimano (O Caimão). Lembro-me de Joana Amaral Dias se ter espantado pela passividade do povo italiano, ao permitir a permanência de Berlusconi tantos anos no poder.

Confesso que aquilo que me preocupa não é a passividade do povo italiano, mas sim a possibilidade de um qualquer indivíduo, pelo facto de ter capacidade económica para comprar os media, poder controlar a quase totalidade da informação.

Será possível a indispensável independência da informação relativamente ao poder económico? Onde está a indispensável independência do poder político relativamente ao poder económico?

Como poderá a sociedade agir manietada e orientada por alguém que tem o poder da informação sob o seu total controlo? Como podem as nossas sociedades regular e impedir uma tal concentração de poder económico, como se pode impedir e controlar a concentração do poder informativo?

Pode ser a própria essência daquilo a que chamamos democracia, com a livre informação, a estar posta em causa.

Cumprir a lei

O caso da criança que foi dada pela mãe a um casal com intenção de a adoptar, à margem dos procedimentos legais, a manutenção da criança com este casal, mesmo após uma ordem do tribunal para a mesma ser entregue ao pai biológico, que entretanto a reconhecera como filha e reclamava o direito de a educar, tem-se arrastado nos anos e pelos jornais de tal forma que, neste momento, para que a criança sofra o menos possível, ela deverá permanecer com o casal que sempre se negou a cumprir as ordens judiciais.

Paralelamente, e sem que haja quaisquer semelhanças aparentes entre os dois casos, também foi notícia exaustivamente repetida, em todos os jornais, rádios e televisões, a descoberta do paradeiro de uma criança que tinha sido raptada há cerca de 1 ano de uma maternidade, vivendo com a raptora e o companheiro desde os 3 dias de vida ao ano de idade, não conhecendo outros pais, a não ser os que, ilegitimamente, a educaram durante esse tempo. Também neste caso, se levanta o problema de qual a melhor solução para a criança, se voltar de imediato à mãe e à restante família que por ela espera desde que lha roubaram, ou se deverá decorrer um tempo de adaptação.

É claro que 1 ano de vida não tem o significado de 5 anos, mesmo em termos de formação de afectos, e que as restantes circunstâncias são diferentes. Mas será que o facto de se conviver com uma criança durante um determinado período temporal, resta defini-lo, legitima um crime, como é evidente ter acontecido no 2º caso? E se em vez de 1 ano a criança só fosse encontrada aos 5 anos de idade? Qual a melhor solução para a criança?

Por vezes é difícil definir fronteiras entre o certo e o errado, entre o melhor e o pior. Mas as leis fizeram-se exactamente para tentar organizar aquilo que é muito difícil entregar a emoções. Justiça pelas próprias mãos, mesmo que moralmente possa parecer defensável, é sempre muito perigosa.

Mas a justiça só o é se for rápida a actuar, o que não aconteceu, pelo menos no 1º caso. As leis servem para proteger todos os cidadãos, mas voltam-se precisamente contra os mais fracos, quando não são cumpridas nem feitas cumprir.

22 março 2007

Pérolas do jornalismo de investigação

Penso que foi no Blogo Existo que se colocou a questão essencial: Mas, então, se o Público não apurou nada de substancial, por que é que publicou a peça?

Não sei se foi o José Manuel Fernandes, pela cabeça dele ou mandatado pelo Belmiro de Azevedo, quem se lembrou da investigação de uma suposta fraude na forma como José Sócrates completou a licenciatura. Porque a peça é exactamente isso que insinua e o facto de se murmurar seja o que for na blogosfera é uma justificação descabida (quantas insinuações não se fizeram já na dita blogosfera, que não mereceram quaisquer investigações?).

Direi apenas, também como João Pinto e Castro: Não foi bonito. Direi mesmo mais: foi muito feio!

21 março 2007

Poemas

Os poemas são nocturnos:
têm luas e letras
flores imediatas
que crescem entre dedos
atados de mãos insensatas.

Os versos são madrugadas:
acendem a luz do farol
desdobram brandos sorrisos
nas diáfanas cortinas
com que cobrimos o sol.


(pintura de Nancy Tuttle May: New Dawn I)

O estado dos assuntos

Será que o que restar do CDS / PP após o assalto ao poder, tão ansiado, propagandeado e implorado por Paulo Portas e seus apaniguados terá um décimo do interesse que têm merecido estas lutas tristes e de baixo nível?

Onde está a pose de estadista responsável que Paulo Portas criou enquanto Ministro de Estado, Ministro da Defesa e dos Assuntos do Mar e Ministro da Defesa Nacional?

Interpretações (deficitárias...)

Para quem gosta de balanços e os tem feito, dos dois anos de governo de Sócrates, o défice a 3,9% em vez dos programados (e ansiados) 4,6%, pode ser uma forma de aferir se as politicas governamentais estão ou não a dar resultados.

Segundo alguns comentadores, isto terá sido estudado, ou seja, o governo sugeriu um número superior para se poder gabar de ter conseguido ficar num número inferior. Noutros casos, há quem afirme que isto foi conseguido por aumento de impostos e redução da fuga ao fisco, outros afinal descobrem, em artigos relegados para os fundos das páginas interiores dos jornais, que foi à custa da redução da despesa (tudo isto fui lendo na blogosfera, o verdadeiro espaço de informação).

São tudo interpretações, fluidas, é claro!

Também é claro que só mesmo Marques Mendes pode desafiar o governo a baixar os impostos, já que conseguiu reduzir o défice demais, um autêntico horror! Mais claro ainda é que se fosse o PS ou o Sócrates a sugerirem levemente uma subtil redução de impostos, não passariam de manobras eleitoralistas.

Enfim, seriedade, precisa-se. E já agora, poderia acabar-se com aquela farsa da discussão mensal no parlamento, de um tema escolhido pelo governo. Porque não escolhe a oposição? A fiscalização da acção governativa não é sobre temas cómodos mas sim sobre aqueles que o governo não quer discutir!

Será que o Parlamento e os seus deputados não poderiam mudar esta peça mal encenada e muito mal interpretada?

19 março 2007

Inteiro

Uma só palavra
bem soletrada
bem rolada

entre a língua
os dentes,
o som da voz
bem modelada
bem espalhada
como sementes
como restos esmagados
de nós.

Uma só palavra
que sintetize o poder
de ser inteiro.


(pintura de Ogambi: Women's Burden 3)

Adormecer

A raiva esfuma-se pelo peso que encolhe, pelo peso que abate, pelo peso que impede. Não querer saber, o mundo fica melhor sem os poucos loucos que um dia pensaram nos caminhos a direito.

A raiva transforma-se em rugas e olhares vazios, em encolher de ombros e mudanças de assunto, em sorrisos fátuos e palavras de circunstância,

A raiva é substituída por uma tal sensação de exaustão física, que daremos tudo para adormecer.

18 março 2007

Dentro da vida

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer

(poema de Gastão Cruz; pintura de Tom Lieber: sem título)

17 março 2007

Nadir Afonso

Nadir Afonso é um pintor único, pelas formas, pelas cores, pela geometria, pelo urbanismo, pelo rigor do traço e do pincel, pela sua figura longilínea, ossuda, com dedos de pincel e olhos escavados e abstractos.

Nadir Afonso é um pintor único pela juventude perpétua, pelo olhar rejuvenescido e vibrante que nos devolve, pela dimensão das suas telas e da sua energia.

Na Galeria António Prates, até 18 de Abril, obras recentes (acrílicos, guaches) da 1ª década do séc. XXI, como ele diz; na galeria de arte do Casino Estoril, desde 9 deste mês, uma retrospectiva da obra, incluindo serigrafias, acrílicos e guaches, das diferentes fases do pintor (do figurativo ao abstracto).


(pintura de Nadir Afonso: Vera Cruz – 1ª décado do séc. XXI)

Tragicomédia palaciana

O balanço destes dois anos de governo de Sócrates tem-se limitado, quase em exclusivo, à exaltação da figura do primeiro-ministro, efectuada pelos seus defensores, ou à depreciação do mesmo, feita pelos seus opositores.

A análise de um governo não se pode limitar ao estudo da personalidade do primeiro-ministro, que vários jornais escalpelizaram até ao ridículo, como se construíssem um herói ou um vilão de plástico, tão ao gosto das formas cada vez mais americanizadas de vender figuras públicas.

Não há debate dos verdadeiros problemas sociais, políticos e económicos com que nos defrontamos. A impressão que fica é que ou não há alternativas às decisões da governação, e por isso se escolhem a personalidade, os tiques autoritários, a inspirada predestinação e o jogging de Sócrates, para louvar ou para ridicularizar, ou que não há alternativas aos protagonistas do governo e da oposição, pelo divórcio cada vez maior entre pessoas com qualidade e vontade de assumir cargos políticos e esses mesmos cargos.

Após a maioria absoluta, mais por inexistência de alternativas, protagonizadas por Santana Lopes e Paulo Portas, escreveram-se dezenas se não centenas de páginas, vindas de todos os quadrantes políticos, desfiando os horrores da nossa economia, saúde, segurança social, educação e justiça, só para lembrar os mais citados, encheram-se horas de televisão e rádio a prever cataclismos e catástrofes relativamente à extensão e desgoverno do estado, ao peso dos impostos, à ineficácia da máquina fiscal, ao elevado número de incomensuráveis sacrifícios que seriam pedidos aos portugueses, perante a abundância de perigosas tarefas.

Durante estes dois anos o governo foi acusado de nada fazer, de não ouvir a rua quando pretendia fazer qualquer coisa, de recuar se dialogava com quem protestava. Foi acusado de afrontar as corporações, apenas por populismo e acusado de recuar nas (pseudo) reformas por oportunismo pré eleitoral.

Mas alguém, seriamente, estava à espera que, em dois anos, estivéssemos a crescer ao mesmo ritmo europeu, reduzíssemos o desemprego e o peso do estado, reformássemos a administração pública, a educação, a saúde e a justiça? Mas alguém estava à espera que se tentassem algumas reformas sem reacções sociais, sindicais, profissionais, corporativas, das autarquias?

Talvez fosse preferível procurar-se verdadeira oposição e debate político, fora e dentro do PS, séria, credível, empenhada, que deixe de glosar as qualidades e os defeitos de Sócrates e que proponha alternativas às políticas e às decisões governamentais. Mas, infelizmente, pelos opositores externos e pela falta de opositores internos, continuaremos neste faz-de-conta, com grandes indignações de um lado, grandes orgulhos e satisfações por outro, quaisquer deles sem acordar a modorra do cidadão comum, que vai vivendo a sua vidinha, apesar da tragicomédia palaciana.

Representação e fiscalização democrática

Muito de tem discutido a relação entre os eleitos e quem os elege, nas nossas democracias, realçando o papel crescente dos media e do marketing político, associado ao uso das novas tecnologias de informação, nomeadamente a Internet.

Vem isto a propósito dos diversos balanços dos dois anos de actividade do governo, da cooperação entre presidente e governo, da eventual concentração de poderes no primeiro-ministro, no culto da personalidade deste, do controlo dos meios de comunicação clássicos (jornais e televisões), da falta de discussão e de fiscalização política pela oposição, pelo próprio partido da maioria e pelo parlamento, que cada vez mais se esvazia de sentido e de importância.

O aparecimento dos governantes na televisão, propagandeando e explicando medidas, e agora a constituição de um blogue pelo ministro António Costa, com o objectivo de responder às críticas e aos seus detractores, principalmente na Internet, levanta questões muito interessantes.

Será isto um aperfeiçoamento da democracia directa, em que os responsáveis políticos estão em contacto com os seus eleitores, sem intermediários? Mas quem são os interlocutores internáuticos? Será que há livre acesso a este meio de comunicação, estando todos os cidadãos em igualdade na oportunidade da sua utilização?

Qual o papel do parlamento e dos seus deputados eleitos, que cada vez são mais subalternizados pelo governo, tenha ou não maioria absoluta? Os partidos que apoiam a maioria parlamentar não são mais que a caixa de ressonância do governo; os partidos de oposição, por falta de mecanismos que lhes dêem relevância, por total aridez ideológica e por total carência de líderes apenas servem o teatro das discussões que, num arremedo de transparência, se mostra no Canal Parlamento, aparentando uma triste inutilidade aos olhos dos cidadãos.

O papel da Internet irá, muito provavelmente, revolucionar a informação, a relação entre os vários poderes e entre os cidadãos e os poderes, porque a ela têm acesso muitas pessoas anónimas, mesmo que não pertençam a grupos de pressão. Mas é um universo totalmente enviesado porque não estão criadas (ainda?) as condições de livre e igual oportunidade de acesso e utilização deste poderosíssimo meio de informação.

Por outro lado, como ficarão os métodos tradicionais de eleições para as instituições, de separação e de fiscalização de poderes, quando mantemos modelos de organização democrática que podem estar a ser subtilmente subvertidos, incluindo, e na prática, o próprio conceito de democracia representativa?

15 março 2007

Margens de gelo

Apenas gestos replicados
momentos já esquecidos
mantêm olhos focados
em restos de nervos tecidos.

Rigorosos ritmos cessantes
de pausas sequenciais
nos intervalos constantes
ausentes de rituais,

movem pedras navios
enrolam dedos ternuras
no fundo agreste dos rios
margens de gelo fervuras.


(aguarela de Michael Wrigglesworth: River Ouse at Olney I)

14 março 2007

Embaciar


Tudo se esconde para lá do possível
emudece a sombra entendida
ao longo da grade invisível.

O mundo entorna devagar
as gotas da vontade amolecida
na pressa de a evaporar.


(pintura de Jim Gilroy)

13 março 2007

Untitled

O que há em mim é sobretudo cansaço –
não disto nem daquilo,
nem sequer de tudo ou de nada:
cansaço assim mesmo, ele mesmo,
cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
as paixões violentas por coisa nenhuma,
os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas –
essas e o que falta nelas eternamente –;
tudo isso faz um cansaço,
este cansaço,
cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
há sem dúvida quem deseje o impossível,
há sem dúvida quem não queira nada –
três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
porque eu amo infinitamente o finito,
porque eu desejo impossivelmente o possível,
porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
para eles o sonho sonhado ou vivido,
para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
e, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
um supremíssimo cansaço,
íssimo, íssimo, íssimo,
cansaço…


(poema de Álvaro de Campos; pintura de Vlatka Zugic)

11 março 2007

Amarte



Manuel d’Oliveira gravou um disco em 2003, Ibéria. Dei com ele por acaso, escutando discos variados, enquanto deambulava pela FNAC.

Fiquei rendida ao som da guitarra, à técnica, à tranquilidade, à personalidade.

De vez em quando procurava outros discos dele, mas nunca encontrei. A certa altura parecia que nunca tinha existido, que ninguém o conhecia, que tinha desistido de tocar.

Há uns meses, e também por acaso, li um artigo num jornal, não me recordo de qual, anunciando um novo disco: amarte.

Finalmente já o comprei. Finalmente descobri o site dele. Amarte é a gravação de um espectáculo em Guimarães, na Praça de Santiago, com o grupo Mediterrâneo.

Espero ouvi-lo no CCB, a 25 de Maio.



Fanatismo e intolerância

Em 1975, o 11 de Março foi o início do que se convencionou chamar o PREC, época de gente louca e transviada, que acreditava estar na posse da verdade, época de visionários generosos e, por isso mesmo, perigosos. Época de delírios, marchas, golpes e contra golpes, país rebocado por uma turba revolucionária adolescente e feliz, totalmente desgarrada da realidade, mas que talhou para sempre a nossa democracia.

Quando olhamos para esses anos, agora adultos, obesos e instalados na vida, neste país medianeiro e de faz de conta, cheio de contradições e devaneios, nem conseguimos acreditar no que aconteceu, tal como quando olhamos para poemas destemperados e dramáticos e não nos reconhecemos naqueles transportes de emoção.

Em Madrid, o 11 de Março de 2004 teve a cor dos fanatismos religiosos, outros detentores da verdade, preparados para matar e morrer em busca de um deus exigente e sanguinário, tão certos de atingir a felicidade como de se espalharem em mil bocados, na fusão de ferros, roupas, corpos e terra.

Apesar de diferentes há uma terrível comunhão neste tipo de acontecimentos: o assumir por alguns de uma verdade que consideram inabalável e incontestável, baseados em crenças e dogmas, religiosos ou políticos, impondo-a a todos os outros.

Sempre me arrepiaram os detentores da chave da vida, pois a chave que julgam ter apenas serve para fechar portas, caminhos, soluções.

Ao ouvir, no Diário Ateísta, um pequeno vídeo traduzido em brasileiro, defendendo que a Bíblia é repulsiva, dando exemplos com frases retiradas do livro, organizando-as numa lógica que o(s) autor(es) consideram arrasadora, fico verdadeiramente espantada com tal demonstração de fanatismo.

O que eu considero repulsivo é este tipo de análise de um livro, de um discurso, de um pensamento, de um acontecimento. Sem qualquer seriedade, pretende-se explicar situações de uma forma tão dogmática e disparatada, idêntica à que os fanáticos religiosos usam, em sentido contrário, interpretando frases e textos literalmente, retirando-os do contexto, para provarem autênticas barbaridades.

Uma coisa é ser-se ateu, outra muito diferente é ser-se fanaticamente anti-religioso e negar a importância social e cultural do fenómeno religioso e das suas manifestações artísticas. A intolerância e o fanatismo estão em toda a parte, não só do lado das religiões do Livro.


(Bíblia Ilustrada, João Ferreira Annes de Almeida; José Tolentino Mendonça e Ilda David; Assírio & Alvim, 2006)

Identidade

Este blogue não aguenta esquizofrenias nem duplas personalidades. Uma coisa é a roupagem, outra é a realidade nuclear, a essência.

Não tenho o perfil, nem o porte, nem a beleza da imagem que tinha substituído a Liberdade, que parece olhar o mundo do alto da sua nobre missão.

Esta é a Liberdade que me retrata: minúscula e desafiadora, muitas vezes inconsequente, mas sempre com causas!

Também podia dizer, como Manuel Triste: a mim ninguém me cala!


(Quino: Libertad)

10 março 2007

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
quem sente não é quem é,

atento ao que sou e vejo,
torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
é do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
assisto à minha passagem,
diverso, móbil e só,
não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
o que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
o que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

(poema de Fernando Pessoa; fotografia de João Luiz Roth)

Outros olhares

Até 15 de Março, na Oficina da Cultura, em Almada, está patente uma exposição colectiva de fotografia, integrada na Quinzena da Juventude.

São três artistas, três temas, três que se nos oferecem.

César Reis, em 2 Anos de Fotografia, mostra-nos fragmentos e instantes, captados de rostos, árvores, espaços quotidianos que constroem a vida, a preto e branco. São lindíssimas, simples, nítidas, limpas. São fotografias de esperança e optimismo.

Hugo Madeira, em Agnosia, parte de um conceito médico (a incapacidade de reconhecer ou identificar objectos, mantendo intactas as funções sensoriais) e de um projecto de reconhecimento e de preservação da memória, nas prisões da Trafaria e do Aljube. As fotografias são em tons cinzentos, castanhos, tijolos, e documentam a carga de angústia, a paragem artificial do tempo, a contagem dos dias, a crueza das paredes nuas e deterioradas, com alguns espaços claros, réstias de luz.

Carla Sofia Violante, em Na Luz de Pessoa, tenta interpretar a personalidade de Fernando Pessoa, através do poema Não sei quantas almas tenho, e do heterónimo Bernardo Soares, mostrando aquilo que queremos ser e aquilo que, na realidade, somos.

Vale a pena passar por lá.

(fotografia de Hugo Madeira)

Igualdade

A propósito da igualdade entre géneros, duas notícias interessantes.

Concordo com a extensão do recenseamento obrigatório às mulheres. Não se percebia a manutenção de uma discriminação sem sentido, pois deixou de existir um serviço militar obrigatório e, já há bastante tempo, as mulheres podem ingressar na carreira militar.

Por outro lado, a escassa percentagem de homens que dividem a licença de maternidade é indicativa do caminho que há ainda a percorrer na partilha de deveres e de direitos, no que diz respeito às tarefas de educação e acompanhamento dos filhos. É toda a sociedade que tem que aceitar uma realidade diferente e incentivar os patrões das empresas privadas e do estado a terem uma mente mais aberta. As mulheres também terão que perceber que não devem usar a biologia como arma para manter um reduto que, embora cheio de dependências e sacrifícios, lhes confere bastante poder.

08 março 2007

Uniformização

A Europa é feita por diversos povos, diversas línguas, diversos países, com regimes políticos mais ou menos semelhantes, com passados comuns e passados diferentes. É essa diversidade que a torna rica e interessante.

Realçar o que os países têm em comum, falar do conceito de uma Europa unida, respeitando as diferenças que existem, é uma excelente ideia.

Fazer um livro de história idêntico para todos os estados-membros? É um livro que conta a história de todos os estados-membros e que substituirá os livros de cada estado-membro? É um livro sobre a União Europeia que complementa os livros de história de cada estado-membro?

A uniformização do tamanho das laranjas, das colheres de cozinha ou das etiquetas dos produtos hortícolas é uma coisa; a uniformização do ensino de história a nível europeu parece-me outra bastante diferente!

Mulheres

Não sou a favor de Dias Internacionais de nada, nem da mulher, nem do homem, nem da criança, nem de nenhum órgão, doença, causa ou animal em perigo de extinção, de árvores ou arbustos, de patrimónios arquitectónicos ou naturais.

Mas isso não significa que não existam discriminações, nomeadamente no que diz respeito aos géneros feminino e masculino.

De uma forma geral as mulheres trabalham mais horas que os homens, pois acumulam várias actividades profissionais: uma que, eventualmente, escolhem, e que é remunerada, outras que carregam pelo simples facto de terem nascido com o par de cromossomas XX e que são as de empregada doméstica e de educadora de infância.

De facto, e por enquanto, a existência de útero implica gravidezes e partos, a existência de mamas e várias hormonas (estrógenos, prolactina, oxitocina, etc) implica amamentação. Mas não implica levantar-se a meio da noite sempre que a criança chora, mudar fraldas, levar as crianças aos infantários, aos colégios, aos amigos, aos pediatras, aos dentistas, comprar-lhes roupa, vesti-los, calçá-los, dar-lhes de comer, dar-lhes banho, adormecê-los e acordá-los.

Também não implica saber o funcionamento e os programas das máquinas de lavar roupa e louça, de detergentes, da arte de passar a ferro camisas e calças, de limpar nódoas de gravatas, de passajar meias e de coser botões, de trocar lâmpadas quando se fundem, de ir às compras, de cozinhar, de saber de limpezas de pó e de cera para móveis, de mudanças de roupa da cama, de renovar pratos quando se partem, e de pensar em tudo, prever tudo, lembrar de tudo!

É verdade que muito já se fez, mas muito há ainda para fazer. E o mais difícil é convencer as próprias disso. Até porque medidas que são muito populares e muito politicamente correctas, muito defensoras das crianças e do bem-estar da humanidade futura, com dar muitos meses À MÃE para ficar com as crianças, pode funcionar exactamente no sentido do retrocesso, levando a que cada vez mais mulheres se afastem do mercado de trabalho, porque são preteridas.

Gosto de comemorar todos os dias na partilha de direitos e deveres entre pessoas, homens e mulheres, velhos e novos, com as suas diferenças e complementaridades.

Nota: Obviamente que tudo isto só se aplica ao nosso pequeno mundo privilegiado e rico.

(Pintura de Pablo Picasso: mulheres)

06 março 2007

Novidades

As funcionalidades que eu vou descobrindo no blogue actualizado são muito interessantes!

Podem-se agrupar os diversos posts por temas. E, não sei como o fiz, mas a verdade é que devo ter ligado o blogue a motores de busca, pois tenho IMENSAS visitas, nomeadamente de CHINESES!

A pouco e pouco vou adicionando palavras-chave aos posts, o que ainda vai demorar algum tempo.

Espectacular!... Não?

Gaivotas


Hoje, numa das últimas rotundas por onde passo todos os dias, havia uma reunião de gaivotas.

Estavam dispersas, pouco concentradas, debicando aqui e acolá, na relva, sem confraternizarem umas com as outras.

Deviam esperar alguma gaivota importante, talvez a responsável pelo “meeting”. Viria majestosa e altiva, ou apressada e alegre? Seria recebida com gritos aprovadores, ou com silêncio e distância?

05 março 2007

Embalagem

E por falar em Helena Sacadura Cabral e programas da tarde na rádio, eles parecem-se perigosamente com as revistas que acompanham os jornais de fim-de-semana e com as revistas ditas femininas, de uma forma geral.

Essas revistas são habitualmente em bom papel, com um capas cuidadas, boas fotos, lindas cores e nenhum conteúdo. É só a embalagem.

Todas têm os mesmos temas: decoração de interiores (ideias lindíssimas e inexequíveis), moda feminina (roupa caríssima e que ninguém, no seu juízo perfeito, usa), um pouco da masculina (pretexto para publicar fotografias de homens), cosmética, psicologia (relações, muitas relações, muito amor, muito companheirismo, muito sexo, muitos lugares-comuns), puericultura (ou de como ficaremos para sempre escravos dos nossos maravilhosos e problemáticos filhos), relatos de mulheres bem sucedidas em profissões que ninguém sabe que poderiam existir, muito ligadas ao bem-estar espiritual, absolutamente indispensáveis nos dias que correm, objectos informáticos e/ou desportivos que apelam ao nosso consumo mais primário, crónicas que falam de comida, de assuntos de saúde, signos e coisas que tais.

Todos os fins-de-semana chego à conclusão que não devo ser nada feminina! Mas esse é outro dos tópicos preferidos dessas revistas!

A Grande Portuguesa - rectificação

Tenho que fazer uma rectificação ao post A Grande Portuguesa.

É que o programa de rádio que eu ouvi, com tamanha contribuição de Helena Sacadura Cabral, não foi no Rádio Clube Português mas sim na estação Europa Lisboa (90.4 FM), e não foi na 6ª mas na 5ª feira passada!

Eu também já estou um bocadito (!) passada e algo (!) desmemoriada.

A propósito já sei como se chama o programa da tarde (o tal das pepineiras): Janela Aberta. E aproveito para dizer que gosto bastante do Europa Lisboa, principalmente da excelente música que passam. Quanto ao resto…

As minhas humildes desculpas.

04 março 2007

Do outro lado

Sigo muros rugosos
arbustos de pedras.
Do outro lado esperam
prados verdes
rios de amoras.

Quando chegares
iremos inaugurar
o mundo.


(Pintura de Charles Wilder Oakes: The Fabric of the Old Ways)

A Grande Portuguesa

Entrou na moda o Rádio Clube Português (RCP). Penso que o Luís Osório está sempre bem, e qualquer coisa que ele faça, ou esteja para fazer, é anunciada com alguma pompa e circunstância. Foi assim com A Capital, é assim com o RCP.

Eu tenho ouvido o programa orientado por Adelino Faria, para desenjoar da gritaria da TSF, e gosto bastante. Gosto daquele conceito de usarem um tema e de o escalpelizarem ao longo da manhã, discutindo-o sob vários ângulos e com várias pessoas.

No entanto as poucas vezes que tenho ouvido o RCP à tarde, por volta das 5, 6 horas, tenho achado uma pepineira desgraçada. Não sei como se chama o programa mas outro dia, penso que na última 6ª feira, discorria Helena Sacadura Cabral sobre a sua (dela) tristeza pela ausência de mulheres nos 10 finalistas do celebérrimo concurso Os Grandes Portugueses, revoltando-se perante o machismo dos portugueses e das portuguesas, que não tinham sido capazes de vislumbrar uma única Grande Portuguesa.

E deu o inexcedível exemplo de uma mulher que podia (deveria?) constar da exígua lista dos Grandes, nada mais nada menos que D. Filipa de Lencastre. Ainda raciocinava eu no porquê desta sua indicação quando ela, que não deixou a interpretação de tão eigmática opinião ao acaso dos meus fracos neurónios, justificou a preferência: pois não foi a rainha, D. Filipa de Lencastre, que deu à luz e à pátria tão excelsos filhos, conhecidos como a Ínclita geração?

E pronto, à falta de melhor, as Grandes Portuguesas são-no porque… são responsáveis por parir Grandes Portugueses!

Limites

Sensação palpável.
As nuvens
isolam horizontes
ramos ou pontes
visíveis.
Os limites.

(pintura de Rick Arnitz: plots)

Qualificação e recertificação

O Bastonário da Ordem dos Médicos multiplica-se em intervenções críticas à política de saúde deste governo, preocupando-se cada vez mais com política e cada vez menos com saúde. Atentemos nas declarações de Pedro Nunes, com intervalo de 5 meses entre a primeira e a última:

  • Pedro Nunes reiterou que a Ordem não tem reparos a fazer à proposta em discussão pública, nomeadamente em relação à possibilidade de encerramento de 14 urgências hospitalares, mas realçou que gostaria que a reforma fosse mais ambiciosa. (24/10/2006)
  • Para o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), padece de ambição na rede do interior e não reflecte a realidade do país. Mede distâncias entre sedes concelhias mas não valoriza as aldeias, diz-nos Pedro Nunes, para quem este relatório não se compreende sem estar montado um sistema de transportes que o complete. (22/02/2007)
  • Mas, porque a queremos, não aceitamos ver encerrar um serviço útil e insubstituível para uma população abandonada no interior, pelo único critério de só realizar três ou quatro atendimentos numa noite, justificou, lembrando que um desses atendimentos pode ser o filho único de alguém que fica sozinho ou o velho que não consegue ir mais longe. (01/03/2007)

Esclarecedor, não é? No entanto, no que diz respeito à qualidade da medicina que se pratica, uma das áreas base de intervenção obrigatória da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes não considera importante a implementação de sistemas de recertificação dos médicos, com exames periódicos, com sistemas de acumulação obrigatória de um determinado número de créditos, dados por cursos de actualização, devidamente analisados e certificados internacionalmente, ou com outro tipo de sistemas.

  • A Ordem não está a pensar, de maneira nenhuma, em implementar um sistema destes, afirmou Pedro Nunes ao JN, antes de presidir ao juramento de Hipócrates de 180 licenciados da Universidade de Coimbra. Nunes argumentou que os médicos já são muito avaliados pelos utentes. (04/03/2007)

As carreiras médicas são entendidas, pelo menos por agora, como uma valorização hierarquizada em que, aos diferentes graus, se acede por concurso público e, portanto, pela prestação de provas. Mas, com excepção do concurso para Assistente Eventual (por exemplo na carreira médica hospitalar), os outros concursos são voluntários, pelo que após a entrada na carreira, se o médico não quiser, pode nunca mais prestar quaisquer provas até à sua reforma.

O conceito de recertificação é diferente, mais vasto, e não deve ter nada a ver com as funções, hierarquizadas ou não, num qualquer serviço, público ou privado.

Penso que todos teríamos a ganhar se o Bastonário se debruçasse mais sobre estes problemas.

Eclipse total

Era já dia, morno e brilhante como as manhãs da infância. Havia frenesim e expectativa, mobilizavam-se os adultos como quem sabe de prodígios e milagres.

Tinha-se discutido à exaustão os malefícios e a prometida cegueira de quem olhava sem temor o astro rei, principalmente se durante a agonia de um eclipse total, qual morte e ressurreição de Deus.

E, repentinamente, os cães, os pássaros e as galinhas agitaram-se, latindo, piando e cacarejando aflitivamente. O céu começou a escurecer: a lua iniciava um processo de digestão solar.

Gente saía das casas e povoava as janelas, as varandas, os telhados, com armas de paz, feitas de vidros esfumados por velas, óculos de sol, papéis de tipo celofane verde ou castanho, protegendo os olhos.

A pouco e pouco o tempo reverteu e foi como se caminhássemos em direcção ao dia anterior, primeiro à madrugada, depois à noite cerrada, aquela noite mesmo anoitecida de um céu estrelado, sem luzes de prédios, candeeiros de estradas ou de bares, com a frescura e o vento omnipresente, soprando apreensão aos ouvidos dos embevecidos mortais. O sol desapareceu por completo, deixando uma aura de claridade tremeluzente à volta do disco negro que o eclipsava.

Os bichos todos, mesmo o bicho homem, reverenciou este espectáculo, totalmente explicado pela ciência mas não assumido pelos instintos, e secretamente desejou o regresso da normalidade intemporal, da sucessão dos segundos em direcção contrária, de acordo com o relógio circadiano.

Algum tempo depois, com a lentidão da solenidade, a natureza reconsiderou. Novamente cantou o galo, novamente se desenroscaram os gatos e se espreguiçaram as crias. Na luta de morte que se travava no espaço, no tráfego engarrafado dos trajectos planetários, desobstruiu-se o caminho e o sol reapareceu, primeiro a medo, depois com toda a pujança.

Clarearam os céus e a gente recolheu a casa, muda de espanto e alívio.

(
30 de Junho de 1973, S. Vicente, Cabo-Verde)

Ensino Superior

Ressalvando a injustiça presente em todas as generalizações, que se passa com as Universidades Privadas? Moderna, Independente, e outras de que já não me recordo, parecem ter sido fundadas mais para gerir negócios pouco claros e promover enriquecimento ilícito de famílias e amigos, do que para gerar conhecimento e desenvolvimento, em concorrência / complementaridade das Universidades Públicas.

E o que acontece aos alunos que confiaram na excelência dos conteúdos (parafraseando Mário Crespo), o que se faz com as suas expectativas de um ingresso no mercado de trabalho, cada vez mais contraído e competitivo? E onde está o Estado, como controlador e regulador da qualidade?

Fala-se muito do ensino básico e secundário, mas o ensino superior precisa urgentemente de reformas e rigor, a todos os níveis.

O fantasma de Salazar

Ao longo destes últimos 30 anos houve alguns temas que ninguém abordou. Um deles foi Salazar.

Pois é altura de se arejarem os fantasmas guardados nos armários da memória. Salazar e o Estado Novo podem e devem ser falados, em múltiplas abordagens e por múltiplas personagens.

Desde as visões históricas e rigorosas, com programas de televisão e rádio, livros, exposições, museus, teatros, cinemas, concursos, etc, conduzidos por historiadores, artistas, defensores e detractores, com conhecimentos e sem eles, enfim, o que é preciso é falar aberta e apaixonadamente de uma fatia de 50 anos do século XX português.

A revolta dos historiadores contra um concurso de televisão parece-me totalmente descabida. Um concurso é um concurso, um programa de entretenimento, que nunca pretendeu ser mais que isso.

Poderia ser melhor, ter outros intervenientes, outros objectivos? Muito provavelmente sim, tal como a grande maioria dos programas de televisão. Não é este concurso nem o seu formato que estão em causa, mas a falta de outro tipo de programas, com outros formatos, que deveria ser o cerne da questão.

A existência de um museu do Estado Novo, aproveitando a casa em ruínas de Salazar, não tem nada de especial. O aproveitamento que alguns fazem e farão disso é idêntico ao aproveitamento que alguns fazem quando se fala da resistência à ditadura e do 25 de Abril.

A História é um património comum, que deve ser usada e estar ao alcance de todos, sem paternalismos, complexos ou preconceitos.

Destapou-se qualquer coisa com cheiro a mofo? Areje-se!

Mas que grande trabalheira!

Depois de uma tarde de trabalho insano (!) não sei se a pesquisa vai ter alguma utilidade. Já introduzi algumas palavras que deram cerca de 19 000 resultados! Experimentei o Google search engine mas não percebi nada e, francamente, chega de me penitenciar por hoje.

Até porque deixei de falar sobre o assunto de momento, que já o é há vários dias, pois Paulo Portas encarregou-se de o ir lembrando, caso o fôssemos esquecendo, o seu tão badalado regresso à vida política activa.

Será que ele pensa que ainda consegue enganar alguém?

Depois o outro assunto de momento, que também já se arrastava eternamente, o da OPA da SONAE à PT. É tudo bastante maiúsculo, nomeadamente o galo com que deve estar Belmiro de Azevedo, e o nariz torcido de alguns defensores do Mercado, tais como José Manuel Fernandes.

Será que a OPA do MILLENNIUM ao BPI, tão ou mais maiúscula que a anterior, também vai encolher e tornar-se… minúscula?

Ah, pois, é claro, eu não percebo o Mercado, de facto não, mas como diz António Menezes Cordeiro, citado por A. Teixeira: “A OPA ganha-se com dinheiro (…)” e foi isso que Belmiro de Azevedo não quis, ou não pôde largar…

03 março 2007

Recomeçar

A ignorância é muito atrevida!

Resolvi começar a melhorar o template. Fiz tudo o que me mandaram, gravei o template que tinha, etc. Só que, não sei porquê, depois de fazer save, o blogue resolveu não aceitar o template, revoltou-se, e mostrou uma mensagem incompreensível, dizendo vagamente que a linguagem não era a correcta!

Fiz novamente o download, mas ele recusou-se terminantemente a colaborar. Como de computês não percebo rigorosamente nada, fiquei capaz de arrancar os cabelos de desespero!

Tive que mudar tudo. A figura do perfil foi a única coisa que se salvou. Mas, já que mudei TUDO, mudei também o perfil!

Vamos ver se me habituo (o motor de pesquisa está ligeiramente esquisito...).

Socorro!

Quem te manda, sapateiro, tocar tão mal rabecão?

01 março 2007

Noite

Negro barco
pedra fumo
negro arco
perde rumo.

Ergue véu
quebra cor
estala céu
cala dor.

Arde neve
sopra ser
ao de leve
anoitecer.

(Pintura de vidro de Althea Braithwaite: glass sea)

Reciclar

Serenamente arrumei
o cabide dos ombros,
metodicamente desossei
as bengalas das pernas,
aplicadamente desatarraxei
vértebra a vértebra.

Com as mãos em pás
esperançadamente atirei
a carne desabada:
ecologicamente reciclei.


(Aguarela de Mary Burke: recycle)

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...