Não sou a favor de Dias Internacionais de nada, nem da mulher, nem do homem, nem da criança, nem de nenhum órgão, doença, causa ou animal em perigo de extinção, de árvores ou arbustos, de patrimónios arquitectónicos ou naturais.Mas isso não significa que não existam discriminações, nomeadamente no que diz respeito aos géneros feminino e masculino.
De uma forma geral as mulheres trabalham mais horas que os homens, pois acumulam várias actividades profissionais: uma que, eventualmente, escolhem, e que é remunerada, outras que carregam pelo simples facto de terem nascido com o par de cromossomas XX e que são as de empregada doméstica e de educadora de infância.
De facto, e por enquanto, a existência de útero implica gravidezes e partos, a existência de mamas e várias hormonas (estrógenos, prolactina, oxitocina, etc) implica amamentação. Mas não implica levantar-se a meio da noite sempre que a criança chora, mudar fraldas, levar as crianças aos infantários, aos colégios, aos amigos, aos pediatras, aos dentistas, comprar-lhes roupa, vesti-los, calçá-los, dar-lhes de comer, dar-lhes banho, adormecê-los e acordá-los.
Também não implica saber o funcionamento e os programas das máquinas de lavar roupa e louça, de detergentes, da arte de passar a ferro camisas e calças, de limpar nódoas de gravatas, de passajar meias e de coser botões, de trocar lâmpadas quando se fundem, de ir às compras, de cozinhar, de saber de limpezas de pó e de cera para móveis, de mudanças de roupa da cama, de renovar pratos quando se partem, e de pensar em tudo, prever tudo, lembrar de tudo!
É verdade que muito já se fez, mas muito há ainda para fazer. E o mais difícil é convencer as próprias disso. Até porque medidas que são muito populares e muito politicamente correctas, muito defensoras das crianças e do bem-estar da humanidade futura, com dar muitos meses À MÃE para ficar com as crianças, pode funcionar exactamente no sentido do retrocesso, levando a que cada vez mais mulheres se afastem do mercado de trabalho, porque são preteridas.
Gosto de comemorar todos os dias na partilha de direitos e deveres entre pessoas, homens e mulheres, velhos e novos, com as suas diferenças e complementaridades.
Nota: Obviamente que tudo isto só se aplica ao nosso pequeno mundo privilegiado e rico.
(Pintura de Pablo Picasso: mulheres)
Nem tudo é assim, Sofia. Eu não faço muitas coisas, mas vou sempre às compras (às vezes sozinho), mudo as lâmpadas fundidas, substituo as torneiras que posso, cozinho muitas vezes e um ror de coisas mais. E se outros não o fazem, acho que a culpa é das mulheres, porque isso deve ser abordado antes de juntar os trapinhos. Por mim e pela minha mulher, há mais de 30 anos, não o foi, mas nunca houve esse problema de uma forma tão aguda. Afinal, no serviço militar tive de aprender a coser botões e a fazer outras coisas. (ao ouvido: altere lá o "descriminar" para "discriminar")
ResponderEliminarEm primeiro lugar agradeço ter reparado na gralha. Obviamente que queria dizer "discriminar" e não "descriminar". Está corrigido.
ResponderEliminarEm segundo lugar concordo consigo. As mulheres são muitas vezes mais conservadoras que os homens. Mas tudo está a mudar.
Bom dia Sofia!
ResponderEliminarEm termos ideais não seria preciso existir o dia da água, do ambiente, dos deficientes, da criança, da mulher (é suposto todos nós, diariamente pensarmos, respeitarmos e conduzir as nossas opções em função de todas estas realidades). Em termos práticos talvez esses dias especiais existam para, pontual e obrigatoriamente, nos levar a parar na vida complicada que temos e intuirmos aos poucos aquilo que, em teoria, todos sabemos: a prova é este seu post e este diálogo que me permito ter consigo.
Concordo inteiramente com a segunda parte. De facto é complicado o dia a dia das mulheres. Também sei que muitas vezes, por educação, por necessidade ou até generosidade (tonta) nos antecipamos a executar todas as tarefas que em boa verdade poderiamos repartir.
Já estou reformada, mas há alguns anos (a trabalhar por turnos, marido muito ausente por necessidades inerentes à profissão, 3 filhotes rapazes) eu dizia, em desespero, naqueles tais dias muito compridos :«Não preciso que me ajudem! Preciso que façam!!!».
Penso que é esse o cerne da questão: mais complicado e cansativo do que as tarefas é ter de gerir e pensar em tudo e em todos! È isso que nos desgasta e, muitas vezes, nos tira o sono.
São, é verdade que, teoricamente, os vários dias internacionais podem servir para isso. Mas, na prática, são ocasiões para se dizerem preciosas inutilidades que, habitualmente, não têm quaisquer consequências. De resto, penso que todas as mulheres repetem consigo: "Não preciso que me ajudem! Preciso que façam!"
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