30 maio 2006

Serviço público

Todos sabemos que a Ministra da Educação tem razão quando fala da organização dos horários e da formação das turmas, do cumprimento burocrático e da falta de orientação e motivação das escolas.

Todos sabemos que é verdade que nas várias instituições do Estado, que deveriam providenciar os melhores serviços a todos os cidadãos, ter funcionários exemplares que entendam o que é serviço público, está instalado o laxismo, o deixa andar, o tanto faz fazer muito como pouco. Estou a referir-me a escolas, centros de saúde, hospitais, tribunais, serviços de finanças, etc.

Deixemo-nos pois de gritinhos de espanto e poses de virgens ofendidas e desvirginadas quando o ouvimos dizer, alto e claramente, por quem deve zelar para que as coisas mudem.

Deixemos pois de clamar contra o governo e contra o parlamento e contra o presidente. Somos nós, como sociedade, que temos que nos exigir mais. Premiar quem merece, punir quem não merece.

As reestruturações das várias carreiras são indispensáveis. As progressões por mérito, por concursos públicos, por capacidades, por dedicação, são imperiosas, como imperioso é avaliar a competência dos profissionais, desde os mais altos responsáveis.

Não se admitem mais conjuntos de frases bombásticas da parte de quem diz que defende mas só desacredita os verdadeiros profissionais.

Cortar

Ontem, Medina Carreira no seu melhor. Penso que não devemos preocupar-nos com a despesa, com os impostos, com o emprego, com o país, visto que não tem solução, visto que ainda não estamos preparados para as verdadeiras, as fundamentais, as profundíssimas reformas que ele, Medina Carreira, sabe que são necessárias. Não diz é quais.

Sabe que Teixeira dos Santos diz uma parcela da verdade, mais precisamente 20%, mas que os restantes 80%, em que estão incluídos os serviços de saúde, de educação, subsídios de desemprego, de maternidade, etc, estão envoltos em brumas e cortinas de fumo.

Porque não nos disse ele então como cortar nesses 80%? Passamos a ter que pagar a educação, as consultas médicas, os internamentos hospitalares? Deixamos de receber 13º e 14º meses, subsídio de desemprego, subsídio de alimentação? Deixamos de ter direito aos 4 meses de parto, subsídios de funeral, abonos de família?

O quê? Eu estou preparada! Acho é que Medina Carreira não está preparado para mo dizer!

28 maio 2006

Por te amar


Por te amar
cantarei todas as notas
subirei infinitos degraus.

Por te amar
guardarei secretos
sinais de afago.

Por te amar
serei asa voz ou sombra
em teu lugar.


(pintura de Chagall: amantes)

Abafante


Todos os esforços para que haja o maior contacto possível entre a pele e o ar, se fosse possível a suspensão no ar. Quente, pesado, peganhento, como uma grande mão suada que nos envolve e sufoca.

Não há diferenças de temperatura entre o ar exterior aos pulmões e o ar que está nos alvéolos, tão preguiçoso que demora a trocar dióxido de carbono por oxigénio. Tudo se mexe devagar, para não fabricar calor.

Fecham-se todas as persianas e abrem-se todas as janelas. Ao lusco fusco, junto a um copo de água e ouvindo cds da Dinah Wasington, espero dolentemente que arrefeça.

(Pintura de Jon Schueler: summer storm)

14 meses

Medina Carreira é um catastrofista emérito, senhor de previsões apocalípticas e azedume no olhar.

Mas, infelizmente, tem muitas vezes razão. E tenho que concordar que os cortes na despesa pública têm que ser feitos de imediato.

Quando se fala do novo cálculo das pensões, que irão afectar os próximos pensionistas, isto se houver pensões a distribuir, porque não reduzi-las já, agora, este ano? Porquê adiar o que, todos concordam quanto a esse ponto, é inadiável?

E depois, se não há dinheiro para pagar um 14º mês aos reformados, como se vem ouvindo murmurar, qual boato insidioso que se lança a ver se pega, então porque não deixar de pagar o 14º mês a toda a gente? Mas toda mesmo, incluindo administradores e directores, função pública e sector privado. Parece-me mais justo e mais solidário, em vez de, demagogicamente, acenar com o facto de os reformados já não trabalharem.

Em quantos países os trabalhadores recebem 14 meses?

Mais avaliações

As avaliações são sempre injustas porque é impossível reduzir a zero os imponderáveis que podem influenciar a prestação de um indivíduo num determinado momento.

Mas as avaliações são indispensáveis, principalmente se feitas por actores externos a quem está a ser avaliado, e se forem usados critérios objectivos.

Vem isto a propósito da anunciada avaliação dos professores, para efeito de progressão na carreira.

Hoje os títulos dos jornais são menos bombásticos que os de ontem. Hoje os pais já só vão participar, juntamente com as autarquias, os alunos e os próprios professores (auto avaliação) numa nota final. Continuo sem conhecer o documento.

Mais uma vez, somos bons a produzir documentos esdrúxulos, que contém muitas palavras que querem dizer pouco. Muitas (boas?) intenções, mas pouco rigor e pouca aplicabilidade.

A avaliação dos professores faz-se determinando se os alunos aprendem ou não. Ou seja, através dos resultados de exames nacionais.

É claro que a assiduidade, o bom humor, o número de complementos de formação, etc, que fazem parte da vida escolar, também são importantes. Mas o que demonstra que um professor consegue ensinar é comparar as notas que ele dá, no fim de cada período, com as notas que os seus alunos têm em exames nacionais, em que os factores locais e circunstanciais estão esbatidos.

O que quer o ministério dizer com o conceito de ser necessária uma maior responsabilização dos pais? Que eles têm que fazer os trabalhos dos filhos, com os filhos, até altas horas da noite? Que são obrigados a perceber de matemática, história ou português para lhes tirarem as dúvidas? Que devem obrigatoriamente ter um computador, internet, impressoras, “scanner”, etc, para fazerem os elaborados trabalhos que são pedidos às suas crianças?

Tanto se fala da integração dos imigrantes, da luta contra a pobreza, o analfabetismo funcional, o abandono escolar. O que deveria preocupar o ministério, a par de uma avaliação rigorosa dos seus professores, deveria ser uma responsabilização dos conselhos directivos, que têm como função orientar e avaliar, uma remodelação total dos curriculae, abandonando a facilitação e instalando uma cultura de disciplina, rigor e verdadeira formação, com componentes lectivas e não lectivas asseguradas pelos professores, que deveriam dedicar-se a tempo inteiro à sua escola e aos seus alunos. Desenvolver o orgulho de pertença a uma instituição, premiando o mérito dos alunos. Melhorar as instalações escolares, de forma a ser possível, de facto, professores e alunos permanecerem na escola a trabalhar.

É claro que já há ameaças de greves da parte dos sindicatos (tudo como dantes). Gostaria de, nem que fosse só por instantes, ouvir os sindicatos a defenderem e a pedirem exames nacionais.

27 maio 2006

Avaliações

Não percebo muito bem qual o objectivo do governo ao propor, no estatuto da carreira docente, que os pais possam avaliar o desempenho dos professores, contando essa avaliação para uma possível progressão na carreira.

Obviamente aplaudo que a progressão na carreira seja feita se houver uma avaliação positiva do trabalho de um professor, e concordo com concursos e com provas, sejam elas de que tipo forem, para aceder a um grau superior, com a consequente alteração de funções, responsabilidades e, bem entendido, melhor remuneração.

Considero a participação dos encarregados de educação na vida educativa positiva, desejável ou mesmo indispensável. Mas avaliar os professores? Em que vertentes? Se é simpático ou antipático, se dá boas ou más notas, se tem muito ou pouco sucesso?

A avaliação dos professores, como a avaliação de qualquer técnico, deve ser feita pelos seus pares, com rigorosos critérios científicos, de competência técnica e, neste caso, pedagógicos.

Não conheço em pormenor a proposta do governo, mas torço o nariz a esta medida que pode ser politicamente muito correcta, mas cujos resultados serão, muito provavelmente, desastrosos.

Para variar, estou de acordo com a posição dos sindicatos, relativamente a esta matéria específica.

E se fosse dada aos professores a possibilidade de avaliarem os encarregados de educação?

Dogmas

No nosso imaginário colectivo vemos doentes lado a lado, vencedores e vencidos, ricos ou pobres, negros ou brancos, religiosos ou ateus, de esquerda ou de direita.

Será dos momentos em que a nossa humana condição nos demonstra a suprema igualdade dos seres e a inutilidade das várias distinções em que somos exímios criadores.

Mas hoje, ao ouvir dizer que em Timor, no hospital, se separavam os feridos consoante o “lado” a que pertenciam, senti ruir mais um dos dogmas por que sempre me regi.

Clandestina


Neste amolecimento quotidiano
alimento os cofres clandestinos,
estico as bandeiras do silêncio,
aguardo o abanar das fibras.

Nesta penumbra de nós enredados
aliso os lençóis. Pesa-me o sono,
alonga-me a noite de sussurros,
mil olhos que transpiram sinais.

Folheio o catálogo das emoções.
Mais tarde decido quais as gotas
De dor e desvario, de intenso amor
que liberto destas secretas prisões.


(pintura de Manel Lledòs: segredos)

26 maio 2006

Boas notícias!

Ouvi na rádio que, finalmente, vai deixar de haver direito de propriedade das farmácias (pelos farmacêuticos), que as farmácias hospitalares vão estar abertas ao público durante as 24 horas do dia, que os medicamentos vão deixar de ter preço único.

Aleluia, aleluia! Sr. Ministro, ainda falta a prescrição médica por denominação comum internacional, mas já é alguma coisa!

25 maio 2006

Timor


Estas casas de pedra de terra
estas meias de pele
estas ruas de fome de espera
estas mãos de nada.

Passos parados de sol
olhos fechados de luz
caminhos que faltam já tardam.

Desce a cortina das sombras
na cama de amanhã.

Cá estaremos ou não.



(pintura de Élio Oliveira: Timor Lorossae)

24 maio 2006

Sem palavras

Alguém se está a passar, no Diário Digital! Será todos os dias assim e eu tenho andado distraída?

Diário digital em grande

Outro exemplo de excelente jornalismo, mais para o lado do absurdo-chocante. Gosto particularmente do título bombástico.

Notícias (?!) de espantar

Nova fórmula de emagrecimento à vista: o sono do adelgaçamento!

Realmente, o jornalismo está pelas ruas da amargura. Será que ninguém tem o mínimo de sentido crítico? Como é possível fazer sair uma notícia assim?

23 maio 2006

Lápis


Gosto dos lápis de carvão, dos lápis de cor e dos lápis de cera. Gosto da forma, da cor, do cheiro, do traço que vai nascendo pelos dedos, das sombras, dos cabelos, das letras, dos sóis dos meninos, das bolas, das caricaturas, das cartas de amor, dos palavrões.

Gosto mais de lápis do que de canetas, porque eles gastam-se ao nosso serviço, sacrificam-se e morrem por nós.

Quantas vezes foram eles a pagar as nossas angústias de contas por acertar, de caligrafias pouco ortodoxas, sendo trucidados e afiados sucessivamente, à procura da inspiração dos bicos, culpando as pontas já rombas do esforço?

Lápis de carvão, lápis de cor, lápis de cera Viarco: lindos, úteis, simples, nossos.

Fusão alternativa

Também gostava de ouvir falar deste tipo de energia alternativa. O que é, para que serve, alternativa a quê, quais as vantagens, os inconvenientes, enfim, gostava de ser informada.

Será que o Sr. Patrick Monteiro de Barros não se quer empresarialisar na fusão a frio???

Contras sem Prós

Assisti ontem à maior parte do programa “Prós & Contras”. Foi uma tristeza.

Manuel Maria Carrilho (MMC) com tiques tresloucados e histéricos, voz desafinada e olhar alucinado, demonstrou à exaustão a sua petulância, arrogância, pedantismo e um ego desmesurado, atropelando as palavras de toda a gente, raiando a má educação.

A maior infelicidade é que eu até acho que MMC tem razão nalgumas coisas que diz. É verdade que há uma total desvirtuação das (poucas) mensagens dos políticos, protagonizada pelos jornalistas, que procuram o espectáculo e não a informação. É verdade que o poder dos média é quase incontrolável. É verdade que somos intoxicados por pretensas notícias sem que os jornalistas se tenham preocupado em percebê-las, explicá-las ou sequer confirmá-las, e que se repetem em todos os jornais, televisões etc, até gastarem a paciência de quem vê, lê ou ouve. É verdade que é quase um sacrilégio dizer-se que há mau jornalismo.

Mas parece que MMC só se apercebeu disso porque perdeu as eleições, não porque genuinamente o pense. Pelo contrário, tentou usar a comunicação social e saiu-lhe “o tiro pela culatra”. Para MMC a diferença entre estar em público e estar em privado, é que em público finge aquilo que não é.

Emídio Rangel, no papel de anjo virtuoso do jornalismo foi, simplesmente, risível.

Ricardo Costa, que é um dos jornalistas analistas, e cuja independência não é exemplar, enviou algumas mensagens pouco dignas, principalmente a Emídio Rangel, como por exemplo perguntar-lhe se tinha avisado Jorge Sampaio e Cavaco Silva de que estavam a ser filmados, num dos debates que fizeram. Mesmo que o não tenha feito não justifica um comportamento pouco ético da parte de Ricardo Costa. Mesmo assim, aguentou bem as inacreditáveis acusações de MMC.

Pacheco Pereira foi quem se saiu melhor, pedindo de imediato a MMC que provasse a compra dos jornalistas pelos tenebrosos agentes imobiliários, e desmascarando a total incoerência dos políticos que se servem da comunicação social e que depois dizem mal dela.

Fátima Campos Ferreira não soube manter a conversa ao nível da discussão sobre a democracia e os valores da liberdade e responsabilidade informativas, conduzindo-a para o reino da maledicência, o diz que disse, acusações não demonstradas, puxando as revistas cor-de-rosa e os episódios com Bárbara Guimarães para inflamar MMC. Foi vulgar.

Assim se deu mais um exemplo do que é um mau programa de informação: em vez de esclarecimentos tivemos um espectáculo de má qualidade.

22 maio 2006

Poesia premiada


Viagem

Não penses na rédea, na espora,
não penses nos cavalos que partiram num qualquer
outono,
não lamentes, não olhes para trás,
não queiras dar o seu a seu dono,
e vai,
vai simplesmente para sul, para o acaso de tudo,
e pelas noites brancas derrama uma lágrima,
uma lágrima de ouro.


Prémio de poesia da APE: José Agostinho Baptista.

Oscarzinhos

Ontem passei pela SIC e estava a dar a gala dos globos de ouro. Porque é que temos que imitar, em pequeno, pindérico e piroso, o que se faz nos EUA? A começar pela Bárbara Guimarães, com aquela forma tão explicada e tão soletrada de falar e de arrastar os erres?

Nuclearzinho

A pouco e pouco, com debates e opiniões lançadas e debatidas pela “entourage” de Patrick Monteiro de Barros, já se fala de um REFERENDO a propósito da construção de uma central nuclear.

A mim crescem-me os anticorpos a tudo o que diga respeito a esse senhor. A opção energética está a ser feita a reboque das ambições empresariais de uma pessoa que, inclusivamente, já anda a sondar câmaras municipais.

Qual será o preço que o país está disposto a pagar? Será que está disposto? Quais serão os responsáveis políticos que vão ter a coragem de assumir frontalmente essa discussão, dando a cara por ela?

O Sr. Engenheiro Sócrates, muito caladinho, anda a ver no que vão parar as modas. A conversa cheira a mentira, perdão, a inverdade.

21 maio 2006

Entre gatos


Espreguicei-me num arco tenso
mãos esticadas pernas flectidas
pêlos eriçados e miar de gato.

Ronronei pelo teu nome
enrosquei-me nas tuas pernas
e fechei os olhos.

Agora em curva convexa
os nossos dedos na conversa
em mansa e sedosa concavidade.



Entre sombras e gatos, até as nuvens nos acolhem.

(pintura de Javier Azurdia: Dos Gatos en Paris)

Ups...

Esqueci-me do CDS/PP. Porque terá sido?

Onde está a oposição?

Está a acabar mais um congresso do PSD. Que se arrastou penosamente, sem glória, sem que se vislumbrasse qualquer novidade, qualquer ideia, qualquer rumo. Dá a sensação de que há algumas pessoas que se vão posicionando e manobrando nos bastidores, para deixar torrar em fogo lento Marques Mendes, que se presta a esse papel, até daqui a cerca de 2 anos. Tenho um palpite que Paula Teixeira da Cunha está insidiosamente a ocupar espaço…

Do Bloco de Esquerda não se sabe. Como as pessoas se fartaram dos temas fracturantes como o aborto, o casamento dos homossexuais e as uniões de facto, desapareceram de circulação. Será que estão a incubar mais temas para nos fracturar?

Do Partido Comunista, tivemos um vislumbre na 6ªfeira, junto aos manifestantes da função pública. Jerónimo de Sousa já perdeu a graça, pelo menos junto dos média, que o têm levado ao colo desde que assumiu a direcção do partido. O mais hilariante era ele, como candidato a Presidente da República (um cargo UNIPESSOAL), empregar sempre a 3ª pessoa do plural na conjugação dos verbos: faríamos, achamos, gostaríamos…

Os sindicatos da função pública estrebucham antes do estertor final. Ninguém lhes liga, ninguém sabe porque lutam, quem representam, etc. Eles próprios perderam totalmente o contacto com a realidade, convocando mais uma greve e mais uma GGGRRRAAANNNDDDEEE manifestação (parecem o Jorge Coelho), a uma 6ª feira, contra, entre outras banalidades repetidas desde que apareceram (há cerca de 30 anos), a reforma da administração pública!!!

E assim continuam José Sócrates e os seus ministros, sem qualquer fiscalização, sem qualquer oposição digna desse nome, a falar da retoma da economia, da diminuição do desemprego, a mostrar-nos pessoas como o Vitalino Canas, o António Vitorino e outros, a aguentar o Souto Moura, a lançar “bocas” para o ar, para ver se pegam (como o caso da hipótese de acabar com o 14º mês para os reformados) em vez de assumirem frontalmente as suas políticas, a enredarem-se em contradições.

Triste país o nosso!

Não, não sou pessimista. Sou realista. Somos um povo inacreditável!

20 maio 2006

LSD natural


Não sei que reacções químicas se passam no meu cérebro idênticas, com certeza, a um potente alucinogénio. Às vezes isolo-me dos ruídos ambientes, da mesa de café, das companhias e começo a observar quem passa.

Repentinamente as proporções dos corpos das pessoas, as dimensões das orelhas, das cabeças, dos braços, dos narizes, os penteados, as roupas, os sorrisos, os olhares, o alheamento de alguns, a ternura de outros, adquirem novas cores e significados.

Nos primeiros dias de praia sou capaz de redigir um tratado apenas baseado na observação dos pés dos banhistas. É extraordinário como os calos, as unhas, os joanetes, os tornozelos, os inchaços, as cores do verniz, a inexistência dele, as chinelas, os saltos, enfim, toda uma panóplia de acessórios de podologia informam sobre a personalidade, a felicidade, o trabalho, a família, a classe social, de todos nós.

Se estivesse a ver a humanidade através de uma lente de aumentar, deslocando-a para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, em que certos pormenores se tornavam grotescos, enternecedores, admiráveis pela sua grandeza, não seria mais aterrador...

Renovar a descrição


Há quanto tempo, Portugal, há quanto
vivemos separados! Ah, mas a alma,
esta alma incerta, nunca forte ou calma,
não se distrai de ti, nem bem nem tanto.

Sonho, histérico oculto, um vão recanto…
O rio Furness, que é o que aqui banha,
só ironicamente me acompanha,
que estou parado e ele correndo tanto…

Tanto? Sim, tanto relativamente…
Arre, acabemos com as distinções,
as subtilezas, o interstício, o entre
a metafísica das sensações –

Acabemos com isto e tudo o mais…
Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!

(poema de Álvaro de Campos, caricatura de Almada Negreiros)

Descodifiquemos...


Acho engraçadíssima a preocupação de certas pessoas assegurarem que não leram “O código Da Vinci” mas que acham que o livro representa a literatura menor, de aeroporto, como agora se diz. E que nem sequer vão ver o filme porque (para as mesmas pessoas) de certeza que não vale a pena, a julgar pelo marketing, deve ser uma grande produção comercial, sem nenhuma qualidade, exactamente como o próprio livro e (suspeito eu) o próprio autor.

Habitualmente os filmes cujos argumentos são adaptações de livros são uma desilusão. Entre as honrosas excepções, e que me venham à memória, contam-se “África minha”, “A insustentável leveza do ser” e “O nome da rosa”.

Os dois primeiros conseguiram transmitir e recriar as atmosferas dos livros, respirando-se a beleza e a imensidão de África, a ternura melancólica e doce na ex-Checoslováquia ocupada. O terceiro filme não pretende ser uma cópia fiel do extraordinário livro de Umberto Eco, mas é um excelente filme policial em que o ambiente obscurantista e miserável da idade média está muito bem retratado.

Li “O código Da Vinci” vorazmente e essa é uma das virtudes do livro. Está escrito de uma forma que prende o leitor do princípio ao fim, não lhe dando tréguas. Tem um tema fantástico, utilizando as várias teorias que pululam sobre Jesus Cristo e Maria Madalena, misturando-as com secretismo e esoterismo, fanatismo religioso, maçonarias e ordens secretas, códigos por decifrar e arte.

É um livro com personagens a traço grosso, sem grandes veleidades de modelação psicológica ou de grandeza literária. É um livro de aventuras, que entretém muitíssimo e que, quanto a mim, cumpre bem a sua função.

Por acaso não estou com muita vontade de ir ver o filme, porque não gosto de me desiludir e tenho um preconceito relativamente aos eventos muito badalados. Mas parece haver uma estranha unanimidade entre alguns intelectuais, idêntica à unanimidade entre os guardiães da fé, que já “condenou” o livro e que agora "condena" o filme…

Meditemos


Há dias em que não devíamos ler os jornais, nem ouvir notícias radiofónicas.

Às vezes a santa ignorância é uma bênção. Poderíamos manter algumas ilusões e crenças inocentes.

Providências cautelares, escolas que se decide fechar, irmanar, concentrar, depois já não se irmana nem se concentra, mas fecha-se na mesma (jornal "Público" de hoje, pág. 52). Ninguém sabe porquê, quais as razões de uma ou de outra coisa.

Depois de todo este tempo de urgência, Souto Moura vem revelar que só não concluiu a investigação sobre o caso “envelope 9” porque ainda não pôde investigar os computadores dos jornalistas do “24 horas”. Mas já sabe que a PT e os jornalistas são os culpados. E vem dizer isto para o Expresso!

Marques Mendes torna a fazer demagogia com o assunto maternidades e Manuela Ferreira Leite aplaude o que criticou.

Enfim, vou ver se fecho para meditação transcendental.

À espera de Godot

Confesso que não me lembrava bem da peça de Samuel Beckett. Já a tinha visto há muito tempo, na televisão, e tinha-me ficado na memória qualquer coisa interessante e vagamente ininteligível.

O Teatro Meridional, mais uma vez, superou as minhas expectativas. Um palco minimalista, um excelente jogo de luzes e interpretações extraordinárias de Miguel Seabra (Estragon), João Pedro Vaz (Vladimir), Pedro Gil (Lucky) e António Fonseca (Pozzo), com destaque para os três primeiros.

De tal forma bons que conseguiram manter a plateia atenta até ao fim.

Relativamente à peça em si, ao texto, à estrutura narrativa, aos tempos, foi difícil aguentar-me estoicamente, porque os achei longos, mastigados, entediantes.

O texto é um intrincado aparentemente desconexo sobre a inexorabilidade e omnipresença do tempo, a inutilidade de fugir da teia universal que nos obriga a esperar que algo ou alguém dê um significado à existência, o absurdo das ligações humanas que se tecem, como o poder e a submissão, o companheirismo e a amizade ou, pura e simplesmente, o estar, enquanto Godot não chega.

Nesse aspecto, o texto mantém a sua actualidade. Aliás, é intemporal. Mas, que me perdoem os Beckistas militantes, é demasiado grande, demasiado repetitivo, estendendo-se até ao desespero do espectador.

Mais uma vez, a minha homenagem ao Teatro Meridional pela forma sóbria e intimista com que, apesar de Beckett, me fez apreciar o espectáculo.

17 maio 2006

Criatividade

Há algumas pessoas em quem não se pode acreditar. São como as lendas: quando falam, há sempre um fundo de verdade, enterrado no meio de tanta invenção e acrescento, pormenores e verificações. O desafio é tentar encontrar esse vislumbre do facto em si, que despoletou a história. São pessoas muito imaginativas.

Estamos na mesma com o governo. Os maravilhosos e vultuosos investimentos que seriam feitos no país, anunciados com pompa e circunstância por Sócrates e seus ministros, um deles com o extraordinário e benemérito Patrick Monteiro de Barros, afinal não são bem assim. Qual será o fundo de verdade? Talvez que haverá alguns investimentos…

Agora o ministro das finanças vem à praça pública anunciar que o desemprego, no primeiro trimestre deste ano vai estagnar, ou mesmo descer. Qual será o fundo de verdade? Talvez que há desemprego…

Bem sei que gostamos de ser criativos. Mas tanta criatividade...

16 maio 2006

Demagogia?

Não se percebe muito bem qual o interesse de badalar aos quatro ventos que Manuela Ferreira Leite acha que a posição da direcção do PSD é demagógica, relativamente ao assunto (que já não se aguenta!) das maternidades.

Em geral os partidos (todos!) quando estão na oposição, são contra, quando estão no governo, são a favor, utilizando, enterrando e reciclando argumentos, consoante o caso. Não é novidade.

Mas não vai haver um congresso do PSD? Será que Manuela Ferreira Leite vai lá dizer que o PSD está a ser demagógico? Ou é só para ir marcando terreno, para que, daqui a alguns anos, havja uma reserva moral do PSD que substitua o desgraçado Marques Mendes, antes das próximas legislativas?

Passeios


Desceram a rua íngreme e foram dar às traseiras da Enoteca. O ar abafava. Entraram e a frescura da pedra entranhou-se, provocando até um ligeiro arrepio.

Subiram a escada. Recolhida a um canto, uma mesa quadrada em losango, para recolher um casal.

Pediram dois menus de prova. Veio o espumante para se saudarem, mais uma vez naquele local, mais pesados, com mais rugas e cabelos brancos, com mais assuntos de conversa, mais namoro.

Lentamente foram comendo pequenas iguarias: mexilhões e tâmaras com bacon, com espumante, chévre com tomate seco e carpaccio de bacalhau com branco, pato fumado e morcela de arroz com maçã com tinto, sericaia com Porto, café.

Discorreram sobre muita coisa, saboreando silenciosamente a mútua companhia.

Quando saíram, mais risonhos e aéreos, subiram milhares de degraus e foram até ao Chiado. Lisboa estava tão bonita!

Dança


Caminhamos na praia de mãos dadas.

Falamos como as ondas e as rochas
devagar e duramente,

com espuma sol ou areia.

Desenhamos as pegadas lado a lado
sem medirmos os passos.

Olhamos os dois para o céu.
Um sente pleno o outro azul,
a plenitude do mar que navegamos.


(pintura de Fernando Botero: dance)

15 maio 2006

Pudor


Sinto o calor
da pele
o perfume quente
da camisa
a doçura dos olhos.

Dilata o peito
por ouvir-te
estremece o ardor
ao descobrir-te.

Mas não to digo.

As palavras
congelam
evaporam
desidratam
têm pudor
de ser tão pouco
para que te declare
o meu amor.

(pintura de Gloria Rabinowitz: wet clouds)

O Professor

Ontem, por acaso, vi a análise do Prof. Marcelo na RTP. Já há muito tempo que me tinha deixado disso, devido à forma assertiva, aligeirada e pau-para-toda-a-obra do Professor.

Fiquei siderada pela sapiência salpicada de fait-divers. Mas o mais espantoso é que passou pelo problema das maternidades sem comentar as providências cautelares!

Vou ver se deixo de o ouvir por mais uns tempos! É muito enervante!

O bem comum

É cada vez mais notório o triunfo do individualismo sobre o bem comum.

Nas nossas sociedades ocidentais, livres, democráticas e com elevado nível de vida, as necessidades do indivíduo, a realização pessoal e profissional, alicerçada na conquista de status económico e social, são objectivos prioritários.

A maternidade / paternidade são adiadas até quase ao limite da capacidade biológica para procriar. A assumpção da responsabilidade parental é aligeirada e transferida, sempre que possível e em nome da solidariedade inter gerações, aos avós, esquecendo-se imediatamente essa mesma solidariedade quando a velhice dos mesmos avós se torna incapacitante, tornando-os dependentes.

Nessa altura, porque não estamos preparados para a verdadeira solidariedade, porque o culto da assepcia e da eterna juventude nos impossibilita de encararmos o avanço da idade, das rugas, a perda de memória, etc, instalam-se verdadeiros dramas nas nossas vidas. As mulheres trabalham, os homens também, os filhos têm as suas agendas e ninguém pode prescindir do seu quarto, dos seus telemóveis, dos seus jantares, dos seus computadores, das suas reuniões, dos seus cinemas, dos seus hábitos.

No entanto, com o aumento da esperança de vida, a diminuição do número de crianças e de empregos há pessoas (homens e mulheres) que vão passar a estar em casa, obrigatoriamente, porque não têm trabalho fora dela.

Será que vamos aproveitar para reabilitar a tal solidariedade intra e inter gerações, reconhecendo o importantíssimo papel que têm os cuidadores numa família, que estejam presentes e que apoiem, sem que isso seja considerado uma desgraça, um desprestígio, um falhanço?

Será que vamos aproveitar a melhoria na formação individual e as novas tecnologias, para nos desenvolvermos com qualidade, sem tabus ou preconceitos, que procuremos o nosso lugar na sociedade, sendo capazes de nos adaptarmos às circunstâncias, retirando disso proveito e felicidade?

Será que os homens deste país vão aceitar o desafio de serem eles a acompanharem filhos e pais à escola, às consultas médicas, às refeições, que aprendam que o carinho não é exclusivo das mães?

Será que os empresários deste país se lembram dos velhos e começam a investir em equipamentos sociais de qualidade, gerando emprego nas áreas de cuidados continuados, criando e produzindo aparelhos que facilitem a vida a quem tem dificuldade em caminhar, ver, comer, etc?

Será que as nossas maravilhosas sociedades desenvolvidas se vão esquecer de que o estado tem funções, nomeadamente em áreas de sobrevivência da dignidade individual, da protecção aos mais fracos e necessitados, da prestação de cuidados a todos por igual?

Ou será que, mais uma vez, devido ao papel tradicional da mulher, dona de casa e enfermeira não especialista de cuidados domiciliários, tão divulgado neste país, e ao aumento do desemprego, se assista a um novo escovar das mulheres da vida profissional, retrocedendo algumas décadas nas conquistas dos seus direitos?

13 maio 2006

Untitled



Isto é mesmo muito divertido! Agradeço a ideia ao Blasfémias.

A (nossa) democracia

Subscrevo inteira e totalmente este post de Paulo Gorjão: "SOBRE A SEPARAÇÃO DE PODERES (IV)". Ainda não ouvi ninguém responsável, de nenhuma bancada parlamentar, juíz, magistrado ou outro, pronunciar-se sobre esta matéria.

Isto é uma democracia em que o estado de direito não existe, a não ser para bloquear, em nome não se sabe de quê nem de quem, o poder executivo, legitimamente eleito. Resta dizer que este poder judicial nem sequer é responsabilizável.

Arte


No Centro Cultural de Belém, galeria Arte Periférica, uma exposição de Eva Navarro. Vale mesmo a pena!

Biodegradável

Afio o sorriso,
crio um bico
de pássaro agudo e só.

Aparo os olhos,
dou-lhes nuvens.

Aparo os gestos,
sem dedos nem pele

Que fazer dos despojos,
pequenos detritos de mim,
senão soprá-los?

Biodegradáveis.

Bem-estar


Há dias que são como doces: suculentos, brandos, inebriantes. Saboreamos com vagar e deleite estas sementes de bem-estar e alegria.

(pintura de Jean-René Bazaine: árvores)

12 maio 2006

Em busca


Corpo frio
estendido
inerte.

Alma nua
aqui habitou
navegou.

Corpo retalhado
em busca
da causa.

Enfim o fim
a dúvida
o nada.

11 maio 2006

Obscurantismo

Carta do Presidente do Irão ao Presidente dos EUA

(…)
Liberalism and Western style democracy have not been able to help realize the ideals of humanity. Today these two concepts have failed. Those with insight can already hear the sounds of the shattering and fall of the ideology and thoughts of the liberal democratic systems.
We increasingly see that people around the world are flocking towards a main focal point – that is the Almighty God. Undoubtedly through faith in God and the teachings of the prophets, the people will conquer their problems. My question for you is: Do you not want to join them?
Mr President, Whether we like it or not, the world is gravitating towards faith in the Almighty and justice and the will of God will prevail over all things.

Vasalam Ala Man Ataba'al hodaMahmood Ahmadi-Najad President of the Islamic Republic of Iran


Deus nos livre dos iluminados que em nome de Deus falam, julgam e decidem.

Comissões técnicas

É muito difícil qualquer governo iniciar, ainda que a medo, qualquer reforma. Por um lado clama-se por reformas estruturais, coragem política, diz-se com ar soturno que batemos no fundo e que não há mais oportunidades.

Mas se há algo a mexer no horizonte, como agora o tão falado fecho das maternidades, levanta-se a população, laboriosamente acicatada pelos partidos da oposição que, nestas questões estruturantes, em coro bradam contra a prepotência do governo, que não explica as medidas e que é apenas economicista.

De facto, o governo tem obrigação de explicar os critérios em que se baseia para tomar decisões, e é para isso que há um governo: para tomar decisões políticas, cuja avaliação é feita pelos eleitores. Mas convém que haja quem queira ouvir as explicações.

Espero que este assunto não acabe como a co-incineração. As comissões técnicas só são boas quando dizem o que queremos ouvir.

Penitência

Morreu-me o sorriso escarninho na cara. Fui má e Deus castigou-me

08 maio 2006

Ruído


Cansam-me estas tardes de ruído,
muita cor muita fúria muito pó,
sem goles de imensidão
nem relvas murmurantes de prazer.

Voo para longe para ti
as tuas mãos como um rio.
Espero a sombra da tua voz
o antegozo de te ver.


(pintura de Sofie Siegmann: sounds)

07 maio 2006

Grávidas de Barcelos


Desde ontem que os noticiários avisam que as “grávidas de Barcelos” se vinham manifestar em Lisboa, contra o fecho da maternidade.

Hoje fala-se de 10 000 habitantes de Barcelos a manifestarem-se.

Tenho curiosidade em saber: quantas são as grávidas? Estamos a falar de 123 831 habitantes, com cerca de 18% com idade inferior a 15 anos.

O encerramento de maternidades obedece a imperativos técnicos que se prendem, entre outros critérios, com o número de partos/ano, porque há falta de obstetras para fazerem os partos e, principalmente, porque não há número suficiente de parturientes que assegurem aos obstetras uma experiência suficiente para que os partos sejam feitos de uma forma tecnicamente perfeita ou, pelo menos, aceitável.

Este problema não se resolve colocando mais obstetras e parteiras nessas maternidades, mesmo pagos a peso de ouro. A acentuada redução da população em determinados locais do país é uma realidade. A desertificação das regiões do interior é um dos factores mais importantes na diminuição do número de partos por dia. E é a falta de soluções de emprego que leva à desertificação.

Problema insolúvel? Não sei. Mas a demagogia de quem pretende que estas medidas são apenas economicistas é prejudicial precisamente a quem permanece em Barcelos, ou em terras com problemas semelhantes.

Fala de filha


Pelo rigor e exigência, pela companhia e compreensão, pelos telefonemas e cafés saboreados, pelo proteccionismo, pela partilha dos dias e da vida quotidiana, pela sabedoria, pela presença, pelo exemplo e pelo amor incondicional, acima de tudo e de todos, principalmente de ti mesma, eu te agradeço, mãe.


(pintura de Lorna Teixeira: circle of life)

Samuel Beckett

É altura de comprarem bilhetes. Não se atrasem pois podem chegar tarde de mais. Não se pode perder nem um espectáculo do Teatro Meridional!

Fala de mãe

Tenho os melhores filhos do mundo.

Quando bebés iam para a cama à 9 da noite e raramente precisaram que lá estivesse para os adormecer. Foram alimentados a biberão, por mim, pelo pai, pelas senhoras que ficavam com eles em casa, pelas avós, enfim, por quem fosse preciso.

Choravam, riam, sujavam-se e brincavam como todas as outras crianças. Raramente nos fizeram passar noites em claro. Acordavam todos os dias muito cedo e nós com eles. Éramos os primeiros na praia e os primeiros nos restaurantes.

Adaptaram-se bem ao infantário e à escola. Não gostaram muito da natação mas nadaram até ao 5º ano. Portaram-se sempre bem nas aulas, enfrentando as reprimendas dos professores quando tal acontecia. Sempre fizeram os trabalhos de casa sozinhos, pedindo ocasionalmente esclarecimentos. Sempre trataram eles próprios das mochilas e dos fatos de treino. Sempre gostaram de se vestir, calçar sapatos e tomar banho sozinhos.

Sempre acompanharam as nossas refeições, do princípio ao fim, sem deitarem comida no copo de água, sem se levantarem 30 vezes e sem berrarem, como mal educados, que se queriam ir embora. Sempre cumprimentaram as pessoas crescidas e tentaram receber os filhos das ditas, mesmo sem os conhecerem.

Sempre comemoraram os seus anos em casa, com alguns amigos, excepto uma vez em que me armei em mãe moderna (jurando para nunca mais, após 3 horas de tentar domesticar 20 selvagens destruidores, aos urros).

Sempre perceberam que cada um tem a sua individualidade e direito a privacidade. Sempre entenderam que podem contar comigo e com o pai, que precisamos de tempo para nós, como eles. Nunca lhes revistei as mochilas, os cadernos, os amigos. Nunca precisei de lhes confiscar telemóveis. Entram e saem, organizam a sua vida de acordo com regras universais, lógicas para todos.

Zangamo-nos muitas vezes, porque é assim que deve ser, cada um defendendo acaloradamente os seus pontos de vista e os seus territórios. Vivemos uma democracia musculada em que os pais têm a palavra final. São bons estudantes e bons conversadores. Têm um espírito crítico acutilante e um humor imparável. Cumprem as tarefas domésticas que lhes estão atribuídas sempre a resmungar.

Agora tratam-me com a condescendência e o carinho com que se tratam as peças de porcelana, ligeiramente periclitantes e a ficar fora de prazo. Dizem que sou peculiar. Respeitam-me.

Adoro os meus filhos, que são os melhores filhos do mundo. E acho que eles também gostam de mim.


(pintura de Almada Negreiros)

06 maio 2006

Tratem-no

Estranhei a nomeação de Freitas do Amaral para Ministro dos Negócios Estrangeiros pensando, como muitos outros, que podia fazer sombra a José Sócrates. Nunca acreditei que fosse um trampolim para se candidatar à Presidência da República.

Embora ideologicamente me encontre num campo bastante diferente do de Freitas do Amaral, sempre lhe admirei a coragem e o desassombro, achando-o ponderado e sensato, dono de uma cultura e de um savoir faire de causar inveja.

É com espanto crescente que tenho ouvido as suas intervenções, nomeadamente no caso das caricaturas, que tenho lido as suas ausências em reuniões importantes e as suas justificações descabidas. Para além das declarações e acções, preocupo-me genuinamente com o tom da sua voz e com a abertura inusitada dos seus olhos, que lhe dão um ar de perplexidade e de amedrontamento.

Será que Freitas do Amaral está fisicamente bem? Não terá alguma desorganização humoral ou hormonal? Em vez de tentarmos vislumbrar motivações políticas obtusas e obscuras não deveríamos propor um exame médico detalhado?

Estou sinceramente preocupada!

Pensar é viver

Os livros de auto ajuda, como os comentadores dos discursos, os analistas políticos como Marcelo Rebelo de Sousa e outros, estão na moda e são o espelho da sociedade actual.

É muito mais fácil ler ou ouvir o que devemos fazer e pensar em determinadas circunstâncias, do que utilizar a nossa própria experiência, personalidade e massa cinzenta, tentando discernir o que é melhor para nós próprios, que não o é forçosamente para outros.

Tipificam-se atitudes e opiniões, emoções e respostas, massificam-se vidas e estruturam-se comportamentos. Desde a forma como nos devemos relacionar com os pais, os filhos, os maridos, como encaramos a violência urbana, as birras das crianças ou a incontinência urinária, tudo está explicado em livrinhos bem intencionados e bem publicitados. A padronização de muitos aspectos da vida tem adormecido a capacidade de pensar com a própria cabeça.

Talvez escreva um livro de auto ajuda subordinado ao lema: pensar é viver!

A propósito

A propósito do Dia da Mãe, e embora não me reveja em 100% do que diz, o artigo de Helena Matos “Dias assim” no “Público” de hoje, é brilhante.

O exagero, o politicamente correcto, o pensamento dogmático pseudo científico demonstram-se em toda a sua plenitude em temas como a maternidade e a paternidade. As regras, as necessidades, o comércio à volta das mães, das crianças, dos bebés, das roupas, dos carrinhos, dos automóveis espaçosos, das chupetas, da amamentação, da comida, da posição para dormir, do tabaco, do álcool, da comida saudável e das caminhadas, das fotografias das ecografias e dos filmes das ecografias, dos acompanhamentos dos pais às consultas, enfim, de todas as obrigações e proibições que rondam quem pensa ter filhos, transforma o que é natural numa empresa dificílima. Tudo serve para culpabilizar as mães, os pais e a sociedade em geral pela incapacidade em ter dado amor, coisas e filhos à nação.

Isto para já não falar da própria decisão em ter filhos. Se não acontece no mês programado para o efeito ou, pior ainda, nos 6 meses seguintes, acciona-se toda a parafernália da infertilidade, como posteriormente, se acciona outra parafernália para a hora marcada do nascimento.

Nem tudo se compra nos supermercados, nem tudo se programa à hora, minuto ou segundo, não se é criminoso por beber vinho ou comer doces durante a gravidez, ou por não ter uma loja de bebés dentro de casa, uma carrinha e uma casa de quatro assoalhadas. Não se é mau pai por se não ter acompanhado a mãe a todas as consultas de gravidez nem a todas as consultas do primeiro ano de vida dos rebentos. Era preferível que o pai tomasse conta, sozinho, de algumas consultas posteriores, conversas com professores na escola, ou compra de sapatos quando é preciso, mudança de fraldas, banhos e refeições, etc.

Como Helena Matos diz, os antigos dogmas são substituídos por novos dogmas. A maternidade e a paternidade, a decisão de ter muitos, poucos ou nenhuns filhos, está cada vez mais legislada, compartimentada e espartilhada, pertencendo cada vez menos aos próprios.

Claro que todas estas preocupações existem na sociedade da abundância, em que há cada vez mais carência de bom senso!

05 maio 2006

Dias de Luz


“Olha que já chegaram os dias de luz... :)”



Côa-se a luz pela janela
a sombra do pássaro
esvoaça pelos livros,
a estrada quieta,
a calçada vazia
prolonga-se na voz deste dia.



(Foto)

Dias de cinza


Dias de cinza,
grãos de areia
finos, frios.

Dias de mantos
diáfanos, escuros.

Dias de sono
de abandono.


(fotografia de Craig Murray)

Faltas

Não percebo muito bem a lógica do aviso das faltas às aulas. Segundo me parece as faltas deverão ser sempre excepcionais. Se os professores adoecem, não podem saber com antecedência que vão estar doentes.

Se as faltas são devidas a congressos, cursos de formação ou visitas de estudo, não me passa pela cabeça que os professores, individualmente ou em grupo, não acautelem os tempos de aulas com outras actividades ou com outros professores.

Para que servem os grupos por disciplina, os Delegados de Grupo, ou o Conselho Directivo?

A febre legisladora e controladora do governo não resolve nem pode substituir a responsabilidade dos órgãos dirigentes de uma escola, hospital, empresa ou assembleia (da República também). Todos devem assumir as responsabilidades que lhes cabem e ser responsabilizados.

Não se podem criar polícias nem inspectores individuais para cada situação. O que se pode e, quanto a mim, se deve é pedir contas aos responsáveis pelas más prestações, ou pelas faltas dos seus colaboradores, para que eles próprios possam exigir e responsabilizar directamente os indivíduos.

Marca Portugal

Ontem andei todo o santo dia a pensar e hoje continuei. A TSF, como é sua obrigação matinal, acordou-me ontem com uma maravilhosa sondagem em que os portugueses estavam tristes e desiludidos com o seu país, concluindo que se Portugal fosse uma marca, estava condenada a desaparecer. Desafiava depois os portugueses optimistas (presumivelmente os que não tinham colaborado na sondagem) para, no fórum TSF, declamarem as razões para se gostar do país.

Não tive oportunidade para ouvir o Fórum, mas não deixei de me considerar optimista e tenho andado a pensar nas características que podem contribuir para ter orgulho no meu país.

Continuo a pensar mas já encontrei duas boas razões: somos muito imaginativos nas reportagens e nas manchetes informativas e temos um grande sentido de humor!

02 maio 2006

Amostra de Frida



Um dia de férias desgarrado do resto sabe bem, quebra o ritmo e aproveita-se ao segundo.

Assim sendo resolvi finalmente ir ver a exposição de Frida Kahlo. Saí de lá bastante desiludida, não com a Frida Kahlo mas com a exposição.

A exposição está dividida em 7 grupos: infância e juventude, 4 quadros (entro os quais “o autocarro” de 1929) e 3 desenhos; paixão por Diego Rivera, 2 quadros (“Hospital Henry Ford” de 1932 e “umas quantas facaditas” de 1935); casa azul, 10 quadros (“a minha ama e eu” de 1937, “a coluna partida” de 1944, “auto-retrato com macaco” de 1945); diário, 3 retratos; altares dos mortos; trajes de Tehuana; um documentário sobre a pintora, com testemunhos de sobrinhas, escritores e críticos de arte. Nos primeiros quatro grupos estão expostas fotografias de Frida Kahlo, feitas por inúmeras pessoas, entre as quais o pai e Diego Rivera.

A iluminação é muito fraca, os pequenos textos de introdução a cada parte da exposição e aos quadros, desenhos e pinturas lêem-se mal, porque a cor das paredes não faz contraste suficiente com a cor das letras. Há poucos quadros, poucos desenhos, pouco de tudo. Dá a sensação de que é apenas uma pequena amostra de uma verdadeira exposição, se calhar o pouco a que tivemos direito. Senti-me defraudada.

O documentário, pelo contrário, é interessante e esclarecedor. Dá-nos uma ideia de que o fenómeno Frida Kahlo é recente, que foi criado um comércio à volta da história revista, aumentada e retocada da pintora, carregando nas cores do sofrimento, da boémia com aventuras bissexuais, esquecendo-se o principal, a obra.

Não tenho conhecimentos de pintura ou de história de arte para discorrer sobre a técnica e / ou o valor da pintura de Frida Kahlo. Mas quem olha para os quadros sente uma força e uma imaginação prodigiosas. Naquela época deve ter sido inovador aquele tipo de imagética, de temas, de figuração da dor e da ansiedade, do corpo como altar.

Como apreciadora de pintura gosto das formas, das cores, dos mortos e do sangue, dos pássaros e do macaco, das camas, do sol e da lua chorosa. É uma pintura incómoda, atractiva e admirável.

Quanto à própria Frida era com certeza uma mulher extraordinária porque diferente, porque lutadora, romântica, amante e amadora da vida, da beleza, dela própria, da dor, dos homens e das mulheres, uma divulgadora orgulhosa da cultura do seu país.

(Frida Kahlo: a coluna partida – 1944)

01 maio 2006

Primeiro de Maio

Sou totalmente avessa aos aglomerados de causas, opiniões, expressões literárias, músicas na moda, tudo o que é a cultura do unânime.

É até preconceito não me apetecer ler os livros que toda a gente cita, ver os filmes que todos já viram, ir à praia quando luz o primeiro raio de sol, comprar sandálias tipo andas, pintar o cabelo de louro com madeixas vermelhas, usar as saias-hippies-pós-modernas-com-flores-e-túnicas deste verão.

Por isso hoje levantei-me cedo, apitei furiosamente ao carro do vizinho que se atravessava atrás do meu, li 2 jornais, tomei café 3 vezes consecutivas (o último já foi descafeinado) com 5 pessoas diferentes, enviei 3 e-mails, fartei-me de pecar na Internet e vou trabalhar durante a tarde.

Hoje estou bem, muito bem. Hoje sinto-me feliz.

(David Keen: New World)

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...