29 maio 2024

No mar

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Jason deCaires Taylor


 


Alargo no peito os abraços do mar


Dissolvo no sal as angústias de ser


Nas ondas da vida o cansaço de dar


Nas dobras do medo o soluço de ver


 


Não tenho do tempo uma agenda guardada


Nem marcas carícias ternuras ou cardos


Aceito do vento essa voz torturada


De ramos e pombos que crio e resguardo


 


Os dias são poucos mas tantos sinais


Na terra nos corpos nas almas distantes


Que faltam que sobram que prendem demais


Gritos solitários de velhos amantes


 


Alargo no peito o cansaço da vida


Dissolvo no tempo o soluço de amar


Nas ondas do mundo já estou de partida


Nas dobras do vento afundo no mar


 

17 maio 2024

Bodas de pedra

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Disseram-me que era de pedra, o nosso amor de aventurina verde.


Disseram-me que tanto se tinha colado que se tinha fundido e petrificado, com alguns escolhos no interior, um verde pintalgado de outras cores, textura pétrea, daquelas que não se quebram.


Assim foi, até agora, e assim acredito que continue. Uma aventurina que se vai continuando, nós a petrificar e a encolher, dando frutos a quem cresce e a quem se forma, papoila, rosa ou jacarandá, ou texturas ainda mais suaves que ainda estão no início da Primavera.


Disseram-me que era de pedra e na macieza das tuas mãos, na quentura da tua presença, eu afinal vou derretendo e espalhando, buscando insistentemente esta aventura de vida, uma aventurina bem esperançosa.

11 maio 2024

O novo governo

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Luís Montenegro


 


Desde a tomada de posse do novo governo, vamos percebendo o estilo.


A demissão da Provedora da Santa Casa da Misericórdia com base em acusações gravíssimas de incompetência e favorecimento próprio, como aconteceu à Dra. Ana Jorge, deve fazer-nos prever o que se vai passar.


A forma como o Ministro das Finanças actual resolve mentir sobre as finanças públicas, para justificar a impossibilidade de cumprir todos os desmandos de promessas feitas em campanha, é vergonhosa e tem consequências.


Isto são só dois exemplos. Não se vislumbra que haja capacidade para evitar eleições rapidamente. E não se vislumbra que o resultado seja melhor, muito pelo contrário.

Consequências

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Procuradora-Geral da República


 


A dissolução da Assembleia da República, motivada pela aceitação da demissão de um governo democraticamente eleito, alicerçado numa maioria absoluta, como resultado de uma investigação sobre corrupção ao mais alto nível (Operação Influencer), envolvendo o Primeiro-ministro António Costa, foi arrasada pela decisão do Tribunal da Relação de Lisboa.


Também na Madeira foi decidia a dissolução do Parlamento Regional, também em consequência de um processo judicial de corrupção envolvendo autarcas e empresários, alguns dos quais detidos 21 dias em prisão preventiva.


Não tendo havido, até à data, qualquer desenvolvimento que se entenda justificar as acusações do Ministério Público, a consequência mais imediata foi um verdadeiro golpe de estado judicial.


Até hoje não houve qualquer explicação da Procuradora-Geral da República, apesar de cada vez mais personalidades falarem em erro grosseiro da parte do Ministério Público. Tanto quanto sabemos, todos estes meses passados, António Costa ainda nem sequer foi ouvido no âmbito do processo que vai continuar.


Assistimos a um desmoronar da credibilidade das Instituições, à substituição da vontade popular livremente expressa por decisões judiciais, o que tem consequências óbvias, nomeadamente a instabilidade política instalada e a cada vez mais duvidosa separação de poderes.


É claro que são os populistas que lucram com esta situação. E por isso ouvimos atónitos à acusação de traição à Pátria feita por André Ventura no discurso da cerimónia solene comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril de 1974. E também a uma queixa contra o mesmo Presidente da República, pela mesma acusação, que teve que ser debatida no Parlamento.


Não há pingo de vergonha nestas pessoas. Nada as impede de emporcalhar as Instituições. Cabe-nos a nós percebê-lo e condená-lo.

05 maio 2024

Dias de mães

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Kaari Upson


Mother's legs


 


Muitos, todos, nos sonhos e nas velas, no trabalho e no descanso, nas brincadeiras e nos ralhetes, momentos de enorme e profunda felicidade, momentos de abismal e eterna tristeza e solidão.


Mães uns dos outros, a quem sabemos um colo ou uma farpa quando precisamos, em grupos misturados de tecnologia e abraços, de palavras, de sentimentos.


Para todas as mães e pais, que dividem esta condição ampliando-a, que se multiplicam em múltiplos deles próprios para o serem, para o aprenderem, para a incontornável e incomensurável tarefa de ajudar a criar alguém, que saboreiem este como os outros dias que foram e que serão seus.

28 abril 2024

Um dia como os outros (195)

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(…)


No cruzar do século temos os mesmos níveis de analfabetismo que outros países tinham no cruzar do século anterior. Quando se diz que tivemos de, em algumas décadas, recuperar de um atraso de 100 anos, está-se a ser literal. Nem um quinto da população ativa havia terminado o ensino secundário. Nem um quinto. A percentagem da população ativa com ensino secundário na Europa era três vezes maior. Nos países de Leste, como a Chéquia, Estónia, Eslovénia ou Polónia, era quatro vezes maior. É assim tão surpreendente que estes países, uma vez aderindo à União Europeia, crescessem bem mais depressa do que nós?


(…)


A grande revolução deu-se nos números relativos ao ensino supe­rior. Em 2000, nem 9% da população ativa tinha completado um grau superior. Em 2022 esse valor subiu para 31,5%. Mais do que triplicou e põe-nos próximos da média europeia e à frente de nove países. É uma recuperação extraordinária. E, se olharmos especificamente para as faixas etárias entre os 20 e os 34 anos, concluímos que já estamos acima, e bem acima, da média europeia.


(…)


Mas quando olhamos para fatores endógenos, em especial para o mais importante de todos, o capital humano, temos razões para sermos otimistas.


(…)


Não me entendam mal, é evidente que nos desenvolvemos muito. Temos um bom sistema de saúde nacional, uma boa rede de escolas, proteção social eficaz, etc. Mas, insisto, o nosso nível de bem-estar ainda está longe do da Europa. O que os dados sobre a educação mostram é que nunca estivemos tão bem preparados para alcançar o terceiro ‘D’ de Abril. Ser-se realista é ser-se otimista.



Luís Aguiar Conraria

25 abril 2024

Vinte e cinco de abril de 2024

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Difícil não me comover neste dia, olhando para a Assembleia da República engalanada de cravos vermelhos, a casa de uma Democracia inaugurada há 50 anos.


Difícil não me lembrar da invencível esperança na felicidade que aí vinha, com a concretização dos sonhos e dos desejos de quem menos tinha.


Tão difícil, este meu País, cantado por poetas e gritado pelo Povo em euforia.


País imperfeito, mas onde estes 50 anos, ao contrário dos saudosistas do antigo regime, dos demagogos e dos falsos puros, tanto conseguiu, nos direitos de todos à saúde e aos apoios sociais, nos direitos das mulheres, conquistados muitas vezes a ferros, no fim de uma guerra colonial que defendia um Império que não existia, no estabelecimento de laços com a Europa, na defesa das minorias e do amor, seja ele como e com quem for, enfim, no viver em Liberdade.


Difícil, esta Liberdade, nunca perene, nunca certa, nunca segura, sempre necessitando de ser construída e acarinhada. Difícil a tolerância.


Neste dia em que me comovo ao olhar para os rostos dos protagonistas de 1974, talhados pelo tempo e pelo seu tempo, olho para o futuro aninhado ao meu lado, dedinhos quentes que me seguram a alma, e sei que tudo farei para que os seus próximos 50 anos sejam aqueles da sua Liberdade.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...