31 julho 2007

Tempo do tempo

A propósito deste post lembrei-me de um livro que li na minha juventude que e chamava Mach 3 - Sinal de Perigo?. Era uma história de investigação, que envolvia uma rapariga muito empenhada em conseguir o amor e a atenção do pai e que, apesar do medo pânico que sentia tinha tentado pilotar aviões a alta velocidade. Como não conseguia, transformou-se em cientista, desenrolando-se a história à volta dos malefícios de Mach 3, descobertos no final, com grande drama e heroísmo. Investiguei o autor, Donald Gordon, mas não consegui nada, pois aparecem-me várias personalidades com estes dois nomes, sem que eu perceba quem era o autor.

Outro livro que devorei e que me impressionou muitíssimo, da mesma colecção (Europa-América juvenil) foi A caminho de Israel, de James Foreman. Era um livro que relatava, se bem me lembro, a fuga de um grupo de judeus de um campo de concentração (?) para Israel, se bem que Israel anda não existia na altura… A memória não é o meu forte, mas ficou-me sempre a impressão de uma dor e de uma luta muito esforçada para alcançar a liberdade.

De outra colecção, de que também não me recordo o nome, li A colina do Dahu, de Janine Bernadet, que falava de um animal inventado por uma criança com uma doença terminal.

As férias grandes eram passadas a ler gulosamente, desde muito cedo, enrolada num sofá. Vivia aventuras fantásticas, vidas cheias, ultrapassava todos os obstáculos, era a cientista à volta dos ratinhos, o judeu a fugir a nado, a criança a passear com o Dahu. Ou Miss Marple, ou Poirot, ou o detective de SS Van Dine, Philo Vance.

Era o nosso tempo sedoso e eterno, cujo sabor ainda respiramos.



(SS Van Dine - Willard Huntington Wright)

Às escuras

Estou às escuras. Distraidamente, à medida que percorria os blogues habituais, que ia lendo as novidades do dia, os pensamentos, as bocas, as histórias, foi-se instalando a penumbra, apenas com a janela luminosa do monitor.

Neste sossego egocêntrico e concentrado, relembro as impressões de filmes como “Blow-up” e Sonata de Outono. O segundo causou-me uma impressão tão forte que ainda hoje me lembro de cenas inteiras, brilhantemente filmadas e representadas, filme de conversa, em que se dissecam as almas e a emoções, em que a vida se despe no mais feio e no mais sublime de todos. A moda é que nunca foi de Ingmar Bergman.

Blow-up foi um filme de descobertas e mistérios, da revelação, do pormenor à espera de quem o encontre, da manipulação, do grão da fotografia, da beleza dos protagonistas, do olhar de Antonioni.

Estou totalmente às escuras. Ao longe murmuram vagamente sons televisivos que ninguém testemunha. Com o vento preguiçoso e molenguento, viajo pelo tempo e pelo mundo, consolada.

29 julho 2007

Mude-se a lei

A falta de justiça, em sentido lato, e a impunidade são dos mais graves sintomas de falência de um estado de direito democrático e, infelizmente, o que se passa em Portugal está muito próximo disso.

Como me lembravam algumas pessoas numa conversa de café, a justiça foi dos únicos sectores em que não houve profundas mudanças após o 25 de Abril, até parece que por um pacto não escrito entre os dois principais partidos, antecessor do pacto para a justiça celebrado entre o PS e o PSD, já na vigência desde governo.

Vem isto a propósito da notícia de destaque do Público de hoje (Reforma negada em cinco minutos e quatro linhas, pág. 2 do caderno 1), que conta o caso de uma funcionária pública que após ser submetida a vários tipos de tratamentos por cancro intestinal, muitos anos de trabalho e pouca qualidade de vida, inclusivamente sequelas que não lhe permitiam ter uma vida profissional normal, decidiu pedir a reforma, apoiada por pareceres médicos assinados pelo Oncologista que a assistia e exames de vários tipos. A reforma foi recusada sem que eles tivessem sido apreciados, sem que a doente fosse ouvida, sem que a recusa fosse fundamentada, oralmente ou por escrito, por uma junta em que os médicos que a constituíam nem sequer se deram ao trabalho de cumprimentar a senhora.

Este caso refere-se a juntas médicas mas podíamos falar dos serviços camarários ou quaisquer outros serviços, do Estado ou particulares. É claro que é muito melhor e mais fácil, em vez de verificar se a aplicação das leis está a ser feita correctamente, por profissionais competentes, idóneos e interessados, em vez de se responsabilizar os eventuais prevaricadores, é muitíssimo melhor e mais fácil alterar as leis.

A actividade legislativa substitui a actividade de regulamentar e fiscalizar, nunca se exigindo responsabilidades, competência e dignidade no exercício da profissão.

Neste caso a lei já mudou. Será que a sua aplicação também vai mudar?

28 julho 2007

Dias de vento


Em dias de vento
ouvimos pensamentos que foram
pois os que são voam
despenteiam-se em palavras
sopram-se em imagens
de medos ausentes
mas conhecidos
trancados no fundo
dos abrigos.


(pintura de Zoltan Szabo; Wind Dancers)

Silly season

Sempre me irritaram as referências à silly season quando chegamos ao Verão.

O facto de se terem férias só pode significar que as pessoas se sintam libertadas das suas tarefas diárias, repetitivas, rotineiras e cansativas, estando por isso mais abertas a interessarem-se por outros assuntos que, em alturas de grande actividade profissional, não têm tempo nem vontade.

Mas os media decidiram que, durante as férias o cérebro se desliga e deixa de funcionar, mantendo apenas as funções básicas de sobrevivência.

Mas entre nós só se fala da silly season no Verão. E quem faz férias no Inverno, não põe o cérebro a hibernar?

(Este ano até temos uma Presidência europeia!)


(Cartoon de Isabella Bannerman: silly season)

Caricaturas principescas

A liberdade de expressão tem sido tema recorrente nas discussões políticas em Portugal, principalmente pela suposta deriva autoritária deste governo e deste PS. Manuel Alegre, num artigo de opinião a que o Público deu um destaque pouco habitual, aponta o dedo aos militantes dos partidos políticos, nomeadamente aos do PS, que reduzem a política a Sócrates, instalando-se na sociedade o medo de exprimir livremente opiniões.

No princípio do ano passado o mundo ocidental, predominantemente laico, incendiou-se em defesa da liberdade de se caricaturar o que se quisesse, como se quisesse e quando se quisesse, insurgindo-se contra a inusitada violência que atacava a sociedade livre, pelas ofensas aos sentimentos religiosos e a culturas diversas. Eu fui das que me incluí entre os que partilhavam esse ponto de vista.

Não querendo comparar o que não é comparável, nomeadamente as reacções de incrível violência contra as embaixadas de países ocidentais, jornais, jornalistas e autores das várias caricaturas, há novamente um debate sobre liberdade de expressão desencadeado pela apreensão por um juíz de uma revista humorística espanhola, a El Jueves, pela publicação de uma caricatura dos príncipes Felipe e Letizia num acto sexual explícito, em que se pretendia, na minha opinião, gozar com os subsídios à natalidade decididos pelo governo espanhol e não com o casal de príncipes.

Independentemente do que se pensa da caricatura propriamente dita, o que está em questão é o facto de um juiz, sem qualquer queixa dos eventuais ofendidos, ter ordenado a apreensão do jornal ou seja, ter considerado que não havia liberdade para publicar um determinado tipo de expressão de pensamento.

Não posso concordar com os que defendem que há coisas demasiado ofensivas para serem publicadas. Essa foi uma das razões invocadas contra a publicação das caricaturas de Maomé.

Numa sociedade democrática a liberdade ombreia com a responsabilidade. Num estado de direito os ofendidos queixam-se e a justiça arbitra e decide. Se a Casa Real espanhola não se queixou, não entendo que haja alguém que se digne proibir o que entende por ofensivo. É a sua opinião, não tem que a estender à restante comunidade.

É verdade que alguns textos, desenhos e caricaturas, cenas de filmes, documentários e telejornais, dão vontade aos cidadãos de partir o focinho a alguém. Mas a justiça pelas próprias mãos nunca foi boa conselheira.

A liberdade de expressão existe exactamente para que todos possam dizer o que pensam, por muito irrazoável, insensato ou horroroso que seja, sem que se sintam pressionados ou perseguidos por isso.

26 julho 2007

Testamento

Após a morte de Deus
abriremos o testamento
para saber
a quem pertence o mundo
e aquela grande armadilha
de homens.

(poema de Ewa Lipska; pintura de Julie Newdoll: The First World was Red)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...