21 março 2026

Viver a vida


Há uns dias recebi um e-mail do Blogger, essa entidade que se rege por algoritmos e regras que ninguém sabe muito bem como foram e são feitas, essa entidade que decide se as mesmas são ou não seguidas, avisando-me que tinha removido o meu blogue porque "(...) O seu conteúdo violou a nossa política de Spam. Para saber mais, visite a página das regras da comunidade, cujo link se encontra neste e-mail. (...)"

O meu espanto foi total, tal como a minha indignação. Em primeiro lugar, quem e o quê tinha decidido tal coisa; em segundo lugar, que regras de spam eram essas.

Confesso que nem me dei ao trabalho de ir ver. Tudo isto me revolta e me assusta. Deixámos de ser censurados por homens para passarmos a ser censurados por máquinas. Estou demasiado ultrapassada para aceitar que isto é uma evolução benigna.

Depois de me ter passado a fúria, cliquei no link que me deixaram para pedir um "recurso". Tão espantosamente como o anterior, recebi o veredito por e-mail: "(...) Após a revisão, o blogue foi reposto. (...).

E aqui estou de novo, até à próxima apreciação, tão estúpida quanto esta, ou até eu própria remover o blogue.

Vem isto a propósito da necessidade que temos de controlar, "cancelar" (uma palavra muito em voga nestes tempos sombrios), criticar e uniformizar regras que, muitas das vezes, são absurdas e escapam ao entendimento, mas que seguimos acríticos. Deixámos de ter confiança na legislação, essa sim produzida por representantes da sociedade. Deixámos de ter tempo para, sequer, pensar.

Não ponho em dúvida a necessidade de regulação das redes sociais. Mas parece-me que isto não tem nada a ver com regulação.

Também em todos os aspetos da vida em sociedade a fúria normalizadora impõe-se, se não pela legislação, por meios de pressão a que agora se chama "bullying". Tudo o que se ache que não é aceitável é usado de forma a perseguir quem o faz ou defende, de tal forma que é mais seguro para a sua sanidade mental calar a revolta que persistir na sua opinião ou atuação.

Deixámos de ser autónomos em decidir como amar, como aceitar ou não o que a vida nos traz. Tudo nos é ensinado, desde como dividir tarefas em casa, se é que as devemos dividir, à forma como devemos partilhar as nossas emoções, anseios, dúvidas, fantasias, desejos.

O ser humano deixou de saber amar, deixou de saber quais as suas responsabilidades, o que lhe é ou não permitido sentir, o que lhe é ou não permitido contar, viver. Passámos dos livros de autoajuda para o ChatGPT (que é óptimo para me explicar como devo guardar o pão para que ele aguente dias quebradiço e macio).

Tudo isto é muito cansativo e redutor. Confesso que preferia mais erros e mais persistência, mais autocrítica e menos desresponsabilização, mais comunicação e solidariedade e menos pseudo-felicidade autoimposta. Menos egoísmo e mais respeito pelo que o outro é, pelo que possa sentir, e como a nossa pertença verdade absoluta o pode aniquilar.

Enfim, enquanto o blogger me deixar, vou mantendo este espaço onde rezingo. Não sou barbuda, mas vou-me assemelhando cada vez mais ao José Pacheco Pereira.

Também isso me assusta!

15 março 2026

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience

O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs.

Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo alguns maduros, e velhotes (como eu), insistem em escrever.

Bem sei que escrevo cada vez menos. Mas vou escrevendo. Porque insisto? Por que me faz bem.

Vou partilhando, agora, de novo, no Blogger.

Vamos caminhando.

01 março 2026

Apelo

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Sly as a Fox

Richard Clifton

 

Falta-me uma raposa de dentes finos e agudos

Olhos rasgados e cauda de fogo

Falta-me esse apelo agreste e selvagem

Para que me liberte

E procure o alimento nas estrelas sem saber

Do amanhã

Arroz de sardinhas

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Nada de mais básico, que este arroz de sardinhas. Quando falo em sardinhas refiro-me a filetes das mesmas, congelados.

Muita cebola, muito alho, muito tomate, muitos pimentos de várias cores, sal, pimenta, coentros, folhas de louro, vinho branco. Tudo ao lume a refogar e a abrir e a misturar.

Os filetes, descongelados anteriormente, polvilhados de sal e regados com sumo de limão, colocam-se em cima dos legumes e deixam-se cozinhar por muito pouco tempo (10 minutos, se tanto). Mas atenção. Há aqui um truque, bastante importante.

A pele dos ditos filetes vem sem escamar. Ou seja, ou se tiram a pele e as escamas, ou se tiram as escamas, antes de irem ao tacho.

Depois de cozinhados, retiram-se e reservam-se. Junta-se o arroz (eu uso sempre basmati, mas há quem prefira carolino) e, quando já estiver quase, quase pronto, juntam-se os filetes. Ou comem-se à parte (que foi como resolvi servir).

Acompanhar com um belo vinho branco e boa companhia.

Muito, muito bom.

Berlim

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Foram muitos Berlins, em mim.

A dolorosa aventura de uma viagem a só, o receio de se ver perdida num grupo desconhecido, a descoberta de uma cidade luminosa, grande, larga, em que todos os passos nos guiam pela História do séc. XX. A biblioteca vazia, as inúmeras homenagens às vítimas dos nazis, o museu judaico, a biblioteca vazia, o museu da Resistência, as pedras da calçada com nomes de mortos, as memórias da noite de cristal, a estação de comboios que transportavam os judeus para os locais de aniquilação, a plataforma 17, a contabilização quase diária da humanidade que se assassinava. O muro, os restos do muro, a história do muro, a STASI, o medo, os informadores, a tortura, a censura. E a queda do muro, a libertação, os Trabanti, o tempo que parou, os consumíveis, a morte de quem queria a liberdade.

E a descoberta de outras formas de viajar, de que um grupo de desconhecidos pode transformar-se num grupo de companheiros, os silêncios e as conversas, as cervejarias, os Apfelstrudel, o aprender, o conhecer o que foi para saber o que poderá ser.

Berlim, o recomeço da abertura ao mundo.

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Inquietude

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La desserte

Henri-Matisse

 

A pouco e pouco, vai reencontrando o equilíbrio. A velha inquietude, arrasada e desaparecida, refaz o caminho.

O sol também começa a aparecer e os corpos abrem-se às amenas claridades.

Nada como a alegria do convívio, os gestos com que cozinha, mistura os cheiros, abre as garrafas de vinho.

E depois a porta que se abre, as vozes, os abraços, a conversa.

A partilha das palavras, dos olhos, das mãos, o comungar da refeição, das preocupações, das incertezas da vida.

A vida que vai acontecendo.

À espreita, uns olhinhos espantados, observadores, risonhos, uma vozinha que derrete todos os medos e tristezas, vai absorvendo o estar junto de quem se gosta.

A continuidade.

15 fevereiro 2026

Somos democracia

Apesar de André Ventura ter apelado desesperadamente para o adiamento das eleições presidenciais, com o argumento de “que se lixem as eleições”, Portugal demonstrou que a democracia não é alguma coisa que se possa menorizar. Ns difíceis condições que tanta gente está a sofrer, as eleições decorreram com uma afluência assinalável, em que o esforço e a cidadania de quem votou e de quem ajudou a votar ensinou a este populista que a democracia não se adia.

António José Seguro venceu e venceu bem. Tem uma legitimidade reforçada pelo expressivo número de votos conseguidos. O seu discurso de vitória foi muito bom. Foi apaziguador, assertivo e esperançoso.

Finalmente, este Presidente disse, tal como a sua mulher, aquilo que é óbvio e lógico, mas que uma bafienta mole de gente não aceita: na República Portuguesa é eleito um ou uma Presidente e não um casal presidencial; a Constituição não contempla Primeiras damas, esse epíteto ridículo e reacionário.

Grande satisfação pela declaração de Margarida Maldonado Freitas - "Sou farmacêutica e não primeira-dama" e do Presidente recém-eleito - "Respeitarei sempre aquilo que forem as suas decisões. (...) A minha mulher é uma empresária independente, é uma mulher com vida própria e respeito isso".

O regime democrático foi reafirmado e celebrado da melhor forma possível – elegendo o nosso Presidente.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...