05 abril 2025

A vida torta

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Tree Branch Chair


Mike Just


Por mais que tentasse, acontecia sempre. Nunca o que comprava, diretamente ou por encomenda, vinha totalmente em condições. Por muito que planeasse, medisse, remedisse, anotando cuidadosa e criteriosamente tudo o que queria e observava, tudo o que poderia eventualmente correr mal, nunca conseguia a plenitude da perfeição.


Uma gaveta relutante ao abrir e fechar, um móvel desequilibrado com uma perna ligeiramente mais estendida, uma cómoda que ultrapassa o seu lugar na parede, obrigando o espelho a desviar-se do centro, um outro com varões altos e direitos, em vez de carinhosamente à mão, uma secretária com rolamentos avariados, enfim, as imperfeições do Universo iam-se juntando à sua volta.


Há pessoas assim, elas próprias com qualquer coisa de diferente, assimétrico, desencontrado. Uma perna ligeiramente mais curta, um braço que ficou enfraquecido, uma boca torta, o cabelo em desalinho.


Tudo se revoltava, na sua vida. Até o amor, decepado e retirado abruptamente, transbordante de felicidade ou doloroso de profunda tristeza, até o amor se desconjuntava ao abraçar quem tanto queria, com um dos lados da alma mais nevoenta que a outra, como os brinquedos que fazia a desfazerem-se sem nexo, as viagens que sonhava a fugirem sem regressar.


Na verdade, nada no mundo é previsível.


E tudo se constrói ou desmorona em poucos segundos.

Desinformação e manipulação nos media tradicionais

A forma como somos manipulados pela informação, feita por jornalistas credenciados, é triste e afasta, cada vez mais, os cidadãos dos media tradicionais. Na verdade, começam a ficar muito parecidos com a "informação" das redes sociais. Perigoso, muito perigoso.


Vem isto a propósito da forma como se insinua sem o afirmar, que a melhoria do ranking de uma escola pública está associada à proibição do uso de telemóveis pelos alunos, desde janeiro deste ano. Ou seja, há cerca de 3 meses.



"Escola pública que lidera 'ranking' com melhor média de exames proibiu telemóveis em janeiro"



Está, portanto, instalada a certeza de que os smartphones são uma desgraça para os alunos, razão e explicação de tantos problemas, desde o aproveitamento escolar à violência entre jovens.


Em termos de declaração de interesses, tendo imenso a concordar com esta opinião. Mas convém explorarmos o tópico, antes de tentarmos ligar uma coisa à outra, sem qualquer juízo crítico. Isso deveria ser uma prioridade no trabalho jornalístico, mas não é.


Como exemplo, cito um artigo publicado em setembro de 2024, no Journal of Psychologists and Counsellors in Schools, cujas autoras (Marilyn Campbell e Elizabeth Edwards) fizeram uma revisão da literatura sobre o tema (total de artigos encontrados n=1317, total estudado após critérios de exclusão n=22), realizados em múltiplos países: Bermudas, China, República Checa, Gana, Malawi, Noruega, África do Sul, Espanha, Suécia, Tailândia, Reino Unido e Estados Unidos da América. Concluíram que há muito poucas evidências, se não nenhumas, sobre o efeito que a ausência de telemóveis nas escolas resulte na melhoria do rendimento escolar, saúde mental e cyberbulling. Mais concluíram uma significativa falta de evidências que suportem decisões fundamentadas (retirar ou não os telemóveis do espaço escolar).


Noutro artigo mais recente (fevereiro de 2025), na revista The Lancet Regional Health - Europe, conclui-se não haver evidências que as políticas restritivas, em relação ao uso de telemóveis e redes sociais, que associem o seu uso a melhor saúde mental.


A manipulação e incompetência dos jornalistas, a preguiça ou a intenção de enganar e induzir comportamentos, instalou-se. É cada vez mais difícil destrinçar a verdade verdadeira das meias verdades ou mentiras com que somos continuamente inundados.


Não significa isto que não haja mais estudos que digam o contrário, ou que não sejam necessários muitos mais. Mas ligar 3 meses de ausência de telemóveis a melhoria no ranking é, manifestamente, desonesto e abusivo.


Sugestões:


Uso de telemóveis no Espaço Escolar: revisão da Literatura e Orientações Práticas


School phone policies and their association with mental wellbeing, phone use, and social media use (SMART Schools): a cross-sectional observational study

04 abril 2025

Aves sem asas

Kano Tsunenobu (1636 - 1713).jpg


Swallow


Kano Tsunenobu (1636 - 1713)


 


1.


De repente recomeçam as angústias


Incertezas vestidas de certezas


Própria não é a vontade


Nos espaços vividos e imaginados


Apertam-se cercos muros


Desfazem-se corpos palavras


Obrigam-se olhos a varrer o chão


Aves sem asas nem bicos


Perdem a cor e o rumo


 


De repente reiniciam-se gestos


Sussurros códigos esperança


No urgente regresso da liberdade


 


2.


Na pesca respeitamos o peixe


No mar urdimos a rede


Para que a captura


Não se confunda com traição


 


Na caça respeitamos a lebre


Limpamos a arma os passos sedosos


Cuidamos das fugas


Das cruéis armadilhas


 


Nada evitamos na alma humana


Desde que receemos pela sobrevivência

03 abril 2025

Trump - O Ditador do século XXI

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E difícil acreditar que algum dia os Estados Unidos da América se transformariam numa ditadura.


É muito difícil aceitar que um dos mais importantes e significativos baluartes da Liberdade resvala para uma sociedade fechada, sem liberdade de imprensa, sem separação de poderes, sem garantias de igualdade ou justiça para os seus cidadãos, sem qualquer pejo em usar a força para deter e violentar pessoas que tenham a ousadia de mostrar opiniões diferentes, que proíbe livros, palavras, conceitos, que transforma a ciência em ideologia, que dizima o Departamento da Educação, que ameaça países de compra e/ou invasão, sem qualquer respeito pelo direito internacional, pelo direito dos povos à autodeterminação, que rasga a Constituição dos EUA.


Putin invadiu a Ucrânia. Irá Trump invadir a Gronelândia, anexar o Canadá?


Que ninguém diga que não sabia. Trump e os seus apaniguados foram suficientemente claros. O projecto 2025 está a ser rapidamente implementado.


É muito difícil assumir a realidade, os EUA a fazerem-nos regressar aos anos 30 do século XX. Mas assim é.


As nuvens adensam-se. Estaremos ainda a tempo de evitar maiores e piores males?

21 março 2025

Dia Mundial da Poesia

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Dente de Leão


 



Quando Vier a Primavera


Alberto Caeiro


Pedro Lamares


 


Vamos regressando, dia a dia, àquela esperança que nos liberta. A música das palavras encanta-nos eleva-nos para outro espaço, outra vida, no paralelo de mundos e sentidos que, tantas vezes, ignoramos.


Primaveras, poesias, música, árvores, dias que se juntam num só, chamando-nos para a realidade deste mundo, para a alma que pulsa, os braços que anseiam as tarefas de mudar.


Tempos de tão pouca harmonia, tão pouca magia, tão pouca fantasia. Tempos escuros e azedos que temos de afastar. E nas palavras que repetimos como se fosse uma oração, uma reza de duendes e feitiços muito antigos, que nos abrem as mãos para dissipar este triste e cinzento véu que parece ter vindo para ficar.


Vamos construindo, a medo e em silêncio, estas redes que se renovam, fios de seda e lágrimas, teias de cumplicidade e força para que possamos semear a tranquilidade, a serenidade, a vontade de resistir.

02 março 2025

Cotovia


Joana Alegre & Ricardo Ribeiro & Diana Vilarinho


 


São panos que são de ferro
Da própria malha do mal
Tecidos de medo e erro
E de um silêncio brutal
Caem no peso dos anos
Que nos atiram para trás
Apagam tudo de preto
Vestem a vida de luto


O dia é da cotovia
De noite o mocho assobia
Quando vos calam a voz
Daqui respondemos nós


Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia


Sem cara lei que mascara
A ferida que nunca sara
Maldade, orgulho, doente
Achar que mulher não é gente
Tratam a própria existência
Loucura, incoerência
Homens sem amor de mãe
Hão de viver sempre àquem


O dia é da cotovia
De noite o mocho assobia
Quando vos calam a voz
Daqui respondemos nós


Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia


Rasgam-se as mortalhas, e os panos são laços
Que nos unem todas em todos os espaços
Rasgam-se as mortalhas, e os panos são laços
Que nos unem todas em todos os espaços


Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia


Quando vos calam a voz
Dаqui respondemos nóѕ

A impotência europeia

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O que se tem passado com a política externa do EUA desde que Trump assumiu a Presidência, é uma veloz e irreversível cavalgada para o retrocesso civilizacional, para o voltar de um ciclo de impérios ditatoriais.


Compram-se e vendem-se países, humilham-se os seu representante eleitos democraticamente, cortam-se alianças e refazem-se algumas antigas, cujo resultado foi catastrófico.


Estamos de joelhos, real ou metaforicamente.


É difícil ser optimista quando a se concretiza.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...