04 abril 2025

Aves sem asas

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Swallow


Kano Tsunenobu (1636 - 1713)


 


1.


De repente recomeçam as angústias


Incertezas vestidas de certezas


Própria não é a vontade


Nos espaços vividos e imaginados


Apertam-se cercos muros


Desfazem-se corpos palavras


Obrigam-se olhos a varrer o chão


Aves sem asas nem bicos


Perdem a cor e o rumo


 


De repente reiniciam-se gestos


Sussurros códigos esperança


No urgente regresso da liberdade


 


2.


Na pesca respeitamos o peixe


No mar urdimos a rede


Para que a captura


Não se confunda com traição


 


Na caça respeitamos a lebre


Limpamos a arma os passos sedosos


Cuidamos das fugas


Das cruéis armadilhas


 


Nada evitamos na alma humana


Desde que receemos pela sobrevivência

03 abril 2025

Trump - O Ditador do século XXI

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E difícil acreditar que algum dia os Estados Unidos da América se transformariam numa ditadura.


É muito difícil aceitar que um dos mais importantes e significativos baluartes da Liberdade resvala para uma sociedade fechada, sem liberdade de imprensa, sem separação de poderes, sem garantias de igualdade ou justiça para os seus cidadãos, sem qualquer pejo em usar a força para deter e violentar pessoas que tenham a ousadia de mostrar opiniões diferentes, que proíbe livros, palavras, conceitos, que transforma a ciência em ideologia, que dizima o Departamento da Educação, que ameaça países de compra e/ou invasão, sem qualquer respeito pelo direito internacional, pelo direito dos povos à autodeterminação, que rasga a Constituição dos EUA.


Putin invadiu a Ucrânia. Irá Trump invadir a Gronelândia, anexar o Canadá?


Que ninguém diga que não sabia. Trump e os seus apaniguados foram suficientemente claros. O projecto 2025 está a ser rapidamente implementado.


É muito difícil assumir a realidade, os EUA a fazerem-nos regressar aos anos 30 do século XX. Mas assim é.


As nuvens adensam-se. Estaremos ainda a tempo de evitar maiores e piores males?

21 março 2025

Dia Mundial da Poesia

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Dente de Leão


 



Quando Vier a Primavera


Alberto Caeiro


Pedro Lamares


 


Vamos regressando, dia a dia, àquela esperança que nos liberta. A música das palavras encanta-nos eleva-nos para outro espaço, outra vida, no paralelo de mundos e sentidos que, tantas vezes, ignoramos.


Primaveras, poesias, música, árvores, dias que se juntam num só, chamando-nos para a realidade deste mundo, para a alma que pulsa, os braços que anseiam as tarefas de mudar.


Tempos de tão pouca harmonia, tão pouca magia, tão pouca fantasia. Tempos escuros e azedos que temos de afastar. E nas palavras que repetimos como se fosse uma oração, uma reza de duendes e feitiços muito antigos, que nos abrem as mãos para dissipar este triste e cinzento véu que parece ter vindo para ficar.


Vamos construindo, a medo e em silêncio, estas redes que se renovam, fios de seda e lágrimas, teias de cumplicidade e força para que possamos semear a tranquilidade, a serenidade, a vontade de resistir.

02 março 2025

Cotovia


Joana Alegre & Ricardo Ribeiro & Diana Vilarinho


 


São panos que são de ferro
Da própria malha do mal
Tecidos de medo e erro
E de um silêncio brutal
Caem no peso dos anos
Que nos atiram para trás
Apagam tudo de preto
Vestem a vida de luto


O dia é da cotovia
De noite o mocho assobia
Quando vos calam a voz
Daqui respondemos nós


Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia


Sem cara lei que mascara
A ferida que nunca sara
Maldade, orgulho, doente
Achar que mulher não é gente
Tratam a própria existência
Loucura, incoerência
Homens sem amor de mãe
Hão de viver sempre àquem


O dia é da cotovia
De noite o mocho assobia
Quando vos calam a voz
Daqui respondemos nós


Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia


Rasgam-se as mortalhas, e os panos são laços
Que nos unem todas em todos os espaços
Rasgam-se as mortalhas, e os panos são laços
Que nos unem todas em todos os espaços


Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia
Lareiareia lareiá
Lareiareia


Quando vos calam a voz
Dаqui respondemos nóѕ

A impotência europeia

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O que se tem passado com a política externa do EUA desde que Trump assumiu a Presidência, é uma veloz e irreversível cavalgada para o retrocesso civilizacional, para o voltar de um ciclo de impérios ditatoriais.


Compram-se e vendem-se países, humilham-se os seu representante eleitos democraticamente, cortam-se alianças e refazem-se algumas antigas, cujo resultado foi catastrófico.


Estamos de joelhos, real ou metaforicamente.


É difícil ser optimista quando a se concretiza.

29 janeiro 2025

Receita para o desastre

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Embuste


É assim que se faz:


26 janeiro 2025

Cantata de Paz

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20 de janeiro de 2025


Ciclicamente, tudo o que entendemos ser a base comum do comportamento humano em sociedade, a matriz judaico cristã, em que os valores da solidariedade, da igualdade, o reconhecimento de direitos que fazem de nós seres humanos, transforma-se e desaparece, levando a situações de autoritarismo, de homogeneização num modelo idêntico, como se fossemos máquinas, a uma desigualdade e revolta que nos conduzem, inevitavelmente, ao papel de vítimas e algozes, de oprimidos e opressores.


A ignorância, a frustração, o racismo, o preconceito, o desprezo e desvalorização dos factos que transformam vacinas em opiniões políticas, o laxismo e a pobreza da linguagem, a violência, o deslaçar dos agentes culturais e dos que, quando nada mais há, nos asseguram a sobrevivência, a desqualificação de cada ser humano como único e irrepetível, como criador e executor do que imagina, como um dos pólos da infinita rede que se forma, sempre que se quebra a solidão.


Imigrantes ilegais, que tiveram o azar de nascer na miséria ou se transformaram em penas e pedras perdidas no mundo, gente com força suficiente para arriscar a própria vida, que tenta construir alguma felicidade e aconchego fora do seu país, que tenta conseguir alguma coisa que a transporte para condições mais dignas, mais fáceis, mais macias, têm peste.


Nestes tempos sombrios, os imigrantes são, por definição, criminosos, pelo que se transportam em aviões militares, algemados de pés e mãos. E o mundo que está a ruir vai ruir ainda mais. Não é só Trump, nos EUA, mas todos os governantes de extrema-direita dos países europeus, que deixaram de se envergonhar por dizerem os inimagináveis e perigosos absurdos que papagueiam, com poses de Estado e voz grossa.


Não faltarão ideias velhas, tristes, que querem reduzir a pó quem se lhes opõe: esvaziar Gaza de Palestinianos.


Sim, ele irá fazer o que prometeu. Ele e todos os outros que o têm como professor.


Temos ainda a certeza de que as tecnologias de informação, a nova comunicação, a inteligência artificial, manterão as realidades paralelas que servirem os seus interesses e desígnios. A transformação da inovação num instrumento do mais autoritário e aflitivo que existe – a perda da identidade como indivíduo, a perda da igualdade, da liberdade e a implosão das democracias.


Vemos, ouvimos e lemos


Não podemos ignorar [...]


Cantata de Paz


Sophia de Mello Breyner

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...