Prenda de Natal: Manuel de Oliveira
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
06 dezembro 2020
De palavras me alimento

De palavras me alimento
Secas pobres resignadas
Ato-as nas bordas do vento
Sopro-lhes gumes de espadas
Orações de pão e vinho
Solitária companhia
Atapetam-me o caminho
De tristeza e alegria
Escolho pedras são sinais
Das esquinas que encontramos
Pelos mundos desiguais
Pelos sonhos que encerramos
Com palavras me renovo
Em silêncios incontidos
É no amor que me devolvo
É nos gestos dissolvidos
Conto os dias que me faltam
Escrevo versos ressequidos
Que as palavras já não voltam
Aos meus dedos esquecidos
Da irresponsabilidade criminosa
Títulos do Expresso entre 26 e 27 de Nov/2020, por ordem cronológica
Vivemos tempos de perigo e populismo. A pandemia libertou fantasmas e o pior que há em nós.
A incerteza, o medo, o nascimento espontâneo de especialistas em virologia, epidemiologia, imunologia, saúde pública, vacinação e estatística, arrebatados e comandados pela enorme necessidade de ter audiências e pelo desnorte dos responsáveis políticos, leva ao descrédito e à desconfiança de quem tenta perceber o que se passa.
O Expresso deixou há muito de ser um jornal sério e de referência, mas vai-se superando a si próprio. O mais assustador é a falta de calma e ponderação de quem vai atrás dos títulos bombásticos e gera ainda mais pânico. Talvez um dia haja várias teses de doutoramento sobre o comportamento dos media na pandemia (refiro-me a esta - COVID-19).
Da demolha e cozedura do bacalhau

Com ou sem pandemia, o calendário aí está e a noite de Natal aproxima-se a largos passos. É tudo muito estranho pois este ano parece que não passou, que ficou suspenso desde Março e que não sabemos quando vai recomeçar.
Mas tudo continua nas profundezas dos movimentos de rotação da Terra e da órbita à vota do Sol. Portanto convém começar a fazer planos para a Consoada que vai ser uma realidade, independentemente do número de pessoas que pudermos e quisermos juntar.
E do bacalhau não nos escapamos. E como, de vez em quando, resolvo regressar à busca do básico mais básico para uma aprendizagem em etapas, nunca chegando às superiores e voltando ciclicamente às dos patamares, resolvi investigar o problema da demolha do bacalhau e do ainda mais importante tema da cozedura do mesmo.
Está tudo na internet. Depois de assistir a vários tutoriais no YouTube e a descrições mais ou menos exaustivas dos processos (até a DECO tem um artigo sobre este magno problema), cheguei à conclusão que nunca, mas mesmo nunca, cozi o bacalhau como devia. O mistério é ele não se ter queixado, nem nenhum dos comensais.
Vamos por partes: a demolha - não é mais que reidratar o bacalhau, ou seja, restituir-lhe a água que perdeu com a salga (para quem gosta de usar o bacalhau seco e salgado, claro, porque já há bacalhau demolhado e congelado à venda). Deve colocar-se sempre a pele para cima, as postas do bacalhau não devem assentar no fundo do alguidar, onde devem ficar a nadar, para que o sal não se deposite na carne do bicho, a água deve estar fria, sendo substituída frequentemente (não há consenso – nuns sítios dizem de 3 em 3 horas, noutros de 8 em 8 horas). Antes do alguidar deve passar-se o bacalhau por baixo da torneira para retirar de imediato o excesso que está à vista. O tempo da demolha é ditado pelo tipo de bacalhau que se tem.

Durante este processo o bacalhau deve ser mantido no frigorífico, pois à medida que perde o sal e ganha a água aumenta o risco de se deteriorar. Para se ter a certeza de que está bem, tira-se uma lasca de uma posta e prova-se.
A cozedura foi todo um novo abrir de olhos para segredos culinários, pelo menos para mim, que há anos que como bacalhau cozido com todos nas várias épocas do ano. Pois fiquei a saber que o bacalhau não deve ser fervido. Portanto põe-se um tacho cheio de água ao lume, perfumada (adoro estes preciosismos linguísticos) com um pouco de azeite, louro e alho. Quando a água ferver coloca-se o bacalhau no tacho (com a pele para cima), deixa-se levantar de novo fervura, retira-se o tacho do fogão (desliga-se o lume), tapa-se bem tapado e espera-se 15 minutos.
E pronto, aqui está o resumo da matéria estudada. O momento da verdade será o próximo dia 24 à noite. Eu adoro experimentar coisas quando não devo. É mesmo uma estranha atracção pelo abismo.
05 dezembro 2020
Presidenciais

As próximas eleições presidenciais arriscam-se a ser uma desresponsabilização total, por parte da população, de um acto extremamente importante nos sistemas democráticos. Para isso contribuem as diversas crises que nos têm assolado e depauperado, a pandemia e o medrar dos populismos, que a abstenção alimenta.
A cerca de um mês do fim do prazo para a finalização das candidaturas, Marcelo Rebelo de Sousa vai fazendo campanha a coberto do seu cargo, sem ter ainda formalizado a sua recandidatura. Não havia necessidade.
Os restantes candidatos têm a árdua tarefa de mobilizar um eleitorado descrente, desmotivado e alheado, encolhendo os ombros a mais esta eleição, a que não dão qualquer importância.
E no entanto, prevendo as enormes dificuldades económicas e sociais, para não dizer políticas, que se avizinham, a legitimação de um Presidente com uma grande afluência às urnas seria fundamental para que os cidadãos se pudessem rever no seu representante.
A democracia não é um assunto dos políticos. É um assunto de todos. No momento em que deixarmos de acreditar nisso abrimos as portas à instalação de ditaduras e à entrega do poder a gente inqualificável.
Se o meu amor me deixar

O abraço
Se o meu amor me deixar
Perdida na imensidão
Serei mais terra que mar
Fogueira de solidão
Se o meu amor regressar
Mãos vazias de ternura
Já não me vai encontrar
Em suave e lenta fervura
Se o meu amor viajar
Pelas terras do além
E a um canto semear
Pozinhos de fazer bem
Hei-de limpar-lhe de medo
A cama onde se deitar
Faço uma trança em segredo
Dos sonhos que ele guardar
15 novembro 2020
Das terapêuticas anti-virais (reload)

Não vá o diabo tecê-las
Obrigatória a prevenção
Maleitas temporãs nem vê-las
Afastamo-las com estadão
Panelas grandes a preceito
Há que manter a tradição
Descascar ameixas a eito
Para dentro do panelão
Do gengibre são conhecidas
As vantagens medicinais
Qualidades enaltecidas
E uns poderes fenomenais
Da canela não é segredo
Que cura gosmas e terçolhos
Contra enfartamentos e medo
Elimina até os piolhos
Juntar açúcar bem medido
Do branco ou do amarelo
A ser mexido e remexido
Como se enrolasse um novelo
As quantias serão as certas
Para adoçar o paladar
Menos ou mais verás que acertas
No gosto que mais te agradar
A mudez perante o indizível
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