11 junho 2020

Um bouquet de flores (1)

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Se precisamos de restaurar tapetes e carpetes de Arraiolos, é a Arraiolos que vamos.


Com esta lógica inabalável e aproveitando uma semana cheia de feriados com umas férias desconfinantes pelo Alentejo, pusemos rodas ao caminho.


Qualquer escapadela deve sempre incluir um bom roteiro gastronómico, pr isso iniciámos o nosso almoçando na Casa das Enguias, onde o ensopado delas não nos desiludiu. No fim houve um pequeno desaguisado por causa de umas meias-tulipas (que eu nem sabia que existiam) que substituíram as tulipas (que não havia) que, por sua vez, estavam a substituir a caneca (que também não existia). Mas as ditas meias-tulipas custavam quase o dobro das imperiais, embora tivessem exactamente a mesma capacidade (20cl). Depois de uma abundante mas pouco perceptível explicação, decerto devido à máscara que atrapalhava a eloquência do empregado do restaurante, lá se repuseram os preços e partimos em direcção ao sul.


Deambulámos pela estrada nacional, sem pressas, observando a paisagem alentejana. Passámos Vendas-Novas, depois Montemor-o-Novo e lá chegámos a Arraiolos. Paz e serenidade, é o que se deseja.


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10 junho 2020

No fim de um lugar que desconhecemos

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Barcos - Júlio Pomar


 


No fim de um lugar que desconhecemos


uma porta que se abre devagar


nuvens de pó branco como veneno


glórias desfeitas passados que repisamos


um fluido esquecimento de tudo o que doemos.


 


Roufenha a voz que repete o fado


guitarras de pobreza aves sem destino


numa praia de arvoredos crivados de gaivotas.


Tiros de versos e azedume nas manhãs de brilho e nevoeiro


a porta que se fecha sem que vislumbremos


o futuro a que julgámos pertencer.


 


Outros serão os ventos outros os lugares de encanto


sempre nos gestos esta mansa loucura este canto


de flores e de mar de tempestades de navios e terra.


Esta soma de gente multiplicada por melancolia


este cheiro esta luz e o morno passarinhar da poesia.


 

Ao desconcerto do Mundo

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Camões por Fernão Gomes


 


Os bons vi sempre passar


No Mundo graves tormentos;


E pera mais me espantar,


Os maus vi sempre nadar


Em mar de contentamentos.


Cuidando alcançar assim


O bem tão mal ordenado,


Fui mau, mas fui castigado.


Assim que, só pera mim,


Anda o Mundo concertado.


 


Luís de Camões

Flor de la Mar

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Trago dentro de mim a nau simbólica


Flor de la Mar: navegação do espírito


Nau Nação. Aquela que se fez para fora


e se perdeu para dentro. Sou essa Nau


Memória. Talvez perdida. Talvez esquecida.


Sou essa viagem de circum-navegação


à volta do Mundo e de mim mesmo.


Nau Ideia. Sem ela nós não somos nada


não mais que um bairro perdido a Ocidente


com ela se navega mesmo se parada


só com ela se pode chegar ainda


ao que dentro de nós é sempre ausente.


Nação que foi Europa antes de Europa o ser


Flor de la Mar: quatro sílabas com que se diz


o nome do poema


e do país.


 


Manuel Alegre

Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

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Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.


a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.


b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.


Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver.


s.d.


Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.  - 94.

09 junho 2020

Mário Centeno

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Expresso


 


Na sua estreia parlamentar, em 2015, Mário Centeno foi gozado pela direita. O País ainda estava perplexo com a reviravolta pós-eleitoral, uns esperançosos outros raivosos. O ministro das Finanças era uma pedra chave da Geringonça e, depois de Vítor Gaspar, ter um Ministro peculiar que se estreava na política levantava muitas dúvidas e muitos receios. Sei que foi o que aconteceu comigo.


E no entanto, ano após ano, Mário Centeno foi acertando as contas e cumprindo promessas e previsões, muitas vezes incompreendido mas com os melhores resultados de sempre. Foram cerca de 6 anos memoráveis.


Esperemos que a sua saída não faça regressar o descrédito dos cidadãos no governo. A tarefa do seu sucessor é hercúlea e não há ninguém insubstituível. Mas Mário Centeno merece os nossos agradecimentos e aplausos.


Aguaremos os próximos tempos.

06 junho 2020

Histórias de Lisboa

Há um ano estreava Histórias de Lisboa. Para mim, um fantástico desafio e experiência, aumentados pelo orgulho de participar num espectáculo do Teatro Meridional.


Neste vídeo podemos perceber o conceito, os bastidores, a Lisboa de há um ano, poesia, e excelentes profissionais a criarem e a trabalharem. É sempre um milagre. Obrigada a todos por esta oportunidade, especialmente à Natália e ao Rui. E parabéns!



E como a Lisboa de hoje é diferente da Lisboa de então. Como, de um momento para o outro, tudo muda. Talvez se pudéssemos guardar alguma desta Lisboa silenciosa, espaçosa, dormente e luminosa para um futuro que rapidamente irá voltar, negando as juras de revolução na vida e no uso e abuso dos recursos, fosse se não o suficiente pelo menos uma vitaina de ar e de asas para continuarmos a sonhar.


 


Esta é a letra do fado que o Rui Rebelo magistralmente musicou


 


LISBOA


 


Regresso numa noite de alegria


com ondas de memória no olhar


a pele em nuvens de melancolia


de um corpo que recusa naufragar


 


Em barcos ou nas pedras das calçadas


nas ruas que percorro e desconheço


um mundo de palavras soletradas


de quem faz de Lisboa um recomeço


 


Destino de um passado que se esquece


ao ritmo que desfaz a melodia


verdade de um canto que apetece


no Tejo em que se espelha a poesia


 


As aves que ecoam assustadas


nas praças que Lisboa desenhou


desfilam pelas portas desbotadas


como se a luz abrisse o que fechou


 


Nem muros de pobreza e solidão


limitam tantas almas sem idade


dedilham com amor e lentidão


o fado que refaz a liberdade


 


Regresso numa noite imaginada


pelas ruas que a Lua inundou


recolho numa alma enrugada


o canto que Lisboa me ensinou


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...