10 junho 2020

Flor de la Mar

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Trago dentro de mim a nau simbólica


Flor de la Mar: navegação do espírito


Nau Nação. Aquela que se fez para fora


e se perdeu para dentro. Sou essa Nau


Memória. Talvez perdida. Talvez esquecida.


Sou essa viagem de circum-navegação


à volta do Mundo e de mim mesmo.


Nau Ideia. Sem ela nós não somos nada


não mais que um bairro perdido a Ocidente


com ela se navega mesmo se parada


só com ela se pode chegar ainda


ao que dentro de nós é sempre ausente.


Nação que foi Europa antes de Europa o ser


Flor de la Mar: quatro sílabas com que se diz


o nome do poema


e do país.


 


Manuel Alegre

Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

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Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.


a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.


b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.


Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver.


s.d.


Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.  - 94.

09 junho 2020

Mário Centeno

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Expresso


 


Na sua estreia parlamentar, em 2015, Mário Centeno foi gozado pela direita. O País ainda estava perplexo com a reviravolta pós-eleitoral, uns esperançosos outros raivosos. O ministro das Finanças era uma pedra chave da Geringonça e, depois de Vítor Gaspar, ter um Ministro peculiar que se estreava na política levantava muitas dúvidas e muitos receios. Sei que foi o que aconteceu comigo.


E no entanto, ano após ano, Mário Centeno foi acertando as contas e cumprindo promessas e previsões, muitas vezes incompreendido mas com os melhores resultados de sempre. Foram cerca de 6 anos memoráveis.


Esperemos que a sua saída não faça regressar o descrédito dos cidadãos no governo. A tarefa do seu sucessor é hercúlea e não há ninguém insubstituível. Mas Mário Centeno merece os nossos agradecimentos e aplausos.


Aguaremos os próximos tempos.

06 junho 2020

Histórias de Lisboa

Há um ano estreava Histórias de Lisboa. Para mim, um fantástico desafio e experiência, aumentados pelo orgulho de participar num espectáculo do Teatro Meridional.


Neste vídeo podemos perceber o conceito, os bastidores, a Lisboa de há um ano, poesia, e excelentes profissionais a criarem e a trabalharem. É sempre um milagre. Obrigada a todos por esta oportunidade, especialmente à Natália e ao Rui. E parabéns!



E como a Lisboa de hoje é diferente da Lisboa de então. Como, de um momento para o outro, tudo muda. Talvez se pudéssemos guardar alguma desta Lisboa silenciosa, espaçosa, dormente e luminosa para um futuro que rapidamente irá voltar, negando as juras de revolução na vida e no uso e abuso dos recursos, fosse se não o suficiente pelo menos uma vitaina de ar e de asas para continuarmos a sonhar.


 


Esta é a letra do fado que o Rui Rebelo magistralmente musicou


 


LISBOA


 


Regresso numa noite de alegria


com ondas de memória no olhar


a pele em nuvens de melancolia


de um corpo que recusa naufragar


 


Em barcos ou nas pedras das calçadas


nas ruas que percorro e desconheço


um mundo de palavras soletradas


de quem faz de Lisboa um recomeço


 


Destino de um passado que se esquece


ao ritmo que desfaz a melodia


verdade de um canto que apetece


no Tejo em que se espelha a poesia


 


As aves que ecoam assustadas


nas praças que Lisboa desenhou


desfilam pelas portas desbotadas


como se a luz abrisse o que fechou


 


Nem muros de pobreza e solidão


limitam tantas almas sem idade


dedilham com amor e lentidão


o fado que refaz a liberdade


 


Regresso numa noite imaginada


pelas ruas que a Lua inundou


recolho numa alma enrugada


o canto que Lisboa me ensinou


 

02 junho 2020

O desfazer da democracia americana


O que se está a passar nos EUA é espantoso e assustador.


Assistir à violência policial, ao racismo entranhado na sociedade, e em especial nas forças policiais, aos cíclicos e repetidos episódios de abuso da força, de homicídio de cidadãos por aqueles que têm por primeira e última missão defendê-los é, infelizmente, um hábito. Mas ter na presidência daquele país um agitador louco, extremista, frenético, estúpido, vaidoso, narcisista, incompetente, e sei lá que mais, é aterrador.


Ouvir em directo o Presidente dos EUA dizer que vai encher as ruas e as cidades de polícia e tropa para esmagar os protestos de cidadãos, queiram ou não os governadores de cada Estado, ouvir o Presidente dos EUA incentivar os cidadãos a usarem armas uns contra os outros, ouvir o Presidente dos EUA ameaçar os seus próprios cidadãos, ouvir os jornalistas, governadores e responsáveis religiosos a desautorizarem e desrespeitarem o seu Presidente, é testemunhar aquilo que nunca julguei possível – o desfazer da democracia americana.


O que se segue a esta escalada? Como será possível manter esta situação até às eleições de Novembro?


Hoje estranhamos o que se passou na Europa, com o alastrar das ditaduras e o romper da II Guerra Mundial. Mas de facto tudo pode acontecer, mesmo naquele país em que pensávamos que as Instituições conseguiriam controlar os mais estranhos desvarios.


Ter uma criatura como Trump na Casa Branca é a prova de que tudo se pode desmoronar perante os nossos civilizados olhos. E a incerteza perante a hipótese de ele continuar, para lá de Novembro, é ainda mais indicativo dos perigos que enfrentamos. Os EUA estão a toransformar-se não só numa inutilidade, mas numa perigosa aberração que muito contribui para o desequilíbrio do mundo.

26 maio 2020

Um instante

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Suspendamos por um instante o arvoredo


as aves que nos oferecem as manhãs


o azul de uma onda que desmonta


o sal depositado na pele de alguém.


 


Suspendamos por um instante a febre


a premente necessidade de amar


a pedra que segura esta torrente


as palavras que sabemos desenhar.


 


Suspendamos depois as incertezas


o mundo que apertamos na garganta


as mãos que desesperam de desertas


as almas deserdadas de esperança.


 

25 maio 2020

Recomeçar

Parece que estamos numa fase estável da pandemia em Portugal. Todos os dias há novos casos mas a percentagem de evolução mantém-se entre os 0,5 e os 1% e, mais importante que isso, o número e percentagens de doentes internados e em Unidades de Cuidados Intensivos têm vindo consistentemente a descer.


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Por agora a pandemia está controlada e podemos, com cuidado, mantendo a vigilância, os cuidados de prevenção e de redução de riscos, começar a regressar à nossa vida. Temos que perder o medo de desconfinar.


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muito que ficou suspenso, em termos de cuidados de saúde – consultas, cirurgias, rastreios – que tem que ser recuperado o mais depressa possível, para que se minimizem as consequências inevitáveis desta suspensão, dos atrasos nos diagnósticos e nas terapêuticas.


Talvez fosse de ponderar, como já tantos disseram, retomar a orientação dos doentes com COVID-19 para alguns hospitais de referência, libertando os outros para a necessária recuperação da actividade.


Muito fizemos nestes meses e muito aprendemos, pelo menos assim o espero. As práticas que fomos obrigados a implementar em tempo recorde, no campo das soluções de teletrabalho, de teleconsultas, de agilização dos atendimentos e resolução de problemas online, por telefone, por aplicações, etc., evitando deslocações e perdas de tempo inúteis, deverão ser optimizadas e continuadas, no SNS e em todas as outras áreas de actividade.


A redução de veículos nas estradas, para além do ganho ambiental, faz diminuir os acidentes de viação, as filas de trânsito, as despesas com os combustíveis, os problemas de estacionamento. A melhoria de qualidade de vida se pudermos combinar melhor o trabalho com tudo o resto, a possibilidade de desburocratizar os procedimentos, a disponibilidade para resolver as coisas sem complicar que a pandemia nos deu, são para manter e incentivar.


A pandemia não está vencida, mas temos que vencer o medo. Lavar as mãos, manter a distância social, respeitar os outros e lembrarmo-nos da enorme multidão que não pode nem nunca conseguiu ficar em casa à espera que passasse o perigo, porque esteve a assegurar o sustento, a saúde e o conforto dos outros. E também de outra enorme multidão que está aflitíssima, sem dinheiro para pagar as despesas básicas, nomeadamente comida, e que precisa da nossa solidariedade para viver e para poder continuar a trabalhar.


Todos queremos regressar à vida, rapidamente, mas a qual vida? Essa é a questão verdadeiramente mais importante.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...