24 maio 2020

Tralha

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Avestruz - Bordalo II


 


Tenho andado a despir-me de tralha. De tanto papel, coisas inteiras e em bocados, velhas e novas, esquecidas e poeirentas, daquelas que vamos encafuando em gavetas, prateleiras e nalgum canto da memória que deixou de fazer sentido, ou cujo sentido se virou, mudou ou as transformou em desperdícios.


Coisas e mais coisas. Mas sobretudo pele que nos pesa, que já não nos serve, que alargou e engelhou, ou que esticou e rebentou, deixando um rasto invisível aos olhos mas presente no nosso quotidiano.


Não somos o que já fomos e não precisamos do que já precisámos, ou nunca precisámos mas pensávamos que sim. Tanta coisa indispensável que nunca usámos, que nunca nos fez falta, que nunca se revelou útil.


Apesar de dolorosas, estas épocas de despojamento são absolutamente indispensáveis à manutenção da nossa alma, da máquina que nos governa.


Sinto-me mais leve, mais pequena, movimentos mais amplos e o mundo mais à minha medida.


Tralha e mais tralha. Sem ela percebemos a nossa verdadeira dimensão.

Amigo é casa


Hermínio Bello de Carvalho & Capiba


Zélia Duncan & Nelson Faria


 


Amigo é feito casa, que se faz aos poucos
e com paciência, pra durar pra sempre.
Mas é preciso ter muito tijolo e terra,
preparar reboco, construir tramelas.
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência.
Ah, que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger.

E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá,
e adubar o jardim e plantar muita flor, toiceiras de resedás...
Não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar,
que os cabelos brancos vão surgindo
que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar...
E há que ver os pés de manacá cheios de sabiás,
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis.
Choro de imaginar!

Pra festa da cumieira não faltem os violões!
Muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre,
aquecendo os corações.

A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira,
com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo
nas horas incertas,
sem fazer alarde, sem causar transtorno.
Amigo que é amigo, quando quer estar presente
faz-se quase transparente, sem deixar-se perceber.

Amigo é pra ficar. Se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer...
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer.
Amigo que é amigo não puxa tapete,
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem.
Quando não tem, finge que tem,
faz o que pode. E o seu coração... reparte que nem pão.

19 maio 2020

Voltar ao (velho) normal

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Realmente as candidaturas presidenciais para o próximo Janeiro não devem fazer parte das maiores preocupações dos portugueses.


Mas são importantes. Marcelo Rebelo de Sousa está em plena campanha eleitoral (se é que alguma vez deixou de estar). Note-se que tenho apreciado muitíssimo o seu desempenho que foi, para mim, uma enorme surpresa e agradável. Mas a verdade é que tem defeitos, como todos nós, felizmente.


Além disso Marcelo vem acumulando erros que considero graves, talvez na ânsia de se fazer notado, tentando rivalizar com a popularidade de António Costa. O episódio da transferência da verba inscrita no OE 2010 para o Novo Banco é disso um excelente exemplo.


Acho que ainda ninguém percebeu nada do que se passou, ou então percebemos todos bem de mais. António Costa não queria arriscar-se a ser acusado de dar tanto dinheiro à banca numa altura em que as camadas socialmente mais frágeis da população estão a ver os seus rendimentos, empregos, perspectivas de futuro, etc., esfumarem-se a uma velocidade estonteante. E por isso aquela promessa de não haver dinheiro para o Novo Banco antes de uma auditoria. Provavelmente esqueceu-se de acertar essa estratégia com o Ministro das Finanças. Depois Marcelo cavalgou a onda populista e resolveu interferir no governo, desautorizando Mário Centeno.


Enfim, esta explicação é tão boa como qualquer outra. Mas há alguns factos que são indesmentíveis, mesmo na época dos alternativos: a transferência da verba era conhecida por todos visto que estava no OE; não havia qualquer auditoria que pudesse parar essa transferência; Marcelo Rebelo de Sousa não tem nada que comentar as performances de qualquer ministro.


Portanto já estão todos fartos fartíssimos da COVID-19 e é preciso desatar a falar de outras coisas.



Como o Verão não vai veranear muito, temos nós que começar a inventar assunto. À falta do futebol, claro!

16 maio 2020

Juntos seremos

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Foi quase ontem e quase nos lembramos


o quase temor com que quase trememos


o quase a medo que quase nos demos.


Foi quase agora que nem reparamos


que quase sabemos


que juntos seremos


quase


serenos.


 

13 maio 2020

Rascunhos

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Mulher chorando


Cândido Portinari


 


Acerto os olhos na parede


Numa simetria discreta


Esquadria de luz em rede


Tristeza alinhada e secreta


 


Guardo nos braços a saudade


Beijos de sol e maresia


Espreito o povo e a cidade


A dor do medo que esvazia


 


No pouco que resta de nós


Colados ao muro da casa


Ensaiamos dedos e voz


Rascunho vibrante de asa


 

04 maio 2020

Negra papoila

BlackPoppies_Composite-scaled.jpgBlack Poppy


Cai Guo-Qiang


 


Adeus oh minha mãe que já me vou
Com perfumes de cravo e hortelã
Entre a luz que do céu se evaporou
O líquido gotejo da manhã


 


Adeus oh minha mãe que já me falta
O mel que nos adoça a tempestade
No ardor da inquietude que me assalta
A força que se faz serenidade


 


Adeus oh minha mãe que hei-de voltar
Com a chuva que inunda a Primavera
No tempo que queremos sossegar
Do Maio que passou e já não espera


 


Adeus oh minha mãe que já não sei
Se a vida que iremos retomar
É o lume do passado que queimei
Na água de um futuro a remendar


 

28 abril 2020

Quarentena

SARS-CoV-2.jpg


 


Pelas curvas deste quarto


Esquadro e régua a somar


Restam rugas que reparto


Pelos gestos de esperar


 


Rondo à volta desta roda


Numa triste geometria


Faço a média desta moda


Contas que desconhecia


 


Alterno sol com janela


Divido voz e olhar


Meço a dedos a cautela


Reaprendo a respirar


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...