24 maio 2020

Tralha

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Avestruz - Bordalo II


 


Tenho andado a despir-me de tralha. De tanto papel, coisas inteiras e em bocados, velhas e novas, esquecidas e poeirentas, daquelas que vamos encafuando em gavetas, prateleiras e nalgum canto da memória que deixou de fazer sentido, ou cujo sentido se virou, mudou ou as transformou em desperdícios.


Coisas e mais coisas. Mas sobretudo pele que nos pesa, que já não nos serve, que alargou e engelhou, ou que esticou e rebentou, deixando um rasto invisível aos olhos mas presente no nosso quotidiano.


Não somos o que já fomos e não precisamos do que já precisámos, ou nunca precisámos mas pensávamos que sim. Tanta coisa indispensável que nunca usámos, que nunca nos fez falta, que nunca se revelou útil.


Apesar de dolorosas, estas épocas de despojamento são absolutamente indispensáveis à manutenção da nossa alma, da máquina que nos governa.


Sinto-me mais leve, mais pequena, movimentos mais amplos e o mundo mais à minha medida.


Tralha e mais tralha. Sem ela percebemos a nossa verdadeira dimensão.

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