12 abril 2020

Das festas que escolhemos

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Não tenho feito pão, nem bolos, nem compotas, nem licores, nem nada que se coma, para além do que já fazia antes do confinamento obrigatório – umas saladinhas, uns ovinhos cozidos, enfim, deixo a comida para o expert cá de casa.


Mas ontem resolvi recuperar um pouco da minha veia artística e inventiva e resolvi fazer uma mousse de chocolate, já várias vezes tentada e muitas sem grandes resultados.


Portanto comprei uma tablete de 200 g de chocolate negro com 70% de cacau, parti-o em pedaços para dentro de um tacho, juntei 150 g de açúcar, um bocado de leite do dia gordo (não medi, mas foram cerca de 100 a 150 ml) e, grande acrescento que aprendi por essa internet fora, uma colher de sopa de azeite. Sim, leram bem: uma colher de sopa de um bom azeite. Liguei o fogão baixinho, para o chocolate derreter e não queimar.


Entretanto tinha deixado 6 ovos fora do frigorífico para ficarem à temperatura ambiente – li algures que isso fazia tooooooooda a diferença. Separei as gemas das claras e mexi muito bem as gemas, com uma colher de pau, de forma a que se transformassem num creme amarelado e homogéneo.


Depois do chocolate ficar em papa com o açúcar, o leite e o azeite, tudo muito bem mexido, retirei do lume, deitei lá para dentro um bom golo de licor caseiro de poejo e, devagarinho e mexendo sempre com grande vigor (todas as minhas receitas necessitam e evidenciam enorme vigor), fui juntando o creme das gemas para se irem incorporando na papa de chocolate.


A seguir, sempre com o pensamento estratégico na finalização da dita mousse, que requer mais planeamento que o isolamento viral, bati as claras em castelo bem firme (o castelo, claro) com uma pitada de sal, outro dos grandes segredos mal guardados da culinária ancestral. Mal o castelo se manteve de cabeça para baixo sem sofrer a acção da gravidade, comecei a misturar levemente as claras com o preparado de chocolate, envolvendo-as delicadamente, desta vez sem qualquer vigor, para que a mousse ficasse leve.


Frigorífico com ela e hoje, após deglutir um cabrito que demorou séculos a assar, mas que estava delicioso (do qual não sei a receita porque não meti prego nem estopa na sua confecção), com esparregado e batatinhas novas com casca, foi devidamente apreciada por todos os que partilhamos a almoçarada.


Enfim, mesmo com as ameaças invisíveis que nos rodeiam tratámos de nos banquetear, celebrando a festa de estarmos juntos. E a festa somos sempre nós que a decidimos e escolhemos.

11 abril 2020

Da irrealidade dos dias que vivemos

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Via Sacra


Portinari


 


Não sei porque tentamos sempre encontrar uma explicação ou um propósito para o que nos acontece, individual ou colectivamente. Olhamos para os factos e pensamos sempre num qualquer propósito, num determinismo natural ou divino que faz com que os transtornos da vida tenham uma qualquer justificação e um qualquer significado moral. Não acho que o homem mereça os castigos divinos, que as doenças sejam uma punição ou que as calamidades naturais sejam a vingança de um qualquer deus.


Não acredito nisso. Não acredito na revolta da natureza transformada em pandemia vírica, na nossa redenção como cidadãos melhores, mais disponíveis e mais solidários no fim deste confinamento forçado. Aliás temo pelo adensar de situações de conflito e de violência, pelo tédio e ansiedade, pela depressão e pela escassez de dinheiro, pela confusão e pelo barulho, pela incapacidade de isolamento ou pela inusitada solidão.


O que podemos e devemos é tentar aproveitar esta situação para repensar algumas prioridades, refazer alguns processos e procedimentos, inventar formas de nos mantermos minimamente sãos. Assim, quando formos libertados, poderemos apreciar a vida mais livres e mais felizes.


Porque tudo isto há-de passar e seremos outra vez responsáveis e irresponsáveis, alegres e tristes, solidários e egoístas, como só os seres humanos sabem ser. E havemos de poder abraçar, apertar as mãos, beijar e mimar, quem nos apetece. E não haverá deus pequeno ou grande que no-lo possa impedir.

09 abril 2020

A Páscoa dos confinados

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O cabrito está no forno


O pão-de-ló a crescer


Nesta Páscoa sem retorno


Resistir é aprender


 


Sem a mãe à cabeceira


Para repartir o pão


Sem a graça que aligeira


O peso da comoção


 


Cada um tem seu tormento
que disfarça como pode
suspendendo o momento
se a tristeza lhe acode


 


Sacudir a incerteza


Abafar a solidão


O carinho sobre a mesa


Amêndoas de gratidão


 


O silêncio nos visita


A saudade nos acolhe


Do amor se necessita


No abraço que se escolhe


 

02 abril 2020

Os velhos

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Entrevista a Ramalho Eanes - RTP (01/04/2020)


 


São assim, os velhos. Repetem-nos aquelas coisas que nos fazem encolher os ombros e filosofar perante a decrepitude e a voracidade do tempo, perante a desadequação às modas e aos moderníssimos pensamentos, à moderníssima sociedade, à moderníssima actualidade. Tão previsíveis e, no entanto, tão agudos e certeiros no que de mais fundo e mais autêntico há nos seres humanos.


Os velhos, como se chamou Ramalho Eanes, com a voz tantas vezes embargada pela emoção e pelas lágrimas que engole. Sim, os velhos comovem-se muito e não se importam. Os velhos como ele a dizerem aquilo que nós nos esquecemos de sentir. Coisas tão simples como as inevitáveis e naturais escolhas que se fazem ao longo e no fim da vida, pela vida dos outros. Não para se gabarem, não para serem modelos, não para que os admirem, não para doutrinarem.


São assim, os velhos. Pelo menos alguns, pelo menos Ramalho Eanes. E era também assim o meu pai. Nunca como ontem a sua presença foi tão real e me foi tão dolorosa a sua ausência.

31 março 2020

Samba da utopia


Jonathan Silva


 


Se o mundo ficar pesado


Eu vou pedir emprestado


A palavra POESIA


 


Se o mundo emburrecer


Eu vou rezar pra chover


Palavra SABEDORIA


 


Se o mundo andar pra trás


Vou escrever num cartaz


A palavra REBELDIA


 


Se a gente desanimar


Eu vou colher no pomar


A palavra TEIMOSIA


 


Se acontecer afinal


De entrar em nosso quintal


A palavra tirania


 


Pegue o tambor e o ganza


Vamos pra rua gritar


A palavra UTOPIA


 

Das inaceitáveis desautorizações

Felizmente somos uma democracia e, apesar do declarado estado de emergência, a liberdade de expressão e a inexistência de censura são uma realidade.


Nas conferências de imprensa diárias, a DGS e um representante do governo, para além de outras pessoas de outras instituições, prestam contas e respondem a perguntas dos jornalistas. Ontem assim aconteceu e, a partir dos 32:17, a DGS responde a quem questiona o porquê da falta da cerca sanitária no Porto quando tal já tinha sido pedido.


A resposta, ao contrário do que foi amplamente replicado nas redes sociais, não me pareceu nada desastrada. Apenas foi a resposta a uma pergunta, ainda por cima fundamentada (a pergunta) numa carta que teria sido enviada por Rui Moreira ao MAI.


Não se pode pedir transparência e verdade aos responsáveis das Instituições e exigir que não respondam às perguntas politicamente incómodas. Pode e deve criticar-se aquilo que, tecnicamente, impede uma análise rigorosa da situação, como os problemas da colheita de dados para reporte, por exemplo. Pode e deve criticar-se a DGS por incongruências e inconsistências.


No entanto aquilo que Rui Moreira fez é inaceitável seja em que circunstâncias forem. Rui Moreira não tem que aceitar nem deixar de aceitar a autoridade da DGS. E se ontem alguém houve que não esteve à altura das suas responsabilidades foi precisamente o Presidente da Câmara do Porto, que resolveu assumir o papel de vítima numa situação em que apenas deverá imperar a avaliação do que poderá controlar o melhor possível, o avanço do contágio do vírus. Tal como aconteceu em Ovar.


Já agora convém perceber que as previsões de picos e de planaltos e dos momentos em que poderão acontecer dependem da evolução da epidemia e isso, como de resto tudo o que diz respeito a esta situação, tem uma reavaliação e reajustamento diários.


Graça Freitas está cansada? É natural, estamos todos. Eu estou particularmente cansada de tantos especialistas em COVID-19 que pululam na nossa sociedade. Apesar de tudo, as coisas até não estão a correr mal, pelo menos por enquanto. Assim se reconhece fora do país mas nós, como de costume, preferimos denegrir-nos.


(vale a pena ler este texto de Tiago Barbosa Ribeiro)

30 março 2020

O fado dos confinados

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Raul Pina Vicente


 


Quem diria que este fado


Seria algum dia escrito


Com o país confinado


Num reduto tão restrito


 


À janela como o gato


Estamos ao sol a crestar


E à noite sem recato


À lua vamos cantar


 


Vozes altas afinadas


Dedos soltos e trementes


As palavras libertadas


No louvor aos mais valentes


 


E o fado prisioneiro


Solta-se enquanto chora


Que o fado é sempre o primeiro


A voar pela noite fora


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...