07 abril 2018

Apesar de você


 Chico Buarque


 


 


 


Hoje você é quem manda


Falou, tá falado


Não tem discussão, não


A minha gente hoje anda


Falando de lado


E olhando pro chão, viu


 


Você que inventou esse estado


E inventou de inventar


Toda a escuridão


Você que inventou o pecado


Esqueceu-se de inventar


O perdão


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Eu pergunto a você


Onde vai se esconder


Da enorme euforia


Como vai proibir


Quando o galo insistir


Em cantar


Água nova brotando


E a gente se amando


Sem parar


 


Quando chegar o momento


Esse meu sofrimento


Vou cobrar com juros, juro


Todo esse amor reprimido


Esse grito contido


Este samba no escuro


 


Você que inventou a tristeza


Ora, tenha a fineza


De desinventar


Você vai pagar e é dobrado


Cada lágrima rolada


Nesse meu penar


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Inda pago pra ver


O jardim florescer


Qual você não queria


Você vai se amargar


Vendo o dia raiar


Sem lhe pedir licença


E eu vou morrer de rir


Que esse dia há de vir


Antes do que você pensa


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Você vai ter que ver


A manhã renascer


E esbanjar poesia


Como vai se explicar


Vendo o céu clarear


De repente, impunemente


Como vai abafar


Nosso coro a cantar


Na sua frente


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Você vai se dar mal


Etc. e tal


Lá lá lá lá laiá

05 abril 2018

Retratação

O Governo explicou-se mal e as pessoas compreenderam mal


 


Não. Mesmo que as desilusões sejam grandes e que o governo tenha gerido muito mal este assunto cultural, ainda bem que já não é a direita que está ao leme deste país, com uma retórica que não muda. Tenho que me retractar.

31 março 2018

Prece


 Amália Rodrigues


 



Catarina Wallenstein


Pedro Homem de Mello & Alain Oulman


 


Talvez que eu morra na praia


Cercada em pérfido banho


Por toda a espuma da praia


Como um pastor que desmaia


No meio do seu rebanho.


 


Talvez que eu morra na rua


E dê por mim de repente


Em noite fria e sem luar


E mando as pedras da rua


Pisadas por toda a gente.


 


Talvez que eu morra entre grades


No meio de uma prisão


Porque o mundo além das grades


Venha esquecer as saudades


Que roem meu coração.


 


Talvez que eu morra de noite


Onde a morte é natural


As mãos em cruz sobre o peito


Das mãos de Deus tudo aceito


Mas que eu morra em Portugal.

Desilusões

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O grande problema é que nos iludimos. Acreditámos que, desta vez, ia ser diferente.


 


Mas não. Apenas há a promessa da diferença, bem aconchegada no preconceito que temos de que a esquerda ama as artes, a cultura, o povo, e de que a direita é ignorante, imprópria para consumo, descartável.


 


Afinal são ambas - a esquerda e a direita - e o nosso preconceito estende-se à fantasia de que este país um dia perceberá que é na cultura que está o nosso motor de desenvolvimento.

Do amor

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Mulher e criança


Zhang Yaxi


 


 


Falamos tanto de amor, do amor, com a mão no peito e os olhos semicerrados, enchendo a voz de intensidade e aquilo a que todos convencionámos que é amar. Diariamente e desde sempre, ou pelo menos desde que nos habituámos a considerar tudo o que é íntimo como parte integrante do espaço público, reduzindo ou excluindo o direito ao segredo, ao privado, ao não partilhável, somos inundados por imagens e ideologia de como se deve amar, do que é o amor correcto, decente, moderno, tolerante, querido, trendy.


 


E no entanto, o que experimentamos é tantas vezes diferente, o amor que vivemos é tantas vezes menos glamoroso, menos cintilante, é tantas vezes doloroso, rotineiro, entediante, é tantas vezes violento, irascível, sufocante, é tantas vezes mais verdadeiro, mais constante, mais fundo, mais maravilhoso.


 


O amor não tem receitas nem normativos, o amor não tem amarras nem correctivos, o amor arranha-nos e abraço-nos, é o que nos perde e o que nos salva, é paixão, amizade, contenção, carinho, resistência, resiliência, luta, incapacidade, distância, reconhecimento, companhia, partilha, segredo, a nossa funda e discreta alegria, a nossa intrínseca e indispensável respiração. O amor tem ângulos, estrias, poços de lama, armas em riste, conversações de paz, estratégias e diplomacias, palhaçadas, risos, silêncio, serenidade, hábitos. O amor envelhece e reforma-se, renova-se e adormece, renasce e reacende-se todos os dias.


 


Todos os dias nos amamos e odiamos, em repentes e em remoinhos, as mães, os pais, os filhos, os irmãos, os maridos, as mulheres, os amantes, os vizinhos, os colegas, a humanidade em geral. Sem remédio nem sentido, o amor é o que de mais individual, único e especial cada um de nós tem para dar e receber.

30 março 2018

Das decisões ponderadas em política externa

Ao contrário do que vozes ligadas ao PSD advogam, parece-me muito serenaavisada a posição do governo português em relação ao conflito diplomático com a Rússia, por causa do envenenamento do ex-espião russo e a filha. Por muito que acreditemos que é obra de Putin, há uma investigação em curso e deve haver prudência para evitar conclusões precipitadas.


 


Não me esqueço que Portugal apoiou a guerra do Iraque, contra a resolução da ONU, seguindo as posições do Reino Unido e dos EUA, acreditando na existência de armas de destruição massiva, que se provou ter sido uma mentira para justificar a guerra. Apesar da posição de muita gente sensata, como Freitas do Amaral e Mário Soares, entre outros, o governo português colou-se de imediato e com subserviência às ordens inglesas e americanas.


 


Pois ainda bem que, desta vez, não o fez.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...