
Aqua I
Meço o tempo pelas palavras
cada vez mais curtas
cada vez mais escassas
cada vez mais duras
instalando-se o silêncio
nesta doce melodia
do esquecimento.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]

Aqua I
Meço o tempo pelas palavras
cada vez mais curtas
cada vez mais escassas
cada vez mais duras
instalando-se o silêncio
nesta doce melodia
do esquecimento.
Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.
Não está em causa o que significam as atitudes de Barreiras Duarte. Mas tudo isto já se sabia desde há bastante tempo. A razão de todo este alarido agora é unicamente para arrasar Rui Rio.
A luta política está cada vez mais baixa. Não é Rui Rio que acaba chamuscado, mas a capacidade de fazer uma oposição efectiva ao governo.

Sempre achei a palavra guacamole muito divertida – parece um coaxar de uma rã qualquer, até é feito com abacate que é tão verde como esse batráquio. Além disso dá-me a sensação de que não se pode pronunciar guacamole sem gaguejar.
Vem tudo isto a propósito da sacada de abacates que, de vez em quando, alguém que se preocupa comigo e me mima muito, me dá para ver se me transformo numa sílfide saudável, o que é bastante difícil, se não mesmo impossível. Mas a esperança é sempre a última a morrer. Hoje dei conta de que os abacates tinham amadurecido e resolvi arriscar um guacamole. Depois de pesquisar receitas, decidi-me a fazer assim:
Peguei em 2 abacates e esmaguei-os com um garfo, dentro de uma tigela de vidro, regando com um pouco de sumo de lima, para não oxidarem; cortei 2 tomates médios, nem muito verdes nem muito maduros, descasquei-os, retirei as sementes e cortei-os em pedacinhos pequeninos. Fiz o mesmo com meia cebola (era grande) e esmaguei um enorme dente de alho. Ainda cortei grosseiramente um molhinho de coentros, misturei tudo com a pasta de abacate, reguei com mais um pouco de sumo (o equivalente a meia lima) e temperei com sal (grosso) e um pouco de pimenta. No fim resolvi usar a varinha mágica para ficar tudo um puré.
Apesar dos olhos duvidosos com que os comensais cá de casa olharam para mim e para o meu cozinhado, comeram-no bastante bem, depois de o provarem, a medo. Foi um êxito, portanto.
E já agora, é de coisas simples que precisamos. Para ouvir uma cantora mexicana já desaparecida - Chavela Vargas - cantando Las simples cosas (penso que a canção é originária da Argentina).
Uno se despide
Insensiblemente de pequeñas cosas
Lo mismo que un árbol
Que en tiempo de otoño se queda sin hojas
Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas
Esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón
Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida
Y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas
Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo
Demorate a ti, en la luz solar de este medio día
Donde encontraras con el pan al sol la mesa tendida
Por eso muchacha no partas ahora soñando el regreso
Que el amor es simple y a las cosas simples las devora el tiempo
Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amo la vida
The Communards
Harold Melvin The Blue Notes
Thelma Houston
Don't leave me this way
I can't survive, I can't stay alive
Without your love, no baby
Don't leave me this way
I can't exist, I will surely miss your tender kiss
So don't leave me this way
Oh, baby, my heart is full of love and desire for you
So come on down and do what you've got to do
You started this fire down in my soul
Now can't you see it's burning out of control
So come on down and satisfy the need in me
'Cause only your good loving can set me free
Don't leave me this way
I don't understand how I'm at your command
So baby please, so don't you leave me this way
Oh, baby, my heart is full of love and desire for you
So come on down and do what you've got to do
You started this fire down in my soul
Now can't you see it's burning out of control
So come on down and satisfy the need in me
'Cause only your good loving can set me free
(Come satisfy me, come satisfy me
Come satisfy me, come satisfy me
Come satisfy me, come satisfy me)
Don't you leave me this way
Don't leave me this way,
Ooh, baby, I can't exist, I will surely miss your tender kiss
So don't leave me this way
Oh baby, my heart is full of love and desire for you
So come on down and do what you've got to do
You started this fire down in my soul
Now can't you see it's burning out of control
So come on down and satisfy the need in me
'Cause only your good loving can set me free
(Set me free, set me free, set me free, set me free, set me free
Set me free, set me free, oh baby)
Don't you know by now, don't you know by now
Don't you know by now, don't you know by now
I'm losing control, I'm losing control

weathered
Se morresse aos bocados
não sei que pedaço poderia deixar
um pouco mais de tempo para que perecesse
mais tarde estendendo a sua agonia
enquanto não se lembrasse da finitude
e do arrasto que vamos sendo
decaindo primeiro o ombro depois a mão
fechando primeiro um olho reabrindo as pálpebras
sem que percebesse a falta de luz e a transparência.
Se morresse aos bocados
que palavra poderia ainda murmurar
enquanto a pele não esfriasse de todo
e a minha mão fizesse ainda sentido
e se enredasse na tua antes que por fim
me despedisse e te pedisse todo o esquecimento.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...