02 dezembro 2017

Prosas Bíblicas - Livro 3

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(…) A matéria-prima desse infinito labor continuam a ser as palavras – “Com palavras amareis um pouco ou totalmente / Pelas palavras o nada será o todo eloquente” – , (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


9.


Escavareis a terra com as mãos da solidão


Cantareis a alma com a voz da paixão


Usareis o alento do corpo sem salvação


Expiareis com a vida o peso da ambição


 


Pelas palavras semeareis o fruto e a semente


Nas palavras sofrereis a pomba ou a serpente


Com palavras amareis um pouco ou totalmente


Pelas palavras o nada será o todo eloquente


 


Livro 3 (pág. 71)

Prosas Bíblicas - Livro 2

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(…) Digamos que na segunda parte ecoa uma atitude mais pessoal, talvez mais próxima dos pequenos dramas de cada um de nós, mais interrogativa perante as escolhas a que, melhor ou pior, a vida sempre nos obriga: “E agora que faço comigo matéria informe que se criou / e por céus e terras em paixões secretas alastrou / de ti desabrigada por ti desmanchada em ti / teimosamente escondida?” (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


8.


Nasceram-me braços e pernas cresceram-me bocas e línguas


fundiram-se sangue e saliva cozeram-se peles e dias.


E agora que faço comigo matéria informe que se criou


e por céus e terras em paixões secretas alastrou


de ti desabrigada por ti desmanchada em ti


teimosamente escondida?


 


Livro 2 (pág. 56)

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Aqui, os sentimentos são também razões e vice-versa, numa fusão mediante a qual todas as fronteiras conceptuais parecem esbater-se, num mecanismo cujo efeito pode ser, de certo modo, libertador, mas permanece ciente da humildade humana perante uma outra dimensão (chamemos-lhe divina) que radica no humano mas se situa infinitamente para lá do humano: “Ao longe está a candeia / As flores que sempre sonhei / Desejo que me incendeia / Palavras que eu criei // As grades estão quebradas / O dia escureceu / Tenho mil e uma estradas / Nenhuma que chegue ao céu”. (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


12.


Sequei a água do mar


Abri as portas que encerra


O mundo a transbordar


Das incertezas da terra


 


Ao longe está a candeia


As flores que sempre sonhei


Desejo que me incendeia


Palavras que eu criei


 


As grades estão quebradas


O dia escureceu


Tenho mil e uma estradas


Nenhuma que chegue ao céu


 


Livro 1 (pág. 26)

01 dezembro 2017

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) Não vale a pena, portanto, conceber categorias rígidas ou sistemáticas para um conhecimento cuja amplitude é essencialmente holística e só pode funcionar como um todo, no qual não conseguimos separar a razão e o coração: “Senhor Deus falta-me o ar / Nesta Babel de emoções / Sem conseguir separar / Sentimentos de razões”. (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


20.


Senhor Deus falta-me o ar


Nesta Babel de emoções


Sem conseguir separar


Sentimentos de razões


 


Os dardos que te roubei


São ramos envenenados


Palavras com que matei


Cordeiros sacrificados


 


As portas estão fechadas


Os lacraus fazem a guarda


Milhões de línguas caladas


Descanso que ainda tarda


 


Fujo de ti meu Senhor


Sem sequer olhar em frente


Nos braços do teu andor


Passeia o medo da gente


 


Livro 1 (pág. 34)

Elixir da alma


Manuel de Oliveira

Prosas Bíblicas - Livro 1

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(…) É dessa matéria terrestre, corporal, palpável, que temos sempre de partir para encetar outros voos, o que implica que, tal como na Bíblia, a linguagem aqui veiculada é eminentemente simbólica, fazendo apelo a uma dimensão metafórica latente em todas as palavras que proferimos, cujo alcance acaba por ser bem mais amplo do que seria o seu significado literal: “Suspendo a luz que semeia / A ânsia do teu perfume / Palavra que incendeia / O feno do meu ciúme // Recebe-me em fogo lento / Os beijos que te confortam / Desfaz-te do desalento / Das cordas que te sufocam”. (…)


O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas


 


4.


Suspendo a luz que semeia


A ânsia do teu perfume


Palavra que incendeia


O feno do meu ciúme


 


Recebe-me em fogo lento


Os beijos que te confortam


Desfaz-te do desalento


Das cordas que te sufocam


 


Se ainda sentes na sombra


O manto da descoberta


Esquece o medo que assombra


O sonho que te liberta


 


Livro 1 (pág. 18)

Voar


 Xutos e Pontapés


 


Eu queria ser astronauta


o meu país não deixou


Depois quis ir jogar á bola


a minha mãe não deixou


Tive vontade de voltar a escola


mas o doutor não deixou


Fechei os olhos e tentei dormir


aquela dor não deixou.


 


Ó meu anjo da guarda


faz-me voltar a sonhar


faz-me ser astronauta ...e voar


 


O meu quarto é o meu mundo


o ecrã é a janela


Não choro em frente á minha mãe


eu que gosto tanto dela


Mas esta dor não quer desaparecer


vai-me levar com ela


 


Ó meu anjo da guarda


faz-me voltar a sonhar


faz-me ser astronauta....e voar


 


Acordar meter os pés no chão


Levantar e dar o que tens para dar


Voltar a rir, voltar a andar


Voltar Voltar


Voltarei


Voltarei


Voltarei


Voltarei

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